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Correio Braziliense

Eles, Bolsonaro; elas, Haddad: eleições dividiram jovens por gênero

Pesquisa mostra que homens e mulheres entre 16 e 24 anos tiveram votos opostos no segundo turno. Contexto social e discursos ideológicos falaram mais alto na hora de esse público ir às urnas e optar entre Bolsonaro e Haddad


postado em 03/11/2018 08:00

As escolhas dos irmãos Joyce e João Paulo refletem o comportamento eleitoral do brasileiro médio(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
As escolhas dos irmãos Joyce e João Paulo refletem o comportamento eleitoral do brasileiro médio (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Ainda há resquícios da corrida eleitoral por todos os lugares. Passada uma semana do segundo turno das eleições, apoiadores do presidente eleito e opositores dele ainda sofrem com rusgas e discussões causadas pelos embates ideológicos. Nesse cenário, a parcela jovem da população é uma das mais atingidas. De acordo com levantamento do Datafolha, na véspera da votação, se dependesse das mulheres que têm entre 16 e 24 anos, Fernando Haddad, do PT, seria presidente do país com quase 60% dos votos. Já se a decisão estivesse na mão dos homens dessa faixa etária, o resultado seria parecido com o do último domingo: 60% para Bolsonaro e 40%, para Haddad.

Na casa da família Freitas, a situação não é diferente. Separados pela ideologia, os irmãos Joyce, 19 anos, e João Paulo, 24, votaram seguindo a disposição: ela, em Haddad; ele, em Bolsonaro. Joyce é estudante de arquivologia na Universidade de Brasília (UnB). João estuda direito no Centro Universitário Iesb e é militar. Desde as eleições, deixaram de se falar. Para ela, o irmão, “assim como os eleitores de Bolsonaro”, “não defende o feminismo”. “Eu me considero feminista”, diz. Para ele, a irmã foi “suscetível a uma ideia em que ele não acredita”. “Eu saí de casa com 17 anos e fui para o Exército Brasileiro. Ela, com 17 anos, foi para uma faculdade federal, onde a esquerda está presente”, opinou.

Casos como o de Joyce e João Paulo estão espalhados pelas rodas de conversas, pelas salas de aula e pelos ambientes familiares. Reflexo da votação geral, o comportamento eleitoral deles foi, segundo especialistas ouvidos pelo Correio, influenciado pelo gênero e pelas motivações pessoais.

O cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, acredita que os ideais de igualdade discutidos com mais firmeza nos últimos anos pelas mulheres motivou as jovens a votarem em Haddad, e não em Bolsonaro. “Essa juventude é formada por meninas que nasceram em uma nova vertente. É um momento em que a sociedade prega mais liberdade. Como foi feita uma campanha muito forte ressaltando a questão do conservadorismo do Bolsonaro — e, eventualmente, se passou que ele defendia direitos diferentes para homem e mulher —, isso acabou levando, principalmente elas, a não necessariamente apoiarem o PT, mas a refutarem teses conservadoras”, analisa.

 

Perfis

Joyce está enquadrada no perfil delineado pelo cientista político. De acordo com ela, “algumas ideologias do PT não são ideais, mas (nas eleições) era a melhor opção”. “Eu, por ser mulher, sofro com o machismo. Quando vi que as opções eram Haddad e Bolsonaro, já havia decidido que no Bolsonaro não votaria de jeito nenhum. Então, fiz propaganda para o Haddad”, explica. Já João Paulo preferiu priorizar a ideologia liberal econômica e o discurso anticorrupção. “O Brasil precisava de um rumo devido ao desemprego. Nesse contexto, a corrupção da esquerda e do PT foi só aumentando. Já excluí a esquerda de cara”, conta João.

60%
Porcentagem de mulheres entre 16 e 24 anos que votaram em Haddad e de homens da mesma faixa etária que escolheram Bolsonaro, segundo o Datafolha

 

 

Os motivos de cada um  

Daqui para frente, as mulheres de 19 a 24 anos que votaram em Haddad e refutaram fortemente as ideias de Jair Bolsonaro seguirão atentas, mesmo com a frustração. Caso de Ana Cristina, 22 anos. “As políticas públicas voltadas para algumas áreas serão deixadas de lado e, enquanto o país estiver evoluindo aos olhos das maiorias, as minorias tenderão a não ter vez e voz”, acredita.

Jovens com ideias semelhantes ainda buscam representatividade na política. O número de mulheres no Congresso, mesmo que de forma discreta e conservadora, aumentou. Porém, até agora, todos os ministros anunciados são homens. Especula-se que o Ministério de Desenvolvimento Social — que receberá Direitos Humanos — seja liderado por uma mulher ligada a movimentos sociais. Essa pode ser uma estratégia da equipe de Bolsonaro para agradar a parcela feminina. Para o cientista político Cristiano Noronha, essa faixa da população deve ser vigilante. “Vai depender dos resultados que a gestão de Bolsonaro produzir. Ele tem uma missão de conquistar alguns grupos antibolsonaro, inclusive jovens e mulheres”, afirma.

O atendente de telemarketing Geovane Jean, 24 anos, foi motivado a votar em Jair Bolsonaro pelo combate à criminalidade. Ex-morador de Planaltina-DF, mudou-se para Planaltina de Goiás, a 60km do Plano Piloto, e assustou-se com os altos índices de assaltos e homicídios na região próxima de casa. “Acordava às 3h30 da manhã para trabalhar no Setor de Indústria e Abastecimento. Não tinha um dia em que saía de casa sem medo de ser assaltado. Senti na pele o medo”, desabafa. “Bolsonaro demonstra que vai bater de frente nesse sentido.” Geovane, que não acompanhava política até pouco, não se identificou com os ideais de esquerda e, assim como a maioria dos amigos, firmou o voto no candidato do PSL. “A esquerda ficou muito tempo no poder e esta foi a vez da mudança. A corrupção não deve ter vez”, emendou.

 

*Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles

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