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Correio Braziliense

Saiba como foi a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República

Presidente toma posse e se dirige ao público de duas formas diferentes: no Congresso, fala de união e convida os parlamentares para uma parceria. No parlatório, dividindo espaço com a primeira-dama, critica os governos petistas e reafirma luta contra a corrupção


postado em 02/01/2019 06:00 / atualizado em 02/01/2019 02:17

Até poucas horas antes, não havia certeza se Jair Bolsonaro desfilaria em carro aberto: com a mulher, Michelle, e o filho Carlos, presidente andou pela Esplanada no tradicional Rolls-Royce (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
Até poucas horas antes, não havia certeza se Jair Bolsonaro desfilaria em carro aberto: com a mulher, Michelle, e o filho Carlos, presidente andou pela Esplanada no tradicional Rolls-Royce (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )


Às 14h20, com o céu nublado, Jair Bolsonaro deixou a Granja do Torto em direção à Catedral de Brasília. O comboio de seis carros pretos teve a escolta de batedores militares que fechavam as vias antecipadamente para liberar os principais acessos. Menos de uma hora depois, às 15h11, o termo de posse estava sendo lido no plenário da Câmara dos Deputados. O político que se elegeu com quase 58 milhões de votos se tornou, naquele momento, oficialmente, o 38º presidente da República Federativa do Brasil. E, ao lado de parlamentares e do vice, Hamilton Mourão, deu início ao primeiro discurso do dia. Prometeu união, retomada da economia e da política externa “desenvolvimentista”. Mas não deixou de fustigar opositores e governos anteriores.

A manifestação para o Congresso é tradicionalmente mais institucional durante todo o rito da posse de um presidente. A parte mais emocional, para a arquibancada, digamos assim, é deixada para o Parlatório, depois de recebida a faixa presidencial no Planalto. Assim, o primeiro discurso de Bolsonaro teve um tom mais ameno. Após pregar que governará com a população, a partir da união e com o compromisso de combate à discriminação, convocou o Congresso a ser parceiro, chegando mesmo a fazer piadas ao assinar o termo de posse: segundo ele, estava se casando com os parlamentares.

No parlatório, as palavras eram mais parecidas com aquelas proferidas em palanques, durante as eleições. “Estou certo de que enfrentaremos enormes desafios, mas, se tivermos a sabedoria de ouvir a voz do povo, alcançaremos êxito em nossos objetivos, e, pelo exemplo e pelo trabalho, levaremos as futuras gerações a nos seguirem nesta tarefa gloriosa.” Lembrou-se da facada durante a campanha e foi para cima dos opositores.

Sobre o atentado sofrido em setembro, em Juiz de Fora (MG), Bolsonaro evocou algo superior, a partir da fé dos eleitores, por ter sobrevivido. “Quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas. Uma campanha eleitoral transformou-se em um movimento cívico, cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâneo, forte e indestrutível, e nos trouxe até aqui.” E, assim, passou para o discurso contra a oposição e os governos anteriores, principalmente os do PT, responsabilizado-os pela crise ética, moral e econômica.

Amarras ideológicas

Como na campanha, prometeu libertar o país da submissão ideológica na gestão pública. “Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas”, disse ele, sendo aplaudido tanto no plenário da Câmara quanto no Salão Nobre do Planalto, onde convidados do presidente o esperavam no alto da rampa. Outro momento em que a plateia reagiu veio quando ele defendeu o porte de armas e o direito à propriedade.

“O cidadão de bem merece dispor de meios para se defender, respeitando o referendo de 2005, quando optou, nas urnas, pelo direito à legítima defesa”, disse ele, ao lembrar o plebiscito favorável ao posse de armas. Bolsonaro também pediu apoio do Congresso para aprovar outro ponto do programa de governo, o “excludente de ilicitude”, que, segundo especialistas em segurança pública, é uma espécie de salvo-conduto para policiais em qualquer situação. “Vamos honrar e valorizar aqueles que sacrificam vidas em nome de nossa segurança e da segurança dos nossos familiares. Contamos com o apoio do Congresso para dar o respaldo jurídico aos policiais para realizarem seu trabalho”.

Bolsonaro não se esqueceu das Forças Armadas, que, segundo ele, terão “as condições necessárias para cumprir sua missão constitucional de defesa da soberania, do território nacional e das instituições democráticas, mantendo suas capacidades dissuasórias para resguardar nossa soberania e proteger nossas fronteiras”. Naquele momento, o número de pessoas na Esplanada já havia aumentado consideravelmente, chegando a 115 mil por volta das 16h, segundo o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) — os números foram menores do que os esperados inicialmente pela equipe de Bolsonaro, que seguiu todo o protocolo dos presidentes anteriores.

Cortejo

Antes das 15h, o cortejo de carros oficiais saído da Granja do Torto passou pela Esplanada dos Ministérios e foi aplaudido pelas pessoas que ocupavam os quase dois quilômetros até a Catedral, onde Bolsonaro entrou no Rolls-Royce e desfilou em carro aberto, refazendo o trajeto até a sede do Poder Legislativo. Entre sorrisos, choros e acenos para o público, Bolsonaro, ao lado da primeira-dama, Michelle, seguiu em pé — sentado na capota recolhida do carro, Carlos, o filho. Michelle teve um momento próprio ao discursar no Parlatório, em libras (Leia mais na página 10). Faltava a faixa, entregue por Michel Temer, às 16h50, no Palácio do Planalto. O céu já estava aberto. Logo depois de se despedir do ex-presidente emedebista, Bolsonaro deu início ao segundo discurso do dia.

“É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil. E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”, começou o presidente, dando o tom do que viria a seguir. “Graças a vocês, eu fui eleito com a campanha mais barata da história. Graças a vocês, conseguimos montar um governo sem conchavos ou acertos políticos, formamos um time de ministros técnicos e capazes para transformar nosso Brasil. Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade.” Bolsonaro pontuou os desafios: “Enfrentar os efeitos da crise econômica, do desemprego recorde, da ideologização de nossas crianças, do desvirtuamento dos direitos humanos, e da desconstrução da família”.

Para terminar, num tom messiânico, disse agradecer a Deus por estar vivo. O lema de campanha, dando o tom que parece ainda não ter descido do palanque, chegou no final: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Naquele momento, desfraldou a bandeira brasileira. “Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha”, disse, numa referência à cor do partido de oposição.

“Graças a vocês (eleitores), eu fui eleito com a campanha mais barata da história. Graças a vocês, conseguimos montar um governo sem conchavos ou acertos políticos, formamos um time de ministros técnicos e capazes para transformar nosso Brasil”

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil


Saída discreta
Foram menos de cinco minutos entre a entrega da faixa para o presidente Jair Bolsonaro, no parlatório do Planalto, à saída do agora ex-presidente Michel Temer e a mulher, Marcela, pela garagem privativa do palácio. A saída discreta do ex-presidente, que governou na sombra da impopularidade, não impediu que ele ouvisse vaias do público na Praça dos Três Poderes. Depois de ouvirem gritos de “Fora Temer”, o ex-presidente e a mulher entraram, por volta de 17h, num dos elevadores do segundo andar e desceram até o pátio no subsolo. Sem ser notada pelos convidados de Bolsonaro que se concentravam na parte térrea do prédio, a comitiva de Temer deixou o Planalto pela saída lateral leste. O rumo era a Base Aérea de Brasília.

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