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Correio Braziliense

Moradores reclamam de abandono na região da Granja do Torto

Vizinhança do local que deverá abrigar Bolsonaro nos próximos meses cobra presença do Estado


postado em 31/10/2018 06:00

Alexandra e Maria Aparecida esperam que a vida melhore com a reativação da residência de campo oficial(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Alexandra e Maria Aparecida esperam que a vida melhore com a reativação da residência de campo oficial (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), conviverá de perto com as marcas do abandono do Estado quando chegar a Brasília, na próxima terça-feira. O pesselista terá à disposição, como moradia, a casa de campo oficial da Presidência da República, localizada na Granja do Torto. A propriedade, de 37 hectares, faz divisa com lotes regularizados ou não, de pessoas mais ou menos abastadas. Pobres ou ricos, os vizinhos dividem experiências com o descaso da região. Do asfalto precário à escola que matricula crianças apenas até o 5º ano, além da unidade básica de saúde que dispõe de médico apenas três vezes na semana, são muitos os problemas que cerca de 3,5 mil moradores da região enfrentam diariamente. São reflexos de um Brasil com que o próximo chefe do Executivo federal precisará lidar.

As dificuldades são muitas. Mesmo no Setor de Chácaras da Granja do Torto, área que faz divisa com a residência oficial, falta iluminação pública. Quando anoitece, boa parte da área fica entregue à escuridão. Com sorte, a luz da lua auxilia crianças e adultos no retorno ao lar em trajetos que levam cerca de até 4km, dizem moradores. Afinal, o transporte público não chega a todas as localidades.

O acesso a água tratada tornou-se uma realidade há cerca de três meses. Antes, a gerente de obras Alexandra Rodrigues de Jesus, 39 anos, buscava água no rio. “Aqui, damos nosso jeito para sobreviver. Estamos abandonados pelo governo. Se precisamos reformar ou construir algo, tiramos dinheiro do próprio bolso para realizar a obra”, disse. A parada de ônibus improvisada mais próxima de onde ela mora é fruto da união dos moradores.



A realidade de boa parte dos moradores da região da Granja do Torto é a de quase ausência do Estado, algo que o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão (PRTB), prometeu combater. Durante a campanha, ele sugeriu até um “autogolpe” por parte do presidente, com apoio das Forças Armadas, para evitar uma “anarquia generalizada”. O descaso e desalento vividos hoje provoca saudosismo na artesã Maria Aparecida de Oliveira, 53 anos.

Entre 1979 e 1985, o general João Figueiredo — o último presidente do regime militar — usou a casa de campo como moradia fixa, onde criava cavalos. Naquele período, o Exército marcava todo o território, diz Aparecida. “A segurança era total. Ele passeava com a cavalaria e cumprimentava a vizinhança. Era quase íntimo da minha família. Hoje, vivemos em meio à insegurança, sem proteção”, criticou.

Pioneira na Granja, Aparecida viu quase todos os presidentes usarem a moradia oficial, desde a criação de Brasília. Ela, a mãe e o pai, que foi cozinheiro no Catetinho durante o governo de Juscelino Kubitschek, apreciavam a segurança na região que, segundo ela, deixou de existir após a redemocratização. Ela e Alexandra esperam um cenário diferente com Bolsonaro, que seguiu carreira militar. “Queremos a esperança de uma nova era, com verdadeira ordem e progresso. E mudanças na segurança, saúde, educação e no emprego”, cobram.

Promessas


O saudosismo dos tempos de Figueiredo e o desejo de um país comandado com autoridade é partilhado pelo pintor e muralista Luiz Costa, 61 anos, o “pintor dos candangos”, premiado no Brasil e no exterior. Ele diz que o perfil militar de Bolsonaro o faz ter boas recordações e desejar que a ordem seja restabelecida. “Cresci pintando e dormindo em paradas de ônibus. Não tinha dinheiro para cortar o cabelo e fazer a barba. E nunca fui coagido por um militar. Quem não deve não teme”, declarou.

A expectativa de Costa é de que, após a vitória nas eleições, Bolsonaro cumpra as promessas feitas na campanha. Ele diz que se desiludiu com o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por quem deixou de ter identificação. Afirma esperar que o presidente eleito una o país, respeite as liberdades e a democracia e ajeite o Brasil e Brasília, cidade que chama de “capital mundial da poeira”. “E se não fizer isso, a gente tira ele”, declarou.


Preocupação


A falta de segurança é uma das questões que mais preocupam os moradores da Granja do Torto. Maria Aparecida de Oliveira diz que, somente este ano, quatro mulheres foram estupradas. O último crime ocorreu em agosto. Durante as manifestações pró-Lula, naquele mês, cerca de 1,5 mil integrantes do Movimento Sem Terra (MST) acamparam na região. Um deles, Robson Machado dos Santos, 23 anos, foi preso suspeito de estuprar e tentar enforcar uma vítima. O MST negou o envolvimento do agressor com o movimento.

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