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Correio Braziliense

Bolsonaro é alvo de críticas e elogios por voltar atrás em decisões

Em 20 dias desde a eleição, Bolsonaro se mostra disposto a voltar atrás de decisões. Para alguns analistas, é sinal de hesitação. Outros veem nisso pontos positivos: abertura a críticas e tendência de avaliar o terreno para mudanças profundas


postado em 18/11/2018 08:00

(foto: Sérgio Lima/AFP)
(foto: Sérgio Lima/AFP)
Com quase três semanas de trabalhos, 20 dias no total, o período de transição de governos revela os primeiros sinais de como deverá ser a futura gestão do presidente eleito Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Durante as atividades no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde ocorrem as reuniões do time escalado para preparar o terreno para 2019, alguns episódios dão pistas, por exemplo, de que o vitorioso nas eleições pode mudar de ideia sobre as decisões tomadas rapidamente, a depender da reação do público. De um lado, o movimento é visto de forma positiva, porque mostra abertura para aceitação de críticas; por outro, avalia-se que as idas e voltas geram ruídos e desgaste.

Os dois principais exemplos envolviam a definição dos ministérios da Esplanada. Contrariando as propostas iniciais, as pastas de Meio Ambiente e Agricultura ficarão separadas — ao menos pelo posicionamento mais recente. Além disso, o Ministério do Trabalho não se tornará uma secretaria, como foi apresentado pelo presidente eleito. Outras desistências que se tornaram corriqueiras neste período de transição tendem a continuar durante o futuro governo, segundo analistas.

As redes sociais terão papel fundamental no processo, segundo os analistas. O Twitter do presidente eleito, em especial, tem sido o meio de anúncios oficiais, estabelecendo um método similar ao adotado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por quem Bolsonaro já externou publicamente sua admiração. Segundo o cientista político e vice presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, a prática é para preservar a comunicação direta que Bolsonaro tem com seus eleitores e que fortaleceu sua campanha para presidente.

O cientista político André Rosa chama a atenção para a forma como o futuro chefe do Planalto tem interagido para “montar o cenário” de decisões. Na interpretação dele, Bolsonaro “solta” decisões na internet e verifica como vai ser a aceitação em seguida. “Diante disso, ele escolhe se continua ou volta atrás. Essa também é uma característica do Donald Trump. É um direcionamento extremamente reformista, até mais que o governo de Michel Temer”, afirma Rosa. “Eu acho que ele está testando e tem um perfil diferente da Dilma (Rousseff), que tomava decisão e colocava em prática mesmo que, muitas vezes, com grande polêmica”, completa.


Linha tênue

Apesar da aparente flexibilidade do posicionamento nas primeiras semanas de transição, Bolsonaro está mais suscetível às polêmicas, que geram turbulências e reações negativas contra o futuro governo. “Isso traz mais visibilidade. Considero negativo o fim dos Mais Médicos, apesar de não apontar diretamente para os eleitores do Bolsonaro. A população que está mais afastada dos grandes centros e em vulnerabilidade é a mais afetada”, destaca o cientista político. Rosa chama a atenção para o fato de que quem decidiu sair do programa foi Cuba, que enviava profissionais da área para atuar no Brasil desde 2013. A decisão foi tomada com base nas críticas do presidente eleito em relação ao programa, sobretudo ao fato de que a maior parte do pagamento fica com o governo e que os familiares não os acompanham no Brasil.

Rosa ressalva que, apesar de ter voltado atrás em vários pontos, Bolsonaro não deve ser flexível em certos temas. No caso do programa Mais Médicos, por exemplo, o especialista avalia que será difícil uma retratação do presidente eleito. “Voltar atrás nesse tema não mostraria tanta grandeza, seria mais uma demonstração de fraqueza, até porque ele carrega esse posicionamento desde antes da campanha”, declara. “Em outros pontos, como a questão dos ministérios, por exemplo, não há fraqueza, a meu ver. Terá um lado que vai dizer que é uma derrota e tem outro que a avaliará como uma decisão democrática”, acrescenta o cientista político. Apesar disso, a linha tênue dessas interpretações deve gerar ruídos, como ocorreu nas últimas semanas.

Outra característica importante do futuro governo e que trará possíveis alterações nas gestões dos ministérios é a equipe anunciada. Cada nomeado para as pastas tem relação com a área de atuação. Na visão de alguns analistas, Bolsonaro acerta quando não escolhe políticos para os cargos, já que a marca de sua campanha foi criticar a velha política e apontar para a direção de mudanças e reformas no Estado. Por enquanto, o DEM é o único partido com integrantes nos ministérios: os deputados Onyx Lorenzoni, que assumirá a Casa Civil, e Tereza Cristina, futura chefe da Agricultura.

Vínculo

Há também a possibilidade de o deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) assumir o Ministério da Saúde. Na área econômica, os nomes agradaram o mercado. A equipe chefiada por Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, é vista com bons olhos pelos investidores. “Sempre haverá críticas de que o nome pode não agradar ou de que, no mínimo, não é uma unanimidade, mas todos os nomes anunciados até agora como ministros têm de fato relação com as áreas, uma vinculação forte com os temas das pastas”, destaca Noronha.

Por enquanto, a equipe de transição está na etapa de discução de questões iniciais. Na área econômica, por exemplo, sobrou distanciamento do futuro governo com o atual de Michel Temer para agilizar a concretização de medidas que são consideradas fundamentais para a área e poderiam aliviar as pautas no próximo ano. Segundo Noronha, há também deficiência no diálogo do futuro governo com o Congresso Nacional, problema que precisará ser trabalhado para manter uma boa relação com o Poder Legislativo.

“Talvez ainda pela excessiva concentração na montagem da equipe de transição, não houve dedicação exclusiva ao diálogo com o Congresso”, afirma o cientista político. “Pode ser que o modelo mais interessante seja manter o Onyx Lorenzoni na coordenação de governo e se escale outra pessoa para dialogar com os parlamentares. A divisão de atribuições seria mais interessante, já que o atual modelo acaba sobrecarregando o atual responsável pela articulação política”, acrescenta Noronha. Os analistas dizem, porém, que Bolsonaro deve ter maioria na Câmara. A oposição deve ser limitar a 130 deputados de um total de 513.


Os escolhidos 

Veja quais são os principais nomes já definidos para os ministérios 
 
» Paulo Guedes — Economia
» Onyx Lorenzoni — Casa Civil
» Augusto Heleno — Gabinete de Segurança Institucional
» Fernando Azevedo e Silva — Defesa
» Sérgio Moro — Justiça e Segurança Pública
» Tereza Cristina — Agricultura
» Marcos Pontes — Ciência e Tecnologia
» Ernesto Araújo — Relações Exteriores (Itamaraty)
» Roberto Campos Neto — Banco Central
» Joaquim Levy — Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
» Mansueto Almeida — Secretaria do Tesouro Nacional. 
 

Linha direta

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