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Correio Braziliense

PSL tenta cessar tiroteio interno e articular liderança no Congresso

Em meio à batalha por poder envolvendo seus integrantes, partido define o deputado eleito Junior Bozzella como porta-voz para auxiliar a articulação política no Congresso. A escolha também é um recado à deputada eleita Joice Hasselmann, acusada de "atropelar" lideranças


postado em 08/12/2018 07:00 / atualizado em 08/12/2018 00:01

O voto da maioria da bancada paulista em Bozzella não foi à toa: ele é um nome muito respeitado e ligado ao presidente nacional da legenda(foto: Reprodução/Facebook)
O voto da maioria da bancada paulista em Bozzella não foi à toa: ele é um nome muito respeitado e ligado ao presidente nacional da legenda (foto: Reprodução/Facebook)

O PSL definiu um porta-voz para auxiliar na articulação política com o Congresso. O nome escolhido foi o de Junior Bozzella (SP), em reunião, na noite de quinta-feira, pela recém-eleita bancada paulista da legenda na Câmara. Ele vai comandar as conversas em conjunto com a atual bancada nacional do partido. A definição é uma forma de contornar a crise interna exposta após vazamento de uma discussão entre os deputados eleitos Joice Hasselmann e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). A ideia da liderança é evitar que eventuais desconfortos com parlamentares contaminem a condução de diálogos por espaços para a legenda na Casa.

A convocação foi feita por Bozzella e contou com a participação de oito dos 10 deputados eleitos da bancada em São Paulo.  Os únicos que não participaram foram Eduardo e Joice. Embora não tenha comparecido, o filho do presidente eleito depositou o voto em Bozzella — uma derrota de 9 x 1 para Joice.

O objetivo é criar uma unidade que possibilite ao PSL organizar a comunicação no Parlamento. Bozzella vai auxiliar Delegado Waldir (PSL-GO) nos diálogos. A escolha dele é uma forma de mostrar a Joice que a bancada paulista não aceitará decisões isoladas. A deputada eleita é acusada por Eduardo de “atropelar” as atuais lideranças na Câmara. Ou seja, ele e Waldir. O senador eleito Major Olimpio (PSL-SP) está com as atenções voltadas para o Senado.

A escolha do líder da bancada paulista também é um recado a Joice de que as hierarquias deverão ser respeitadas dentro do partido. O voto da maioria a Bozzella não aconteceu à toa. Ele era do partido antes de Bolsonaro migrar do PSC para o PSL. Por causa disso, é um nome muito respeitado e ligado ao presidente nacional da legenda, Luciano Bivar (PE). “É preciso respeitar o princípio de antiguidade no partido e os correligionários que já nos representam na Câmara”, declarou Coronel Tadeu.

Sob alvo de correligionários, Joice não deixou barato. Em sua defesa, disse num grupo de WhatsApp que antes mesmo de Eduardo ser deputado já tinha as “portas abertas” com “todos os líderes e presidentes de partidos”. “Lembre-se que, quando você se elegeu a primeira vez, eu já trabalhava na política há mais de uma década. E te conheci entrevistando seu pai. Não vou jogar o trânsito político que tenho no Congresso porque alguém bate o pé”, alertou.

A busca da deputada por protagonismo, no entanto, não resolve, avaliou Tadeu. O entendimento é de que a falta de uma unidade de diálogo com o Congresso mais atrapalhou do que ajudou até o momento. “Joice estava falando individualmente, sem consultar o partido e os deputados em exercício. Meu trabalho vai ser caminhar em conjunto com a bancada nacional, de forma hierárquica, para ajudar a organizar os segmentos e espaços para atuação. Teremos 14 vice-líderes”, complementou Bozzella.

O auxílio de Bozzella será importante, até por ser alguém alinhado a Bivar. O cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV), avaliou ser necessário alguém exercer ativamente um papel institucional. “Se continuar assim, eles vão perceber que acabam se prejudicando. E, nesse caso, vai ser o pior dos mundos para o partido: ficar cada um por si”, argumentou.

Blocão


A maior preocupação do PSL é com a formação de blocos. Cálculos feitos pela bancada paulista apontam que, se não coligar com nenhum partido, seria somente o 13º a escolher uma comissão. E o vazamento da discussão entre os integrantes do PSL incomodou algumas candidaturas ao comando da Câmara. Na conversa, Eduardo afirma que mantém diálogo com o líder do PR, deputado José Rocha (BA), e que evita “botar a cara publicamente” para impedir que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), acelere “pautas-bomba”.

O presidente da Casa é candidato à reeleição e não comentou a polêmica, alegando ser um problema interno do PSL — que discutirá o assunto na quarta-feira. Mas o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), coordenador da campanha, fez alertas à interlocução política do PSL. Ressaltou que, se a legenda do governo eleito costurar apoio a outro bloco partidário que não o de Maia, ficará fora da composição da Mesa Diretora. “E estamos articulando o maior bloco partidário da história da Câmara”, advertiu. Maia mantém conversas com PSDB, PP, PSD, PRB, PR, MDB, PV e Solidariedade.

O apoio formal do PSL a uma candidatura que não vença as eleições seria desastroso para a governabilidade de Bolsonaro, que ficaria sem espaço em comissões importantes, como a de Constituição e Justiça (CCJ). O cientista político Enrico Ribeiro, coordenador legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical, afirmou que seria uma governança derrocada, aos moldes da obtida pela então presidente Dilma Rousseff em 2015, quando o PT perdeu a disputa para Eduardo Cunha. “Por dois anos, precisaria abrir mão de pautar e desidratar projetos de interesse do governo para dialogar com os relatores e presidentes das comissões”, ponderou.
 

O trio parada dura de Bolsonaro

 

Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro: com mandatos eletivos, eles não podem ser tolhidos pelo pai, mesmo causando polêmicas(foto: Sérgio Lima, Mauto Pimentel/AFP - 15/11/18)
Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro: com mandatos eletivos, eles não podem ser tolhidos pelo pai, mesmo causando polêmicas (foto: Sérgio Lima, Mauto Pimentel/AFP - 15/11/18)


A atuação intensa dos filhos de Jair Bolsonaro e as confusões que têm provocado preocupam integrantes da equipe do presidente eleito e podem ser consideradas a primeira crise do futuro governo, pois respingaram tanto nos assuntos da transição quanto no partido que elegeu o presidente.

Nesta semana, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) classificou como suspeitas transações financeiras do policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz, que foi assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), durante mandato dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). De janeiro de 2016 ao mesmo mês de 2017, o PM movimentou 1,2 milhão. Uma dessas transações, no valor de R$ 24 mil, teria sido um depósito para a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Outra saia justa envolve o deputado eleito Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), que protagonizou uma discussão no grupo de WhatsApp do partido com a também deputada eleita Joice Hasselmann (PSL-SP). Eduardo disse que estava articulando maneiras de conseguir a Presidência da Câmara, a pedido do pai. Já o vereador Carlos Bolsonaro, do Rio, é o que mais causa apreensão desde a campanha eleitoral.

Para o cientista político Antônio José Barbosa, professor de história política contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), os problemas são causados pela proximidade dos filhos do futuro presidente com o poder. Eles foram eleitos e, à revelia das declarações de Jair Bolsonaro — ele disse que não hesitaria em usar uma “caneta Bic” para exonerar quem atrapalhasse o governo —, só podem deixar seus cargos se forem destituídos. Ou seja, não podem ser demitidos. “Não me recordo de nenhum presidente que tivesse filhos exercendo cargos políticos enquanto o pai estava na Presidência da República. Getúlio Vargas tinha a filha Alzirinha (Alzira Vargas do Amaral Peixoto) sempre ao seu lado, mas ela não exercia cargos oficiais. Como a família Bolsonaro, eu não conheço”, explica.

De acordo com Barbosa, a última viagem de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos fez com que ele “ficasse parecendo o ministro das Relações Exteriores”. “Isso traz problemas. A base de apoio vai ficar com ciúme. Estão aparecendo reclamações dentro do PSL. Então, quando pessoas tão próximas ao presidente têm essa desenvoltura na ação política, a ciumeira começa”, ressalta. “O que vejo é que quanto mais discretos os filhos do Bolsonaro forem, melhor será para o presidente. Eles têm muito poder pelas mãos do pai. Todos eles foram eleitos por causa do sobrenome. Nunca houve situação assim.”

Especialistas dizem que não será fácil para o presidente eleito manter o controle sobre os três filhos. O analista político da HC7 Pesquisas Raul Villaseca acredita que, passadas as eleições, a força deles não dependerá diretamente de Jair Bolsonaro. “Eles foram eleitos no guarda-chuva do pai, como outros tantos parlamentares. Agora, separados entre Executivo e Legislativo, têm vontade própria. Não acredito que a interferência dure se o pai discordar dos filhos. Eles se tornaram donos de si.”

Ontem, ao site O Antagonista, Jair Bolsonaro disse que o cheque de R$ 24 mil entregue a Michelle pelo ex-assessor Fabrício José de Queiroz se refere à quitação de uma dívida pessoal. “Emprestei dinheiro para ele em outras oportunidades. Nessa última agora, ele estava com um problema financeiro, e uma dívida que ele tinha comigo se acumulou. Não foram R$ 24 mil, foram R$ 40 mil. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais, vai chegar aos R$ 40 mil”, afirmou o presidente eleito, segundo o portal.

Mensalinho

O relatório do Coaf menciona movimentações atípicas envolvendo profissionais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O documento faz parte da Operação Furna da Onça, que prendeu 10 deputados estaduais do Rio, segundo o MPF, envolvidos em um esquema de pagamento de “mensalinho”.


Bate-boca

Em bate-boca no WhatsApp com Joice Hasselmann, a quem chamou de “sonsa”, Eduardo Bolsonaro revelou articulações sigilosas na Câmara, ao dizer que o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ameaça votar uma “pauta-bomba” contra seu pai. Em resposta, Joice disse que Eduardo “se acha machão”. 

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