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Correio Braziliense

Internação prolongada de Bolsonaro trava ações do governo federal

Negociadores de temas econômicos de grande repercussão, como reforma da Previdência e cessão onerosa, aguardam retorno do presidente às atividades no Planalto para tocar as pautas. Alta hospitalar está prevista para ocorrer até o fim desta semana


postado em 11/02/2019 06:00 / atualizado em 10/02/2019 23:01

(foto: Romério Cunha/VPR)
(foto: Romério Cunha/VPR)
O presidente Jair Bolsonaro completa hoje 15 dias internado no hospital Albert Einstein, em São Paulo, após a cirurgia de reconstrução do trânsito intestinal. Enquanto a sociedade acompanha atentamente a evolução do quadro clínico, parte importante das atividades no Palácio do Planalto continua em compasso de espera até que ele volte à ativa. Temas econômicos de grande repercussão, como reforma da Previdência e cessão onerosa, estão na lista de matérias que aguardam o retorno do presidente para serem tocadas.

Complicações como a pneumonia detectada na semana passada e alguns momentos de febre fizeram com que Bolsonaro precisasse ficar mais tempo no hospital do que era esperado. A previsão inicial era de que ele recebesse alta na semana passada, 10 dias após a cirurgia, feita em 28 de janeiro. Agora, a expectativa é de que ele seja liberado nesta semana.
Embora algumas discussões tenham avançado nesse meio tempo — como o pacote anticrime apresentado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro — a agenda econômica está travada. O texto da reforma da Previdência, por exemplo, não pode ser enviado ao Congresso sem que o presidente dê a última palavra sobre o conteúdo. Assim, mesmo que a equipe econômica já tenha um projeto que considera ideal, tudo ainda pode mudar.

Por isso, alguns aliados consideram que, enquanto Bolsonaro estiver no hospital, o cronograma da reforma ficará em aberto, com previsões difusas. A apresentação do texto, que seria nos primeiros dias de fevereiro, deve ser adiada mais uma vez, para a semana que vem. Oficialmente, ninguém se arrisca a definir uma data para votação.

Longe de Brasília, além de não participar da definição do conteúdo, o presidente também não tem como se articular de forma eficiente em busca dos votos para a aprovação da proposta ou para prosseguir com a discussão de outras pautas, como a da cessão onerosa de excedentes da Petrobras.

Estratégia

O que os integrantes do alto escalão do governo podem fazer, enquanto Bolsonaro continua internado, é assumir e intensificar a articulação política pela aprovação das medidas, avalia o cientista político César Alexandre Carvalho, da CAC Consultoria. “O tempo a mais de Bolsonaro no hospital pode ser encarado como uma semana extra para negociar votos com os aliados. Não acho que tenha prejudicado a pauta. Acho que, se a reforma já estivesse pronta, já teriam apresentado alguma coisa”, comentou.

O analista ressaltou que a figura do presidente nas discussões é importante, mas o papel de articulação política é atribuição do ministro da Casa Civil. E, a julgar pela agenda cheia e pelo resultado das eleições no Congresso, o comandante da pasta, Onyx Lorenzoni, mostra que tem assumido bem o papel. “Desde a campanha, Bolsonaro sempre teve um perfil de gerente, mais do que de articulador direto”, disse Carvalho.

Serviço

É natural que Bolsonaro seja poupado de atividades mais pesadas enquanto está no hospital. Ainda assim, ele tem feito o possível para mostrar que, mesmo que o presidente esteja internado, o governo não parou. Na última sexta-feira, um dia após ser diagnosticado com pneumonia, ele recebeu no hospital o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e o subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Jorge Oliveira. “O Brasil não pode parar!”, escreveu no Twitter.

No dia seguinte, Bolsonaro disse, na rede social, que Freitas anunciará medidas de “desburocratização e economia” para o trânsito, como a ampliação da validade da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e o fim da obrigatoriedade de aulas em autoescolas com simuladores. Nenhum projeto que faça parte da agenda de prioridades do governo, mas a declaração cumpre o objetivo de mostrar que o presidente continua atuando.

Além disso, ao mostrar serviço, Bolsonaro aproveita para desviar os holofotes do vice, Hamilton Mourão. À época da cirurgia, Mourão chegou a assumir o comando do governo por 48 horas. As várias entrevistas que deu naqueles dias geraram desconfiança entre familiares e aliados do presidente, que agora preferem evitar um protagonismo do vice. “Quanto mais um vice aparece, menos o presidente gosta, ainda mais nessas circunstâncias. Uma coisa é ir a eventos já marcados, assinar um decreto. Outra coisa é dar tanta entrevista”, explicou o cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Análise da notícia


Luiz Carlos Azedo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) deve receber alta na quinta-feira, se não houver nenhuma nova complicação médica. Internado no Hospital Israelita Albert Einstein, segundo o boletim médico divulgado na tarde de ontem, tem boa evolução clínica, não tem febre e o quadro pulmonar apresenta melhora significativa. Uma pneumonia bacteriana, que está sendo combatida com antibióticos, retardou a alta do presidente da República. Bolsonaro reassumiu a Presidência dois dias após a operação de retirada da colostomia e religação dos intestinos grosso e deslado, mas não estava em condições de exercer plenamente o cargo. O governo ficou meio descoordenado.

Entretanto, o ambiente no Congresso é favorável ao governo, tanto na Câmara quanto no Senado, porque há uma maioria favorável à reforma da Previdência e ao projeto de combate à corrupção e ao crime organizado apresentado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro. Mas o diabo mora nos detalhes, diz o ditado popular. Há decisões que ainda precisam ser tomadas para que as propostas sejam apresentadas ao Congresso, notadamente a reforma da Previdência, que deve gerar uma economia de R$ 1 trilhão, segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes. Bolsonaro precisa bater o martelo em definições do tipo idade mínima para homens e mulheres e tempo mínimo de contribuição.

Também há que se discutir as prioridades. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já alertou o ministro Paulo Guedes de que o governo precisa definir uma prioridade. Não dá pra discutir outros projetos ao mesmo tempo da reforma da Previdência, sem enfraquecer a mobilização para sua aprovação. É outra decisão que depende de Bolsonaro.

Há quem questione a decisão do presidente da República de não se licenciar do cargo para passar o comando do Palácio do Planalto para o vice-presidente, Hamilton Mourão, com o argumento de que isso paralisou o governo, mas é leite derramado. Tudo indica que houve um agastamento entre ambos, por causa das declarações de Mourão e sua performance durante as interinidades, na viagem de Bolsonaro para Davos e nos três primeiros dias de sua internação.

É preciso cuidado. Intrigas palacianas são mesmo corrosivas, como nos mostrou Carlos Castelo Branco ao relatar as disputas entre Raul Riff e José Aparecido nos bastidores do governo Jânio Quadros. Do ponto de vista prático, porém, não há muito a fazer, a não ser esperar a recuperação de Bolsonaro.

O tempo a mais de Bolsonaro no hospital pode ser encarado como uma semana extra para negociar votos. Se a reforma já estivesse pronta, já teriam apresentado

César Alexandre Carvalho,
cientista político

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