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Correio Braziliense

Ministro quer gabinete de crise para atuar na segurança no Ceará

Ministro Sérgio Moro lança mão de receita antiga e envia Força Nacional para conter ataques no Ceará. Secretário de Segurança Pública adianta, porém, que ideia é fortalecer os órgãos de segurança dos estados para que sejam autossuficientes


postado em 05/01/2019 07:00 / atualizado em 05/01/2019 11:06

O Ceará sofre com ataques a veículos, prédios públicos, agências bancárias e até viadutos: violência se espalha também pelo interior do estado(foto: Alex Gomes/AFP )
O Ceará sofre com ataques a veículos, prédios públicos, agências bancárias e até viadutos: violência se espalha também pelo interior do estado (foto: Alex Gomes/AFP )

A primeira ação emergencial do governo de Jair Bolsonaro chega com arranjos antigos. A crise de segurança no Ceará levou ao envio de tropas da Força Nacional ao estado, após determinação do ministro da Justiça, Sérgio Moro, atendendo à demanda do governador Camilo Santana (PT). Em entrevista, ontem, Bolsonaro afirmou que “jamais faria oposição a um estado” e demonstrou solidariedade ao povo cearense.

“A questão do Ceará, pelo que tudo indica, agravou a situação. Desde ontem (quinta) à noite, conversando com o ministro Sérgio Moro, tratando desse assunto, ele foi muito hábil, rápido e eficaz para atender o estado, cujo governador reeleito é uma oposição radical à nossa”, afirmou Bolsonaro. “Nós jamais faremos oposição ao povo de qualquer estado. E o povo do Ceará precisa neste momento. As medidas já foram tomadas. Faltava, por parte do governo do Ceará, se enquadrar e, via ofício, informar da real necessidade da presença da força pela sua incapacidade de resolver o problema”, disparou.

Apesar de o governo lançar mão de receita antiga, por uma questão emergencial, o secretário de Segurança Pública, general Guilherme Theophilo, afirmou que vai sugerir a formação de um gabinete de crise, com a integração das polícias federal e estaduais no combate à violência em cada unidade da Federação. Ele disse que pretende fazer “de tudo” para padronizar os procedimentos das polícias Militar e Civil. “Tentaremos fortalecer o uso das forças estaduais para reduzir o uso da Força Nacional. A ideia é não empregar as Forças Armadas de forma prematura. A ideia é que a Força Nacional aumente e seja um amortecedor entre a segurança pública estadual e as Forças Armadas”, ressaltou.


Adversário

Coincidentemente, Theophilo, que cuida do caso no Ceará, foi adversário de Santana nas eleições de outubro ao governo do estado. Como o PT ganhou, parlamentares da oposição chegaram a dizer que houve demora em enviar tropas, uma maneira de retaliar Santana. “Isso não tem nada a ver. Minha candidatura foi um pedido do Tasso (Jereissati) no momento em que me aposentei (do Exército). Nunca tive vontade de entrar na política. Isso é a imprensa ou gente criando fantasma onde não tem fantasma. Qualquer estado da Federação (que precisar) terá ajuda. Essa é nossa missão: ajudar a reforçar a segurança pública. E acho que (isso ocorreu) em tempo recorde”, refutou. De acordo com ele, Moro recebeu a solicitação do governador do Ceará na quinta-feira e respondeu com o envio das Forças Armadas apenas um dia depois.

Theophilo explicou que são necessárias 48 horas para que missões do tipo sejam planejadas. “Para chegar logo, mandamos 70 homens que estavam lá perto e 30 outros de Aracaju”, contou. “Outros 88 homens serão enviados hoje (ontem) à tarde, e o restante dos 300 desempenhados, saem de madrugada”, detalhou. A tropa, segundo Theophilo, estará em condições de operar hoje.


Alfinetada

Aliado do presidente da República, o deputado Danilo Forte (PSDB-CE), que atuará como articulador do governo federal no Nordeste, disse que o Ceará está “uma praça de guerra”. O parlamentar afirmou que o problema da violência no estado se estende há, pelo menos, seis anos. “Desde o governo de Cid Gomes (PDT), ninguém faz nada. O problema é que há certa conveniência por parte do comando da segurança pública cearense em não afrontar as facções em razão do medo que se sente delas”, afirmou. Um ano atrás, Forte pediu ao então presidente Michel Temer que organizasse uma intervenção no Ceará — ideia que foi esquecida à época.

“No Ceará, além da violência nas ruas, a comunidade carcerária é um problema. Os presos escolhem a cela em que vão ficar, inibem o governo a bloquear celulares e fazem de tudo para continuar com a visita íntima. É um verdadeiro serviço de hotelaria”, criticou. “As mudanças no país e o ímpeto de Bolsonaro fazer o enfrentamento criou novo ânimo aqui. Mas não basta convocar a Força Nacional. É necessário desenvolver um mecanismo mais forte de enfrentamento de fato, com diligência, coerência e persistência”, frisou.

“Faltava, por parte do governo do Ceará, se enquadrar e, via ofício, informar da real necessidade da presença da força pela sua incapacidade de resolver o problema”
Jair Bolsonaro, presidente, numa alfinetada ao governador Camilo Santana

“Tentaremos fortalecer o uso das forças estaduais para reduzir o uso da Força Nacional. A ideia é não empregar as Forças Armadas de forma prematura”
General Guilherme Theophilo, secretário de Segurança Pública
 

Noite de terror

 
A noite de quinta-feira foi de terror nas ruas do Ceará, com ataques a veículos, prédios públicos e agências bancárias. Segundo o governo estadual, as investigações apontam que as ordens partiram das facções Comando Vermelho e Guardiões do Estado, que estavam em conflito até a semana passada, mas tentam pressionar o estado. Os crimes aconteceram um dia após o secretário da recém-criada pasta de Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, ter dito que não reconhecia facções e que não ia mais separar presos de acordo com a ligação com esses grupos.

O governo cearense também enviou equipes de policiais civis para dentro da Casa de Privação Provisória de Liberdade 3, na Grande Fortaleza. No total, 250 detentos devem ser autuados por envolvimento por crimes de motim e desobediência.

Ontem, os alvos se espalharam da Grande Fortaleza para o interior. Houve ataques a prédios públicos, como a prefeitura de Maracanaú, e a agências bancárias, além da tentativa de explosão de um viaduto. Mais de 40 veículos — entre carros, ônibus, caminhões e até trator — foram queimados durante a semana. Os bandidos têm usado galões de combustível e coquetéis molotov para cometer os crimes.

Em Fortaleza, o comércio de rua fechou até duas horas mais cedo. Dois dos terminais mais movimentados da capital também não funcionaram à tarde, e coletivos circulavam sob escolta da polícia.

“Tenho filhos pequenos em casa. Uma hora dessas, estão sozinhos, porque já chegaram da escola, e estou aqui sem saber a que horas vou”, reclamou a manicure Ana Freire, após não conseguir embarcar no ônibus por excesso de passageiros. 

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