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Correio Braziliense

Lobistas concentram ação nas áreas de infraestrutura, agricultura e energia

Levantamento das agendas de ministros revela onde está o interesse de setores econômicos no governo Bolsonaro. Pastas mais procuradas são Infraestrutura, Agricultura e Minas e Energia. Decreto regulamenta conduta de servidores e grupos de pressão


postado em 10/02/2019 08:00 / atualizado em 09/02/2019 23:47

Chefe da pasta da Transparência (CGU), Wagner Rosário(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Chefe da pasta da Transparência (CGU), Wagner Rosário (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Os primeiros dias do governo Jair Bolsonaro mostram como os representantes de setores econômicos têm se movimentado na Esplanada e como a própria equipe ministerial interage com os grupos de pressão. Levantamento nas agendas públicas dos integrantes do primeiro escalão revela que as pastas mais procuradas por dirigentes de empresas privadas são, por ordem, Infraestrutura, Agricultura e Minas e Energia. Os grupos mais atuantes ao longo desse período são de logística, transportes, financeiro, energia, agronegócio, alimentos, energia, óleo e gás, mineração, financeiro e tecnologia.

No ranking das reuniões com os setores econômicos, o ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, participou de 22 encontros com empresas de transportes, logísticas, financeiras e de transmissão de energia. Empatados em segundo lugar, com 20 agendas cada, estão os titulares das pastas de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e da Agricultura, Tereza Cristina. Receberam integrantes de áreas afins aos ministérios, como energia elétrica, óleo e gás, mineração, agronegócio e indústria alimentícia. Logo atrás, com 18 encontros, está o chefe da Economia, Paulo Guedes, que se reuniu com atores financeiros e de tecnologia digital.

“O fato de os dois ministros com o maior número de reuniões até 6 de fevereiro serem Tarcísio Freitas e Bento Albuquerque coincide, não por acaso, com o destaque que os setores de infraestrutura e energia terão no governo de Jair Bolsonaro”, afirma Thiago Vidal, analista político da Prospectiva Consultoria, que fez o levantamento das reuniões no mês de janeiro e o atualizou a pedido do Correio. “É importante ficar atento para os investimentos que o governo tentará atrair para ambos os segmentos”, diz Vidal.

O analista divide os planos do governo em duas partes: “Garantir crescimento econômico — as estimativas do mercado financeiro para o PIB são de 2,5% para 2019, 2020 e 2021, o que depende de privatizações e concessões — e retirar do Estado a responsabilidade por esses investimentos, diferentemente do que ocorreu nos governos do PT, tanto por convicção ideológica quanto por incapacidade fiscal de fazê-lo”. O chefe da pasta da Transparência (CGU), Wagner Rosário, teve cinco reuniões com profissionais de relações governamentais.

Decreto

Em entrevista ao Correio, Wagner Rosário disse que o Planalto está prestes a divulgar decreto específico para regulamentar o lobby no Executivo. “A ideia é estabelecer um espaço único para as agendas de ministros e facilitar o trabalho de checagem, apresentando os nomes dos interlocutores, os assuntos tratados e até mesmo as sanções para servidores que descumprirem normas, tudo em dados abertos.” O texto já foi apresentado ao ministro da Justiça, Sérgio Moro. A expectativa é de que os trabalhos estejam concluídos em março e sejam implementados até o final do primeiro semestre.

Três perguntas para Rodrigo Navarro, coordenador do curso de relações governamentais da FGV

Existe uma mudança na estratégia de relações institucionais no governo Bolsonaro?
Como todo novo governo, você tem mudanças de cargos, pessoas, responsabilidades, ministérios que se fundiram. O primeiro desafio é fazer esse mapeamento. É o tal do quem é quem. Até porque não é só a mudança de uma pessoa, ministro ou secretário. Hoje o ministério da Economia tem várias funções agregadas, por exemplo. É preciso saber quem será o interlocutor. Todo governo novo tem pressa em mostrar um bom serviço, e o profissional de relações institucionais tem de ter em mente que ele tem de criar valor, o que é bom para o setor representado, mas que seja bom também para o governo, para ele arrecadar mais, fomentar mais inovação, mais geração de emprego, mais investimento e também para a sociedade. É preciso levar dados, mas também apresentar sugestões para solução de problemas. É preciso o tempo de bola também para saber quais os assuntos estão na pauta. Conteúdo tem de ser meritório, a forma, transparente, trazendo dados, e o time. Por exemplo, buscar mais incentivo ou proteção ou aumentar o gasto público, certamente, por mais meritório, não é o time adequado.

Mas quais as diferenças?
No ponto de vista técnico, você tem o peso das ferramentas digitais. O presidente se comunica mais pelas redes sociais, questões são debatidas com muitos interlocutores. Uma proposta vaza e rapidamente é tema de discussão, por exemplo. Mas também temos os eixos dos interlocutores: o militar, a equipe econômica e a parte política, que atuou na eleição para a Mesa do Senado. É preciso entender o comportamento desses atores.

A gritaria das redes sociais atrapalha ou ajuda?
Às vezes, atrapalha, às vezes ajuda. Cabe a quem está no jogo tirar o melhor da situação. Um parlamentar que coloca o projeto dele ao escrutínio tem muito mais chances de acertar em relação àquele que recebe meia dúzia de pessoas no gabinete, ainda com transparência, para contribuir. 

Chefe da pasta da Transparência (CGU), Wagner Rosário(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Chefe da pasta da Transparência (CGU), Wagner Rosário (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


“A ideia é estabelecer um espaço único para as agendas dos ministros e facilitar o trabalho de checagem, apresentando os nomes dos interlocutores, os assuntos tratados e até mesmo as sanções para servidores que descumprirem as normas, tudo em dados abertos”,
Wagner Rosário, ministro da Transparência e Controladoria Geral da União (CGU)

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