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Correio Braziliense

Indígenas protestam contra Bolsonaro e pedem Funai no Ministério da Justiça

O chamado "Janeiro Vermelho" foi marcado por atos indígenas nacionais e internacionais


postado em 31/01/2019 18:25 / atualizado em 31/01/2019 19:49

(foto: Ingrid Soares/CB/D.A Press)
(foto: Ingrid Soares/CB/D.A Press)

Encerrando o chamado "Janeiro Vermelho" indígenas realizaram atos nacionais e internacionais, contra as medidas do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Durante o ato no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) criticou a MP nº 870 que transfere as demarcações das terras indígenas, que antes eram da Funai para o Ministério da Agricultura. A reivindicação é de que o Ministério da Justiça fique responsável pela Funai.
 
 
 
Os povos também são contrários à municipalização da saúde indígena, que prevê que eles sejam atendidos em centros de saúde, junto aos demais cidadãos. Hoje, o atendimento é feito nas próprias aldeias, com treinamento específico dos profissionais. “A garantia de território é a principal bandeira dos povos indígenas. Trazer a demarcação para o Mapa é uma demonstração clara do governo que não vai mais realizar demarcações, porque está entregue nas mãos do agronegócio. O MJ é o órgão que tem preparo e estrutura para fazer estudos e demarcações. O compromisso do Mapa é com o agronegócio”, apontou.

Segundo ela, as declarações feitas pelo presidente em torno das questões indígenas, têm ajudado a alimentar a violência, conflitos e a invasão de terras indígenas.“Quem já está lá e tem a intenção de invadir, se sente respaldado por esse discurso. Precisamos estar no MJ, porque ele vai demarcar terras e garantir a segurança nos territórios”, defendeu.

A líder indígena Sônia Guajajara, que foi vice candidata à presidência na chapa encabeçada por Guilherme Boulos em 2018, ainda comentou a declaração do presidente Bolsonaro, que afirmou que "O índio quer se integrar à sociedade, quer médico, dentista, quer jogar bola, internet. Ele quer tomar um banho com um sabonete, que não tem".

“Quem precisa tomar banho com sabonete é ele, que está sujo e não nós. O que queremos é o território demarcado para ter direito a uma cidadania plena, sendo o que somos, preservando a identidade. Isso não quer dizer que não temos direito a acessar meios tecnológicos e políticos que estão fora das terras indígenas. Queremos sim, acesso à universidades, a ter celular. O fato de eu ter não vai me deixar mais ou menos indígena. As declarações dele representam claramente preconceito, desconhecimento e racismo contra os povos indígenas”, declarou.

No Brasil, as ações aconteceram em 22 estados e no DF. O ato faz parte de uma mobilização nacional "Sangue indígena, nenhuma gota a mais", voltado para alertar possíveis perdas de direitos na atual gestão federal.

Guajajara ressalta que em um mês, foram mais de 15 invasões em áreas de conflito. “O que esperar então em um ano? Acionamos o Ministério Público contra a medida. Também vamos entrar com uma ADI no STF. Entrar com ação na PGR. No legislativo, vamos criar uma frente parlamentar para apresentar emendas para esses desmontes”.

Em relação à adoção da indígena Kajutiti Lulu Kamayurá pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, Sônia apontou que apoiam uma investigação, uma vez que a ministra não possui documentos legais que comprovem a adoção.  Índios da aldeia Kamayurá, no Xingu, no norte do Mato Grosso, afirmaram que Damares levou a jovem com seis anos, irregularmente da tribo. Hoje, ela tem 20 anos.

Cerca de 20 índios estiveram no local portando cartazes e protestando com cânticos, danças e gritos de guerra. Eliseu Lopes, 42 anos, do povo Guarani  Kaiowá ressaltou que desejam diálogo com o governo “Não nos sentimos seguros depois dessa paralisação de demarcação de terras. Queremos respeito, que a Constituição seja respeitada. Nós sempre vamos continuar indígenas, mesmo com a mentalidade de Bolsonaro, temos que manter nossa identidade, língua, raízes. O nosso modo de ser é único”, completou.

O indígena Poran Potiguara, disse que as medidas adotadas são uma manobra de enfraquecimento dos povos indígenas. “É como uma raposa cuidando do galinheiro esse plano do presidente. Tudo para favorecer a mineração e o agronegócio. Sobre a municipalização da saúde indígena, a responsabilidade é do governo federal e não municipal ou estadual.”, disse.

A primeira deputada federal indígena, Joênia Wapichana, também presente no ato, comentou sobre as pautas do mandato. “Vou focar no avanço dos direitos coletivos indígenas e defesa, para que nenhum direito conquistado em 98 seja retrocedido e nenhuma gota de sangue indígena seja derramado”, concluiu.

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