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Correio Braziliense

Aumentar e diversificar parceiros comerciais são desafios na economia

Aumentar e diversificar a gama de parceiros comerciais devem ser obstáculo particularmente grande para a nova gestão. Intenções polêmicas, como sair do acordo de Paris e tomar partido na questão de Israel, podem queimar o filme do Brasil e gerar perda de mercado


postado em 01/01/2019 06:00

O Porto de Suape, em Pernambuco, de onde muitas mercadorias são enviadas ao exterior. Especialistas analisam que vendas estão sob ameaça(foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press - 13/10/11)
O Porto de Suape, em Pernambuco, de onde muitas mercadorias são enviadas ao exterior. Especialistas analisam que vendas estão sob ameaça (foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press - 13/10/11)

Com a desaceleração da economia global, principalmente na China e nos Estados Unidos, o cenário do comércio exterior apresentará mais desafios em 2019. Os reflexos da guerra comercial travada entre as duas potências, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, podem ser intensificados no próximo ano, e o mundo não ganhará com esse clima mais tenso. Consultores destacam ainda que, para o Brasil, a tradicional neutralidade será fundamental neste contexto, a fim de não criar atritos nas relações com os dois maiores parceiros comerciais do país. É consenso entre os analistas de que o processo de abertura, prometido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, precisará ser gradual, a partir de uma estratégia pensada e de que não seja unilateral.

“O Brasil precisa fazer uma abertura gradual e de forma consciente”, afirma Carlos Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ele sugere ao próximo governo adotar medidas de desburocratização e que aprimorem os instrumentos de facilitação do comércio, com o objetivo de evitar que o país perca mercado nesse cenário de aumento da competitividade. “O novo governo terá o desafio de destravar agendas que contribuam para facilitar o comércio e abrir mercados para bens, serviços e investimentos brasileiros”, aconselha. O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também apoia uma abertura gradual e estratégica.

“O país ainda está se recuperando da recessão. Além das reformas para reequilibrar as contas públicas, são necessárias medidas que reduzam os custos de produção e a burocracia, criando condições melhores para a indústria e para os exportadores”, observa. De acordo com os especialistas, a política externa do país na nova gestão ainda é uma incógnita. Eles se preocupam com a sinalização do futuro governo quanto à questão climática, já que o presidente eleito indicou querer abandonar o Acordo de Paris, acompanhando os passos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O diplomata Rubens Ricupero, considera que o país poderá retroceder na agenda ambiental.

“O Brasil não tem o mesmo peso dos EUA. Qualquer sinal contrário ao Acordo de Paris, que é defendido pelos países da União Europeia, pode significar o fim de negociações e o fechamento de portas na Europa para os produtos brasileiros, até de forma definitiva”, alerta. Ricupero também critica a intenção de Bolsonaro de mudar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém. Para ele, o país corre o risco de sofrer um isolamento internacional com esse tipo de medida. “A transferência significa escolher um dos lados do conflito no Oriente Médio por razões puramente ideológicas, o que colocaria contra nós todos os países árabes e muçulmanos de maneira geral”, acrescenta.

Nos passos de Trump


Alessandra Ribeiro, economista e sócia da Tendências Consultoria, demonstra preocupação com as intenções sinalizadas por Bolsonaro e pelo futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. “As colocações do novo governo estão deixando claro o alinhamento à agenda de Trump, seja com essa questão relacionada com Israel, seja no assunto climático, seja no pacto de imigração, seja no tema China”, elenca. “É preciso tomar muito cuidado, porque o impacto poderá ser ruim para as exportações”, avalia. A especialista recomenda cautela nos posicionamentos, pesando as consequências comerciais, especialmente com relação à polêmica de Israel, que é um parceiro comercial pequeno em comparação com os vizinhos dele.

“O novo governo se esquece de que 30% das exportações de carne de frango vão para os países árabes, e isso pode ser afetado”, alerta. Analistas destacam que clima e imigração são moeda de troca para aumentar o acesso ao mercado europeu, um dos principais destinos dos produtos brasileiros. “O país precisa ampliar os acordos comerciais. Se o novo governo começar a criar polêmicas com os principais parceiros atuais, como China, União Europeia e Mercosul, o que sobra são acordos com quem não interessa, e isso será um retrocesso”, destaca Alessandra.

Menos liquidez


A economista da Tendências ressalta ainda que, como o cenário internacional, no geral, não deve ser muito tranquilo daqui para a frente, o Brasil precisará saber se posicionar estrategicamente em um ambiente sem excesso de liquidez. O Federal Reserve (FED, banco central dos Estados Unidos) deve elevar os juros em 2019; e os bancos centrais do Japão e o Europeu devem enxugar recursos no mercado externo. “As economias desenvolvidas tendem a reduzir a liquidez em torno de US$ 250 bilhões no próximo ano, e isso vai afetar o mundo emergente, incluindo o Brasil”, estima Alessandra. Outro parceiro comercial que não deve ser subestimado, segundo especialistas, é o Mercosul.

Apesar disso, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o bloco não é relevante. “A Argentina é o principal destino das exportações de manufaturados do Brasil e o terceiro maior parceiro comercial do país. Não pode ser ignorado”, avisa Castro, da AEB. Na avaliação do embaixador de carreira do Itamaraty José Alfredo Graça Lima, conselheiro do Conselho Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a integração do grupo composto por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai (Venezuela está suspensa) ainda é muito precária, portanto, o bloco precisará ser repensado pelo novo governo de forma a avaliar como serão conduzidas futuras alianças estratégicas, se serão bilaterais ou em grupo.

O fracasso do pacto de livre comércio Mercosul-União Européia, no último encontro de Montevidéu, é visto por Graça Lima como sem volta. “Há 22 anos, esse acordo vem sendo cozinhado e há dificuldades intransponíveis dos dois lados, como a oferta agrícola europeia e as exigências que a Europa fez para redesenhar o Mercosul”, afirma. “É preciso saber qual será a agenda para os países do bloco para maior produtividade. Tudo está em aberto. Precisamos saber exatamente quais serão as mudanças dessa nova agenda de política externa”, pontua.

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