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Correio Braziliense

Filhos de Bolsonaro complicam o início do governo do pai

Desde a campanha, os filhos do presidente fazem questão de demonstrar uma proximidade enorme com o pai, que vai além de fotos postadas em redes sociais durante momentos íntimo


postado em 16/02/2019 07:00 / atualizado em 16/02/2019 08:53

Carlos começou ontem seu trabalho como vereador no Rio: mostra de proximidade com o pai(foto: Sergio Lima/AFP - 13/11/18 )
Carlos começou ontem seu trabalho como vereador no Rio: mostra de proximidade com o pai (foto: Sergio Lima/AFP - 13/11/18 )

As maiores polêmicas do governo Bolsonaro até agora foram protagonizadas por figuras políticas que não fazem parte da estrutura governamental de fato. As crises mais significativas do Planalto tiveram envolvimento de familiares do presidente Jair Bolsonaro e do vice, general Hamilton Mourão. Das brigas pelo WhatsApp com o partido à quase exoneração do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, praticamente todas as intrigas tiveram dedo dos filhos do mandatário do Executivo.

Desde a campanha, os filhos do presidente fazem questão de demonstrar uma proximidade enorme com o pai, que vai além de fotos postadas em redes sociais durante momentos íntimos. Ao ser eleito, Bolsonaro continuou permitindo que a prole se posicionasse como parte do governo. O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) desfilou no Rolls-Royce presidencial durante a posse, quebrando todos os protocolos. Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), reeleito como deputado federal, esteve no centro de discussões sobre o partido no grupo de mensagens instantâneas do PSL — nas quais chegou a dizer que articulava a presidência da Câmara a pedido do presidente.

“Como a campanha foi muito familiar, os filhos permaneceram orbitando. Um deles até foi para Davos, na Suíça, no primeiro compromisso oficial do governo. Essa aura familiar não faz bem ao país e intriga a oposição”, analisa o cientista político Ivan Ervolino, criador da start-up de monitoramento legislativo Siga-Lei. O especialista acredita que a influência dos herdeiros de Bolsonaro é munição para “os adversários na Câmara, no Senado e, possivelmente, no Judiciário”.

A Justiça também foi alvo de ataques da família presidencial. “Para fechar o STF (Supremo Tribunal Federal) basta um soldado e dois cabos”, disse Eduardo, ainda durante a campanha, no ano passado. Ao ser chamado a atenção, disse que as frases foram tiradas de contexto. A intervenção mais grave até agora ocorreu nesta semana, quando Carlos desmentiu o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, em meio a uma confusão envolvendo supostos repasses financeiros ilegais na campanha eleitoral (veja Quadro).


“Meninos problema”

Professor de história política contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), Antônio José Barbosa acredita que “a presença do 01, 02 e 03 (apelidos dos filhos de Bolsonaro) tem tudo para não terminar bem”. Para ele, a solução é recorrer ao agora moderado vice-presidente, Hamilton Mourão, e ao “sábio” — nas palavras de Barbosa — general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Heleno, de fato, foi designado pelo partido, pelo Planalto e pela cúpula militar a aconselhar o presidente Jair Bolsonaro sobre a excessiva interferência dos filhos. A recomendação é pedir para que o pesselista afaste os herdeiros políticos do governo. “Como ficou muito claro que os ‘meninos problema’ do presidente não gostam do vice, tiveram que encontrar outro nome. Foi Heleno. E ele precisa deixar claro que, para governar, é necessário muito mais que herança genética”, afirmou Barbosa.

Caso o presidente dê um ultimato para os filhos pararem de se intrometer nas atividades palacianas, Carlos, Flávio e Eduardo terão os próprios mandatos para cuidar. O trabalho na Câmara e no Senado começou há duas semanas e o retorno do Legislativo carioca ocorreu ontem. “Não dá para continuar gerenciando os assuntos do Planalto na cozinha de casa. Os filhos do presidente precisam representar as parcelas da população que os elegeram. Temos um vereador, um deputado federal e um senador entre os filhos de Bolsonaro, mas o presidente é ele”, complementa o analista político da HC7 Pesquisas Carlos Alberto Moura.

Finalizadas as picuinhas familiares, sobra tempo para administrar as ingerências da Esplanada. Ao que tudo indica, a próxima delas é a repercussão da última entrevista da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que sugeriu aos pais de meninas que deixem o país. “O Brasil não é lugar para criá-las”.
 

Problemas históricos

Há outros casos famosos de proximidade muito grande de filhos e mulheres junto aos presidentes. No Brasil, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do ex-presidente Getúlio Vargas, tinha poder de influenciar nas decisões do Palácio do Catete. Estava sempre ao lado de Getúlio, mas não exercia nenhum cargo político. Alzirinha ganhou a amizade e a confiança ao aceitar o desafio proposto pelo próprio Vargas de organizar a biblioteca de casa. Depois, cuidou dos arquivos pessoais do pai e passou a lhe dar conselhos. Na Argentina, o exemplo mais destacado ocorreu durante os governos de Juan Perón. A mulher dele, Eva Perón, roubava a cena. Evita tornou-se um ícone nacional, sendo até mais celebrada que o ex-presidente. Partiram dela as ideias para programas sociais e de assistencialismo, direcionados aos eleitores mais pobres — que ela chamava de “descamisados”.
 
 
 

Retorno com homenagem

 
Pivô de uma crise no governo, aberta por uma briga sua com o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, foi ontem à Câmara Municipal do Rio, mas deixou o local antes de a votação acabar. A sessão precisava de 17 parlamentares presentes para continuar, mas, na verificação de quórum, só constaram 15 vereadores. Carlos, que marcou presença ao chegar, ficou menos de meia hora no plenário e não participou da contagem. A Casa só voltou nesta sexta do recesso parlamentar, que começou em 26 de dezembro.

Antes de ir embora, Carlos tirou muitas fotos com assessores de outros políticos, cumprimentou aliados e adversários e fez uma selfie com um documento em mãos. Depois, compartilhou em suas redes sociais a foto com o papel: um requerimento de outro vereador para homenagear o vice-presidente Hamilton Mourão na Câmara Municipal. Carlos apoiou a proposta. “Assinando pedido de colega para oferecer a Medalha Pedro Ernesto para o general Mourão”, escreveu.

Mourão tem demarcado diferenças em relação ao presidente Bolsonaro, em entrevistas diárias. Carlos já insinuou no Twitter que o vice gostaria de substituir seu pai na Presidência. A homenagem foi proposta pelo vereador Jimmy Pereira, do PRTB, partido de Mourão. Carlos não quis falar com a imprensa ao chegar à Câmara. Durante o ano passado, o vereador se licenciou — de forma não remunerada — em três ocasiões. Os 120 dias coincidiram com o período em que trabalhou na parte de comunicação da campanha do pai. 

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