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Correio Braziliense

Para especialistas, discurso de Bolsonaro em Davos foi superficial

Com discurso de seis minutos em Davos, bem abaixo do tempo estipulado, Bolsonaro enfatiza a necessidade de mudança ética, de reformas, de abertura comercial e de conciliação do meio ambiente com desenvolvimento


postado em 23/01/2019 06:00

Jair Bolsonaro durante discurso no Fórum Econômico Mundial:
Jair Bolsonaro durante discurso no Fórum Econômico Mundial: "Vamos investir pesado na segurança para que vocês nos visitem com suas famílias" (foto: Alan Santos/PR)

O presidente Jair Bolsonaro fez ontem sua estreia internacional com um discurso de seis minutos no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Foi o primeiro chefe de Estado a falar no evento deste ano. Sucinto, tocou nos pontos que a plateia de investidores mais estava interessada: o governo busca melhorar o ambiente de negócio no Brasil, com desburocratização, incentivo ao comércio internacional e redução da criminalidade. Ele enfatizou também o meio ambiente, tema sensível ao público mundial e sobre o qual pairam dúvidas quanto às ações que serão promovidas no mandato dele. À noite, em reunião com empresários, ele afirmou que, por ora, o Brasil vai continuar no Acordo de Paris sobre o clima.

Por meio do Twitter, Bolsonaro destacou que foi o primeiro líder de um país no Hemisfério Sul e de fora do G7, o grupo das nações mais ricas, a discursar na abertura do evento. A intervenção dele teria, a princípio, 45 minutos. Foi reduzida para meia hora. Mesmo com as questões, porém, não passou de 16 minutos no total. Houve críticas de analistas quanto à superficialidade das propostas apresentadas. A recepção do público local foi fria, com poucos aplausos ao final, indicando certa decepção, já que a procura por ingressos para garantir um lugar no auditório havia sido grande.

Logo depois de chegar ao púlpito, Bolsonaro disse, espontaneamente, estar “emocionado” por se dirigir à plateia. Em seguida, começou a ler um discurso preparado por ministros e assessores. Destacou o fato de ter vencido as eleições “gastando menos de US$ 1 milhão e com oito segundos de tempo de televisão, sendo injustamente atacado a todo tempo”.

Em relação a mudanças constitucionais ou legais, ele apenas citou a intenção de fazê-las, sem detalhes. “Gozamos de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós”. Procurou se calçar na qualidade da equipe, citando a presença dos ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo; da Economia, Paulo Guedes; e da Justiça, Sérgio Moro. “Vamos investir pesado na segurança para que vocês nos visitem com suas famílias, pois somos um dos primeiros países em belezas naturais, mas não estamos entre os 40 destinos turísticos mais visitados do mundo”, ressaltou. “Conheçam a nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades e nosso Pantanal. O Brasil é um paraíso, mas ainda é pouco conhecido.”

Ele disse considerar injustas as críticas dirigidas ao governo pela política ambiental. “Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país no mundo tem tantas florestas como nós”, destacou. Há, porém, cerca de 30 países pobres e ricos com níveis de preservação de biomas equivalentes ou superiores aos do Brasil, incluindo Coreia do Sul, Japão, Finlândia, Rússia, Suriname e Congo. Para Bolsonaro, o Brasil precisa “avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade e o necessário desenvolvimento econômico”. Os “verdadeiros direitos humanos” e a defesa da família também foram citados no discurso.

 

Carga tributária

Bolsonaro mencionou a necessidade de reduzir a carga tributária e colocar o país entre os 50 melhores do mundo para fazer negócios — hoje está em 109º lugar no ranking do Banco Mundial. Ele mencionou também a intenção de abrir a economia brasileira e de fortalecer a Organização Mundial do Comércio (OMC), algo que contradiz a intenção dos aliados norte-americanos, que buscam reduzir o poder do órgão.

Quando indagado por Klaus Schwab sobre quais os passos para a transformação econômica do país, o presidente elencou as reformas citadas antes e a ênfase no comércio, acrescentando que “questão ideológica deixará de existir” nas relações diplomáticas. O fundador do Fórum pediu mais detalhes quanto à preservação ambiental, mas tampouco conseguiu obtê-los. “O que pudermos aperfeiçoar, faremos”, se limitou a dizer o presidente.

O mais curto
O discurso de Bolsonaro em Davos foi muito menor do que os feitos por outros presidentes brasileiros que participaram do Fórum. Em 2014, Dilma Rousseff falou por pouco mais de 32 minutos. Alguns anos depois, Michel Temer usou 30 minutos, incluindo perguntas. Já Luiz Inácio Lula da Silva fez três discursos na plenária de Davos, todos incluindo perguntas. Em 2003, falou por 28 minutos; em 2005, por 27 minutos; e em 2007, por 38 minutos.

 

 

O presidente almoçou num bandejão de um supermercado de Davos (foto: Alan Santos/PR)
O presidente almoçou num bandejão de um supermercado de Davos (foto: Alan Santos/PR)

 

Investidores esperavam mais

O discurso que o presidente Jair Bolsonaro fez ontem na abertura oficial do Fórum Econômico Mundial dividiu especialistas e economistas no Brasil e no exterior. A maioria, contudo, ficou frustrada e criticou o conteúdo, considerado superficial, em uma fala de apenas seis minutos. O tempo diminuto causou constrangimento, porque sinalizou que chefe de Estado da maior economia da América Latina não teria muito a dizer para a plateia tão qualificada, que retribuiu com aplausos tímidos.

Os investidores queriam mais. Não à toa, logo após o discurso, a Bolsa da Valores de São Paulo (B3), que ensaiava um novo recorde em meio à queda dos mercados internacionais, chegou a despencar 1000 pontos no fim da fala do presidente. De acordo com os especialistas ouvidos pelo Correio, por marcar a estreia do presidente no cenário internacional para um público tão selecionado, foi um desperdício, ainda mais porque ele aproveitou para criticar a esquerda e os defensores do meio ambiente, quando a maior parte dos participantes do Fórum apoia o Acordo de Paris.

“O grande público de Davos é composto por europeus que defendem políticas de meio ambiente”, lembrou o economista Roberto Dumas, professor de economia internacional do Ibmec-SP. 

Na avaliação da economista Monica de Bolle, pesquisadora-sênior do Peterson Institute for Internacional Economics (PIIE) e diretora do Programa de Estudos Latino-Americanos da Johns Hopkins University, em Washington, Bolsonaro estava visivelmente desconfortável naquele ambiente. “O discurso tem referências à reforma da Previdência, à abertura econômica, ao fim do viés ideológico — embora tenha um ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo) que contradiz essa questão —, mas não teve conteúdo. Ele falou dos ministros Sérgio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia) como os fiadores da credibilidade desse novo governo”, ressaltou.

Promessa

De Bolle destacou ainda que Bolsonaro fez uma promessa que não será cumprida, de colocar, até o fim do mandato, o país no ranking dos 50 melhores do mundo para se fazer negócios. “Isso será impossível num prazo de quatro anos”, afirmou. Para conseguir atingir esse objetivo, seria necessário superar outros 59 países no ranking Doing Business do Banco Mundial. Neste ano, o Brasil aparece em 109º lugar entre 190 nações.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, considerou o discurso de Bolsonaro muito superficial e por isso decepcionou o mercado. “Houve frustração com a brevidade das suas palavras e a falta de conteúdo firme, mas é o que o presidente consegue fazer”, disse. “Criou-se uma expectativa muito grande sobre o discurso porque, até agora, o governo trabalha no campo das ideias, e a concretude aguardada não veio”,  emendou.

No entender de José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, o discurso breve do presidente já era esperado, pois ele tinha avisado. “Não houve surpresa. Foi um discurso simples, que fala de tudo o que tinha que ser falado, sem dar margem a grandes críticas, mas também não gera grandes elogios”, resumiu. Ele minimizou a frustração do mercado, afirmando que a B3 caiu, “porque as demais bolsas também caíram”.

 

 

 

Escapadinha
Jair Bolsonaro e o filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) deram uma “escapadinha” do Fórum Econômico Mundial na manhã de ontem. Como o presidente tinha compromissos apenas a partir das 15h30, horário local, os dois foram passear de carro pelo resort suíço de pouco mais de 11,1 mil habitantes e escoltados por seguranças. Assessores evitaram comentar a escapada, mas confirmaram que ele almoçou em um supermercado, o Migros — a imagem dele comendo num bandejão foi postada em redes sociais. O último presidente brasileiro que fugiu de cafés e almoços realizados pelos organizadores do Fórum e que acabou “turistando” por Davos foi Fernando Collor de Mello, segundo frequentadores do evento.

 

 

Sem encontros bilaterais

A falta de encontros bilaterais no primeiro dia da agenda do presidente Jair Bolsonaro em Davos, na Suíça, causou estranheza entre especialistas e deixou claro que ele delegou as conversas mais detalhadas com investidores e representantes de empresas e de governo para seus ministros em encontros paralelos aos painéis do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês).

Apesar de haver várias solicitações de encontros bilaterais, Bolsonaro não teve nenhuma reunião exclusiva ao longo do dia. Para hoje, estão previstos apenas dois encontros bilaterais na agenda: com o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, e com o presidente da Suíça, Ueli Mauer.

“Não é comum para um chefe de Estado que sai do país para um evento do porte do WEF não se encontrar com representantes de outros governos e de grandes empresas. Ao evitar esses encontros bilaterais, que também são importantes nesses eventos, fica parecendo que o presidente foi só passear”, criticou o economista José Luis Oreiro, professor da UnB. Para ele, o discurso de Bolsonaro “foi mais frustrante do que ele esperava”.   

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