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Correio Braziliense

Opinião: Chegadas e partidas


postado em 16/12/2018 17:30

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 
Tudo pode acontecer em 24 horas na vida de um jornalista de redação. Da calmaria ao furacão, é um passo, um sopro, um telefonema, um acidente, um escândalo. É uma vida intensa, uma rotina puxada e sem trégua. Mas é preciso dizer que somos também privilegiados. Conviver com a notícia e com os protagonistas dela nos faz caminhantes na estrada da história. Vivenciamos, passo a passo, palavra a palavra, os acontecimentos mais importantes da cidade, do Brasil e do mundo. E isso não tem preço.

Particularmente, não há momentos mais significativos para mim do que as entrevistas. Sentar na frente de alguém e ouvir o que aquela pessoa tem a dizer, olho no olho, dentro de seu gabinete ou de sua casa, é ser uma testemunha importante do nosso tempo. Nessa semana, me senti mais uma vez assim. No mesmo dia, entrevistei o presidente Michel Temer e o governador Rodrigo Rollemberg, os dois, prestes a terminar seus mandatos. Dificilmente temos a dimensão da pessoa por trás dos cargos, até porque eles habitam a esfera pública e nela devem permanecer. Mas não deixa de ser curioso observar o ser humano em seu momento de despedida. Até porque, não há como negar, os dois viveram e vivem dias bem difíceis.

Apenas seis quilômetros separam os dois palácios. Tanto Rollemberg quanto Temer amargaram altos índices de impopularidade, viraram alvo de críticas pesadas, memes e linchamentos virtuais. Mas, a 17 dias de largarem a caneta do poder, deixam seus governos em inacreditável calmaria. Em comum, demonstram sensação de alívio por trocarem a pressão dos cargos pelo aconchego das famílias. Garantem que não sentirão saudades.

Estive no gabinete de Temer quatro vezes ao longo do mandato dele. Duas delas, em momentos importantes, logo depois do impeachment de Dilma Rousseff, quando assumiu, e após vir à tona a gravação de Joesley Batista, que abalou a República. Com Rollemberg, estive o dobro de vezes. Em comum, os dois são afáveis e gentis em qualquer situação, além de bons contadores de histórias e hábeis articuladores políticos.

Temer fala em escrever um livro, ver séries no Netflix e voltar, talvez, a advogar. Rollemberg quer ir ao Nordeste e passar a curtir os netos mais de perto, mas deve voltar para a trincheira política, como articulador, no Senado, do PSB, que fará oposição ao presidente eleito, Jair Bolsonaro. 

O certo é que os dois deixaram suas marcas na história. Independentemente do desempenho ou da popularidade, não há privilégio maior para eles do que ter tido essa chance. Para nós, jornalistas, testemunhar chegadas e partidas é também uma oportunidade ímpar. Sou grata por isso.
 

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