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Correio Braziliense

Desemprego: lenta recuperação do PIB impede retomada do número de vagas

Maior oferta de vagas só virá quando a economia crescer acima de 3% ao ano, permitindo que a taxa de desocupação volte para um dígito


postado em 25/12/2018 08:00

O serralheiro João Coelho, morador do Entorno, procura uma oportunidade há seis meses, sem sucesso(foto: Marília Sena/Esp. CB/D.A Press)
O serralheiro João Coelho, morador do Entorno, procura uma oportunidade há seis meses, sem sucesso (foto: Marília Sena/Esp. CB/D.A Press)

O desemprego elevado é uma das maiores preocupações na economia brasileira. A lenta recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) está sendo insuficiente para aquecer o mercado de trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados de outubro, ainda faltam vagas para 27,2 milhões de pessoas, sendo que 4,7 milhões desistiram de procurar um posto por conta da ausência de perspectivas positivas. A tendência é de que a retomada no número de oportunidades seja mais forte em 2019, algo que os analistas tomam o cuidado de não dar por garantido.

As projeções de economistas divulgadas pelo relatório Focus, do Banco Central (BC), apontam que o PIB de 2019 crescerá em torno de 2,5%. Apesar de esse resultado ser melhor se comparado com o deste ano, a taxa é considerada apenas razoável e não deve ocasionar grandes resultados no mercado de trabalho. Na verdade, o país ainda está se recuperando da recessão de 2015 e 2016, a maior da história. Apenas em 2021 chegaremos ao resultado de 2014.

O quadro ainda é insuficiente para dar esperanças para quem está há meses em situação de vulnerabilidade. Sem atividade profissional, o serralheiro João Coelho, 66 anos, mora com nove filhos e a esposa no entorno do Distrito Federal. À procura de emprego há seis meses, ele reclama da falta de oportunidades. “Por conta dessa crise, faz tempo que eu não encontro serviço em lugar nenhum”, diz.

João lamenta não poder comprar os legumes de que gosta e nem a carne para comer com a família. “Nem tomate eu posso comprar, porque tá caro, carne, então, nem se fala. Quando vou comer tem que ser da pior que tem”, afirma. Outro desafio é conseguir comprar remédios. “Na última semana, eu precisei comprar um de R$ 71,00, que é o dinheiro da feira da semana, né?”, compara.

O IBGE mostra que a taxa de desemprego diminuiu, mas ainda atinge 11,7% dos brasileiros — 12,4 milhões de pessoas. (veja quadro ao lado). A população ocupada teve leve aumento em 2018, mas a alta ainda está associada à informalidade. Edileuza da Silva, 56, nunca trabalhou de carteira assinada. Moradora do entorno do Distrito Federal, ela sempre atuou em serviços gerais de contratos para as prefeituras de Goiás. “Depois que veio a crise, o aperto começou e ninguém mais me chamou para trabalhar”, conta.

Edileuza da Silva, que atuava em serviços gerais, hoje vende lanches na rodoviária(foto: Marília Sena/Esp. CB/D.A Press)
Edileuza da Silva, que atuava em serviços gerais, hoje vende lanches na rodoviária (foto: Marília Sena/Esp. CB/D.A Press)

Quebrados

A única alternativa encontrada por Edileuza foi fazer bicos. Ela vende lanches na Rodoviária do Plano Piloto para sobreviver. “Eu não tenho família, vivo só, mas preciso pagar as contas. Por isso agora trabalho assim”, lamenta. O horário de trabalho é de, no mínimo, 12 horas por dia. A volta para casa só é garantida quando tudo é vendido. “Eu fico rodando nos sinais, pelas plataformas e nas filas. É cansativo”, ressalta.

De acordo com a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, o desemprego só vai melhorar quando a recuperação econômica se mostrar mais consistente. “Eu acho que isso acontecerá quando a reforma da Previdência estiver com maior probabilidade de passar ou já tiver passado, no segundo semestre de 2019. Sem Reforma, o Brasil entra de novo em recessão, e o desemprego volta a subir. Pouco entendem que estamos quebrados fiscalmente e, se continuarmos assim, o Brasil pode entrar em grave crise”, diz.

Apesar do cenário ainda desanimador, algumas pessoas conseguiram espaço no mercado de trabalho em 2018. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério do Trabalho, mostrou que o Brasil registrou criação líquida de 58.664 vagas formais de emprego em novembro, considerando as que foram ofertadas e as demissões. No acumulado do ano, o órgão calculou que 858.415 cargos foram criados, o que representa um número maior que os 299.635 de igual período de 2017.

Uma destas pessoas foi a Renata Bezerra, 23, que se formou em comunicação social, mas ainda não conseguiu se fixar na área. Os jovens convivem com índice de desocupação bem acima da média nacional, superando 22%. “O mercado está muito difícil, eu sinto que a minha profissão está desvalorizada. Entreguei muitos currículos, mas as oportunidades de trabalho, ou eram poucas, ou pagavam muito mal”, conta. Mesmo com novo emprego, Renata não está satisfeita. “Você sente que o seu diploma está no lixo, parece que estudei quatro anos para nada”, lamenta.

O economista-chefe da DMI Group, Daniel Xavier, destaca que a queda no desemprego é bastante gradual. “Esse ritmo está relacionado ao desempenho da atividade econômica, que ainda é fraco. Segundo o IBGE, o PIB teve expansão anual de 1,4% no 3º trimestre de 2018. Este ritmo, em nossa avaliação, é insuficiente para promover declínio rápido do desemprego”, aponta.

A expectativa é de que o quadro de expansão mais consistente se dê a partir da segunda metade de 2019. “A partir de então, o consumo das famílias deve ser favorecido pelo mercado de trabalho mais aquecido”, afirma Xavier. “Em nossa visão, com o PIB crescendo ao redor de 3% entre 2019 e 2021, supondo o adequado andamento das reformas econômicas, podemos, sim, ter taxas de desemprego abaixo de 9% ao final do período” completa o especialista.

 


*Estagiária sob supervisão de Paulo Silva Pinto

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