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Correio Braziliense

Incerteza sobre intenção do Brasil em sediar a COP-25 preocupa estudiosos

Novo governo mantém suspense sobre intenção de sediar a COP-25, em 2019, e preocupa especialistas. Nome do país que receberá a conferência será anunciado durante a edição polonesa, no mês que vem


postado em 10/11/2018 07:00

Salvador seria uma das cidades interessadas em receber o evento internacional(foto: Marília Almeida - Wikimedia - 9/7/18)
Salvador seria uma das cidades interessadas em receber o evento internacional (foto: Marília Almeida - Wikimedia - 9/7/18)

A um mês do anúncio do país que presidirá a Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) de 2019, é incerta a candidatura do Brasil a sede do evento. A equipe de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro, ainda não tocou no assunto. Também não se confirmou, até agora, quem ocupará a pasta do Meio Ambiente. Especialistas temem que Bolsonaro, que chegou a dizer que sairia do Acordo de Paris e depois voltou atrás, não se interesse em manter a aspiração brasileira à presidência da COP-25. O astronauta Marcos Pontes, escolhido para a pasta de Ciência e Tecnologia, já participou de uma conferência, a do Marrocos, em 2016. Porém, ainda não se manifestou sobre a realização da COP no Brasil.

A pretensão brasileira começou a ser costurada há um ano, na COP-23, da Alemanha, e enfrentou a oposição da Venezuela dentro do Grupo de Países Latino-Americanos e Caribenhos (Grulac), do qual o Estado brasileiro faz parte. Em outubro passado, finalmente o Grulac comunicou à Convenção-Quadro da ONU que não se opunha à candidatura do Brasil. No entanto, faltando pouco tempo para a realização da COP-24, que ocorrerá de 3 a 14 de dezembro, em Katowice, na Polônia, não houve declaração pública do presidente eleito sobre a candidatura brasileira. O nome do país-sede será anunciado no último dia da conferência polonesa.

“Essa é uma decisão que tem de ser tomada pelo atual e pelo futuro governo rapidamente. Sempre tem outros países de olho. A Costa Rica, por exemplo, já se ofereceu”, afirma Alfredo Sirkis, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima e diretor executivo do think tank Centro Brasil no Clima. “O Brasil tem um protagonismo forte no tema, foi o país que sediou a Eco-92, é o país que mais reduziu emissões e sempre foi um protagonista de primeira linha das negociações climáticas. A decisão de sediar a COP já deveria ter sido tomada, até para assegurar financiamento”, observa. A Conferência do Clima recebe cerca de 20 mil pessoas de todo o mundo e, na segunda semana, conta com a participação de chefes de Estado. Foz do Iguaçu (PR) e Salvador, segundo Sirkis, demonstraram interesse em ser sede.

Presidir uma COP vai muito além de organizar um evento, lembra Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, uma coalizão da sociedade civil de discussão das mudanças climáticas. “Sediar a COP exige muita responsabilidade, o país se torna o facilitador de um processo de negociação para que haja avanços no sentido de o Acordo de Paris ser implementado”, diz. “Além disso, o país-sede tem de demonstrar que está fazendo a lição de casa, tem de ter coerência com os compromissos assumidos.” Rittl teme que o Brasil volte atrás na candidatura. “O presidente eleito já ameaçou sair do acordo e mostra uma agenda não alinhada com as questões ambientais e climáticas.”

Preocupação


Márcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil, também não descarta que o futuro governo abra mão de sediar a COP-25. “O presidente eleito não tem simpatia nenhuma pela agenda ambiental, e toda vez que se manifesta sobre o tema é para dar más notícias. Se ele disser que não quer presidir a conferência, será um vexame muito grande para o Brasil”, afirma. “É uma honra sediar um evento desse. O Brasil já deu muita contribuição para a discussão das mudanças climáticas, e voltar atrás na candidatura poderia ser um sinal claro de estar abrindo mão da agenda do clima.”

A conferência de 2019 é considerada uma das mais importantes desde a de Paris, quando se chegou a um acordo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa até o fim do século. Durante o evento, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) lançará um relatório sobre o uso do solo no mundo, uma discussão na qual o Brasil costuma participar com protagonismo. “O país corre o risco de sair da posição de ser um agente relevante para se tornar o vilão das mudanças climáticas”, lamenta Astrini.

O Correio tentou contato com Marcos Pontes, mas o escritório do futuro ministro, em São Paulo, informou que ele estava viajando. A assessoria de imprensa não retornou as ligações.

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