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Correio Braziliense

O caminho até o Planalto: como Bolsonaro se tornou presidente do Brasil

Com o discurso antipetista, o uso das redes sociais e posições firmes, principalmente na área de segurança pública, Jair Bolsonaro conseguiu derrotar o partido do adversário Fernando Haddad com uma diferença de 10 milhões de votos


postado em 29/10/2018 06:00

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)

Com a Bíblia e a Constituição colocadas estrategicamente no centro da mesa, Jair Bolsonaro (PSL) fez o primeiro pronunciamento como presidente eleito do Brasil numa transmissão on-line, a partir de casa, no Rio de Janeiro. Ali, minutos antes das 21h, do alto dos 55,13% dos votos válidos, garantiu governabilidade, citou Deus e prometeu o que chamou de fim de “flerte com o comunismo”. Apenas depois das declarações para as redes sociais — o principal terreno da campanha do militar reformado do Exército —, ele falou para veículos de imprensa e garantiu a defesa da liberdade e da democracia. A vitória sobre o petista Fernando Hadadd o torna 42º ocupante do cargo máximo do país.

No discurso, anunciou o nome do quarto ministro: o astronauta Marcos Pontes, que irá para a Ciência e Tecnologia. Os outros são o general Augusto Heleno (Defesa), o deputado Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e o economista Paulo Guedes (Fazenda). E lembrou da decisão de se candidatar, há quatro anos, logo depois de conquistar o sétimo mandato de deputado federal, em 2014. O plano, entretanto, é anterior. Vem desde os tempos em que fazia campanha para vereador montado numa motocicleta, ainda no distante ano de 1988. Por mais que os aliados mais próximos duvidassem, ele guardou para si a escolha do melhor momento para se lançar de uma vez no maior de todos os desafios.

Em 2014, Bolsonaro entendeu melhor do que ninguém a polarização política. A reeleição de Dilma Rousseff, em vez de pacificar o país, colocou ainda mais gasolina no fogo das disputas abertas pelo poder. Pelo celular, a partir das redes sociais, fez a leitura correta de uma país dividido, dando mais do que sinais de uma rejeição ao partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — agora preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. A aposta era crescer entre os eleitores contrários ao petista, algo que até os tucanos em 2010 e 2014 — José Serra e Aécio Neves, respectivamente — não fizeram. A estratégia foi ignorada pela maioria dos cientistas políticos ao longo de três anos, mesmo com a visibilidade de Bolsonaro no processo de impeachment de Dilma. O motivo para a desconfiança estava num suposto teto por causa da força de Lula no Norte e no Nordeste e pela rejeição a declarações polêmicas do capitão reformado.

Consolidação

Os avanços nos apoios ao longo dos últimos meses mostrou que as avaliações estavam erradas, principalmente pela consolidação dos votos. Os maiores picos de crescimento, entretanto, vieram depois do atentado sofrido em Juiz de Fora (MG), em 6 de setembro, o episódio mais marcante da campanha. Ao longo dos últimos dois meses, o Correio entrevistou uma série de analistas eleitorais. Entre as opiniões convergentes, uma se destaca: a autenticidade do discurso do candidato para um eleitor cansado das denúncias de corrupção e desenganado com a crise econômica. “O que se sabia até 2014 era que havia uma parcela da população com uma carga conservadora, contrária à reforma agrária, por exemplo. Mas isso se ampliou”, disse o professor Ivo Coser, coordenador do Núcleo de Teoria Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esse grupo de eleitores poderia dar a Bolsonaro algo em torno de 15% das intenções de votos. O deputado federal, porém, ultrapassou tal teto, quase levando a eleição ainda no primeiro turno.

O detalhe é que, ao longo do segundo turno, Bolsonaro jogou parado, como se administrasse a diferença de votos conseguida na primeira etapa. Arriscou ao não participar de debates. O cientista político Jairo Nicolau, da UFRJ, comparou os resultados da votação total do primeiro turno com a pesquisa Ibope do último sábado. A partir dos números, o capitão reformado saiu das urnas com 42% dos votos, chegando em relação ao levantamento de índice de votos em 47%. O petista Haddad, pelos mesmos parâmetros, saiu de 27% para 41%. Sem fazer análises sobre o significado dos números, o candidato do PSL cresceu apenas cinco pontos percentuais, enquanto o petista bateu 14. O crescimento de Haddad ocorreu apenas nos últimos dias de campanha, segundo as pesquisas, o que causou tensão no grupo de Bolsonaro.

Nas últimas 48 horas antes do segundo turno, o que mais abalou o grupo foi o apoio declarado do ex-ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa. O magistrado, em um tuíte, disse: “Votar é fazer uma escolha racional. Eu, por exemplo, sopesei os aspectos positivos e os negativos que restam na disputa. Pela primeira vez em 32 anos de exercício do direito de voto, um candidato me inspira medo. Por isso votarei em Fernando Haddad.” Bolsonaro, em entrevista ao CB.Poder, uma parceria entre o Correio e TV Brasília, logo depois da desistência de Barbosa da corrida, em maio, disse que a maior parte dos votos do ex-ministro iria para ele. “Até porque esse eleitor não sabe que ele é de esquerda realmente. Agora, o pessoal começa a mostrar a verdadeira face dele. No meu entender, serei o maior beneficiário desse espólio.” A declaração pública de Barbosa no último sábado pegou o então candidato de surpresa.

Perfil

Nascido em Campinas há 63 anos, Jair Messias Bolsonaro é filho de pais de ascendência italiana. Casou-se três vezes e tem cinco filhos. Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras do Exército, atuou em grupos de paraquedismo e artilharia a partir de 1977. A primeira incursão pela política veio em 1986, quando publicou um artigo na revista Veja defendendo o aumento dos salários dos militares. A partir daí, sempre com apoio de integrantes da tropa, foi eleito vereador e, depois, deputado federal por 28 anos. Ao longo desse período, procurou os holofotes a partir de controversas, algumas odiosas para parte dos eleitores, polemizando em discursos e declarações sobre mulheres, negros e gays.

Bolsonaro deixa a farda em busca da política antes de uma qualificação mais refinada, por isso, sempre foi visto com reservas por oficiais mais graduados, principalmente das outras duas forças, com a Marinha. Os militares do Exército, como mostrou o Correio, entraram de cabeça na campanha no segundo turno. Parte dos oficiais da Força, ao longo do dia de ontem, torcia para que Bolsonaro ganhasse, mas não conseguisse uma maioria esmagadora, a ponto de conquistar uma hegemonia entre a população. “Isso será bom para a democracia, não tenha dúvida”, disse um oficial.

Durante os discursos como vitorioso, Bolsonaro disse que vai fortalecer a bancada governista. A questão é que o número de votos do petista Haddad (45%) deve mobilizar a oposição contra projetos relacionados ao meio ambiente e segurança pública — neste último caso, o fim do Estatuto do Desarmamento. Em entrevistas, Bolsonaro garantiu que essa será a primeira medida de governo, mas amenizou o tom, defendendo a posse da arma em casa, e não o porte. O estica-e-puxa no Congresso e a continuidade da polarização deverá ser a tônica do novo governo. “Nas últimas sete eleições, a média dos percentuais dos candidatos eleitos foi de 55%, exatamente o percentual de Bolsonaro”, disse Carlos André Machado, diretor do Instituto Opinião Política, responsável pelos levantamentos encomendados pelo Correio. “Isso demonstra claramente que o Brasil continua dividido e polarizado.”

Ontem à noite, porém, Bolsonaro queria apenas marcar as primeiras posições. Entre elas, prometeu libertar o Itamaraty do “viés de esquerda”. No fim, fez questão de registrar a ligação do presidente norte-americano Donald Trump para parabenizá-lo. A aproximação com o republicano é um dos principais objetivos do capitão reformado.

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