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Correio Braziliense

Demissão de Bebianno é frustração para PSL e vitória para Carlos Bolsonaro

O vaivém sobre a queda de Gustavo Bebianno envolveu diversas reuniões e deve terminar com uma decisão pessoal do presidente Jair Bolsonaro neste fim de semana ou na segunda-feira. Solução da crise causa mais frustrações do que alívio entre correligionários


postado em 16/02/2019 07:00 / atualizado em 15/02/2019 23:46

A ligação entre Bebianno e o presidente Bolsonaro ficou a cargo de Onyx Lorenzoni: recados mostraram que o ministro demissionário ficou isolado(foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 12/11/18 )
A ligação entre Bebianno e o presidente Bolsonaro ficou a cargo de Onyx Lorenzoni: recados mostraram que o ministro demissionário ficou isolado (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil - 12/11/18 )

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, é o primeiro ministro demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Suspeito de liberar verbas para candidaturas laranjas quando ainda era presidente do PSL, o ministro andou ontem na corda bamba em um dia de idas e vindas, mas não conseguiu convencer o presidente Jair Bolsonaro a permanecer no cargo. O chefe do Executivo federal admitiu à cúpula política do Palácio do Planalto que demitirá o ex-mandatário de seu partido. A previsão é de que a exoneração seja publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira.
 
A permanência de Bebianno era vista como insustentável no Palácio do Planalto. Os núcleos militar e civil trabalharam para demover Bolsonaro da ideia de demissão, mas foram voto vencido. Na tarde de ontem, quando o governo sinalizou que o ministro permaneceria, o cenário era de que a crise não estava totalmente solucionada. Assessores comentavam que o ministro seguia isolado.

A principal sinalização do isolamento e do enfraquecimento de Bebianno foi emitido no início da tarde, quando o posicionamento do governo ainda era pela permanência. O mensageiro da notícia foi o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e não o presidente. A simbologia dos últimos movimentos mostra que a crise instalada depois da interferência do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-SP) nos assuntos de governo não estava resolvida.

Ao bater o pé e decidir ficar no posto ao longo da quinta-feira, Bebianno pediu para falar com o presidente. Com a relutância de Bolsonaro, o ministro acabou sendo comunicado por Onyx, que, na hierarquia do governo, tem o mesmo posto e função. Segundo integrantes da Esplanada dos Ministérios, o chefe da Secretaria-Geral sofreu mais uma dica de que o tempo no governo estava perto do fim, apesar do discurso oficial em contrário dos aliados do presidente.

O recado sobre a permanência de Bebianno foi transmitido por Bolsonaro a Onyx e ao ministro-chefe da Secretaria de Governo em reunião na manhã de ontem, no Palácio da Alvorada. Depois do encontro na residência oficial, o comunicado chegou ao ex-presidente do PSL em reunião no Planalto. Às 17h, o presidente se reuniu com Bebianno no Planalto, ao lado de Onyx e do vice, Hamilton Mourão. O encontro, no entanto, foi avaliado por interlocutores como insuficiente para amenizar o clima de isolamento.


Reuniões

Cerca de 15 minutos antes da chegada de Bolsonaro ao Planalto, que não estava prevista na agenda oficial, Bebianno havia deixado o local. Não participou de uma reunião interministerial marcada para as 15h, da qual Onyx participou. Foi convocado apenas para um encontro seguinte, menor, com Onyx, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e o vice, Hamilton Mourão.

Para um interlocutor, excluir Bebianno da reunião ministerial foi uma sinalização do isolamento do ministro. A expectativa era de que uma nova avaliação sobre a permanência de Bebianno ainda seria feita na segunda-feira. A opção, no entanto, acabou descartada por Bolsonaro, que aceitaria manter o ex-presidente do PSL, mas fora do governo, em uma estatal. Bebianno teria dito não à proposta.

A notícia não pegou bem entre correligionários. O ministro era o principal canal de interlocução com deputados e senadores do partido, que consideram Onyx tóxico. O mesmo vale para o maior desafeto do ministro da Casa Civil, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Para um parlamentar, o presidente poderia ter convocado a bancada para dar explicações antes de adotar a decisão.


Recado

O principal recado com a demissão de Bebianno é o que interlocutores do governo e aliados mais temiam: a vitória de Carlos. Para um deputado, exonerar Bebianno expressa o poder de ingerência do filho sobre a decisão do presidente. A avaliação é de que é preciso controlar o pivô da crise, responsável por ter publicado um áudio em que Bolsonaro nega uma conversa a Bebianno por motivos clínicos, quando ainda estava hospitalizado em São Paulo. “Achei que a crise talvez tenha ajudado o governo a se desvencilhar dos filhos. Precisamos de um centro de poder institucional, e não informal”, ponderou.

A demissão frustrou a Casa Civil. Os responsáveis pela articulação política esperavam que a crise fosse superada e, enfim, reforçassem as conversas com os parlamentares para a construção da base de apoio à reforma da Previdência. Nos últimos três dias, Onyx passou mais tempo tentando equacionar a crise do que fazendo a interlocução com o Congresso. “A expectativa do ministro era passar a página para poder entrar de cabeça na reforma. Qualquer turbulência é ruim, pois favorece a oposição, disse um interlocutor da pasta.


O tuíte de FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) está abusando da desorganização desde seu início, há um mês e meio. “Início de governo é desordenado. O atual está abusando”, escreveu o tucano em sua conta no Twitter. Segundo FHC, a interferência da família do presidente Bolsonaro no governo é um fator de desestabilização que afeta o país como um todo. Para o ex-presidente, “familiares” estão pondo “lenha na fogueira”, em vez de se ocuparem em debelar as dificuldades. “Problemas sempre há, de sobra. O presidente, a família, os amigos e aliados que os atenuem, sem soprar nas brasas”, tuitou o tucano. Na mensagem, Fernando Henrique também alertou para a possibilidade da crise se espalhar para além do núcleo do governo. “O fogo depois atinge a todos, afeta o país. É tudo a evitar”, concluiu o ex-presidente.

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