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Opinião: A (triste) maioria

Assisti a uma entrevista esta semana que me preocupou. Não vi grande repercussão, a não ser pelo inglês do futuro vice-presidente do Brasil, general Hamilton Mourão, ao responder a alguns questionamentos de uma rede britânica de jornalismo sobre os planos do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Quando a repórter pergunta a Mourão o que ele teria a dizer para as minorias brasileiras, como LGBTs e negros, o futuro número 2 do Brasil diz: ;Primeiro de tudo, eu digo a você que negros não são minoria no Brasil. Eles representam... Eu acho que a maioria;. Ele está certo, apesar de estar errado.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traz números que comprovam que os negros são, sim, maioria no Brasil: 54% da população se autodeclara preta. Mas quando se fala em maioria, temos de ir além. Há 11,8 milhões de analfabetos no país. A taxa de analfabetismo entre os brancos é de 4,2%. Entre os negros, esse índice chega a 9,9%, ou seja, são a maioria entre os analfabetos.

Das pessoas de 25 anos ou mais com ensino superior, 9,3% são negras. Os brancos somam 22,9%. Ou seja, a maioria dos negros NÃO está na universidade. Mesmo com o sistema de cotas, criticado por tanta gente. Afinal, somos todos iguais e quem não está na faculdade, provavelmente, é porque não quer, não é mesmo? Infelizmente, não é. Mesmo.

Quando o assunto é trabalho infantil, mais uma vez os negros são maioria. Em 2016, últimos números divulgados pela Pnad Contínua sobre o tema, 1.835 crianças de 5 a 7 anos trabalhavam. Desses, 35,8% eram brancos. Os negros eram (adivinhe) a maioria: 63,8%.

O país tem 3,1 milhões de pessoas buscando emprego há mais de dois anos. A taxa de desocupação entre pessoas pretas é de 15%, a de pardos é de 14,4%. Os brancos ficam apenas com 9,9% dessa fatia, segundo Pnad Contínua, do IBGE. Maioria mais uma vez? Bingo!

Um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado há um ano, revelou que 71% das vítimas de homicídio no Brasil, registrados entre 2005 e 2015, eram negras. No mesmo período, a análise comprovou alta de 18% de ocorrências do tipo envolvendo pessoas pretas. O mesmo índice mostrou que o número de brancos mortos violentamente teve queda de 12%. Negros, mais uma vez, maioria.

Não há como tratar todos de forma igual quando nem todos têm, de fato, as mesmas chances. Há histórias de vida diferentes, infelizmente. Nem todos têm as mesmas oportunidades de crescer na vida, de se manter vivo, saudável, bem-educado e trabalhando. Aparentemente, a cor da pele é fator determinante. Os números dizem por si só.