Publicidade

Correio Braziliense

Saída de Bebianno do governo depende apenas da publicação da exoneração

Demissão do titular da Secretaria-Geral da Presidência é dada como certa pelos aliados mais próximos do presidente, faltando apenas a publicação no Diário Oficial. Em tom de despedida, ministro publica um texto em uma rede social sobre lealdade


postado em 17/02/2019 08:00

Bebianno recebeu de Bolsonaro a oferta de um cargo na diretoria de Itaipu Binacional, mas rejeitou (foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 21/11/18)
Bebianno recebeu de Bolsonaro a oferta de um cargo na diretoria de Itaipu Binacional, mas rejeitou (foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 21/11/18)
Um dos principais articuladores da campanha do presidente Jair Bolsonaro (PSL) será a primeira baixa ministerial em 47 dias de governo. O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, aguarda apenas a formalização da demissão, que deverá ocorrer amanhã com a publicação da exoneração no Diário Oficial da União. “A sinalização é essa. A tendência é essa: exoneração”, afirmou ele, ontem, a jornalistas ao deixar o hotel onde mora em Brasília.

Em clima de despedida e na tentativa de sair de cabeça erguida, Bebianno publicou um texto em uma rede social sobre lealdade, atribuído por ele ao escritor e jornalista Edgard Abbehusen. “Uma pessoa leal, sempre será leal. Já o desleal, coitado, viverá sempre esperando o mundo desabar na sua cabeça”, escreveu. “Quando perdemos por ser leal, mantemos viva a honra. Saímos de qualquer lugar com a cabeça erguida ao carregar no coração a lealdade. É ela quem conduz os passos das pessoas que jamais irão se perder do caminho. Que jamais irão se entregar às turbulências. Que jamais irão se entregar às circunstâncias”, continuou o texto. Ao ser questionado sobre o teor da postagem, ele disse apenas que “foi uma mensagem que teve vontade de publicar”.

Ao mencionar o presidente, Bebianno disse ter “carinho”. Contudo, no último encontro com Bolsonaro, o clima não foi amistoso, de acordo com interlocutores do Palácio do Planalto. Bebianno minimizou a tensão e contou que “cada um teve a oportunidade de dizer o que pensa”. Nessa reunião de sexta-feira, o presidente chegou a oferecer a ele um cargo na diretoria de Itaipu Binacional, mas a oferta acabou recusada. “Não estou aqui por causa de emprego”, disse Bebiano ontem. Essa indicação, no entanto, seria vedada pela Lei das Estatais. A regra proíbe a indicação de “ministro de Estado” e de “dirigente estatutário de partido político”. Além de ministro, Bebianno, que é advogado, foi presidente do PSL entre março e outubro de 2018.

Repercussão

Apesar da queda de um importante integrante do primeiro escalão em tempo recorde, parlamentares do PSL evitam admitir que o governo esteja no meio de uma crise política. Eles ainda afirmam que a saída de Bebianno não prejudicará o avanço da reforma da Previdência no Congresso, que é a prioridade do governo no momento, cuja proposta do Executivo deverá ser apresentada oficialmente na quarta-feira. “Não existe crise no partido. O que houve foi uma ação e uma reação. Crise é o que acontece com o PT, se tivesse ministro preso. O que ocorreu foi apenas uma ação administrativa corriqueira”, afirmou ao Correio o líder do PSL na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO). Ele ainda minimizou o fato de o ministro cair em tão pouco tempo de gestão. “Foi um fato imprevisível. Quem erra e quem fizer atos de corrupção ou quebrar a confiança não ficará no governo. Agora não dá para medir isso no tempo. O que tem que de ser feito é punir. O presidente não pode ficar de braço cruzado”, afirmou ele.

Waldir vinha defendendo a permanência de Bebianno pelo papel exercido durante a campanha, mesmo após as denúncias de desvios de recursos do fundo partidário para candidatos laranjas no PSL no ano passado. Contudo, o deputado reconheceu que não há mais como sustentá-lo no cargo após a quebra de confiança devido ao vazamento de conversa entre o ministro e o presidente. “Não podemos nos esquecer do trabalho de Bebianno. A gente não pode esquecer que o cargo é da confiança do presidente. Houve quebra de confiança e o motivo é o vazamento dos áudios para a imprensa. Essa é a principal razão da demissão”, disse o deputado.

O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), defendeu Bebianno e disse que tentou falar com o presidente por telefone, mas sem sucesso. Para ele, o ministro deveria continuar no cargo, porque  acredita que é “absolutamente impossível” que Bebianno tivesse o controle sobre a distribuição dos recursos do fundo partidário nos diretórios estaduais. Na avaliação do senador, que prometeu atuar no Senado pela extinção do fundo, é preciso apaziguar os ânimos no momento, “no sentido da harmonização dentro do governo”. “Não se deve apagar incêndio com gasolina. Tenho conversado com Bebianno e continuo defendendo a permanência dele, mas a decisão é do presidente, que fez o convite por critérios pessoais e ele também tem a condição de definir sobre a permanência do ministro”, declarou. De acordo com o senador, a escolha de Bebiano como ministro foi “pessoal e independente de cota partidária”.

Analistas enxergam problemas

Ao contrário de parlamentares, cientistas políticos veem com cautela a primeira baixa do governo de Jair Bolsonaro em um curto espaço de tempo. Para eles, tudo indica que a saída do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, não será fácil de ser administrada em meio a uma crise política que vem tomando forma neste início de governo. Não à toa, essas dúvidas levaram o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a se reunir na manhã de ontem com Bolsonaro no Palácio da Alvorada. O democrata saiu sem falar sobre o assunto.

O cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Homero de Oliveira lembrou que Bebianno não é “qualquer um” dentro do governo, pois foi um dos integrantes do PSL mais engajados durante a campanha presidencial. “Este fato revela uma instabilidade, em menos de dois meses, de um governo que se mostrou caótico e que concedeu uma liberdade excessiva aos familiares do presidente”, afirmou. Ele ressaltou a preocupação de militares com relação à intervenção demasiada dos filhos nos assuntos do governo.

Para o professor, existe um problema moral que atinge o governo e não apenas por conta das supostas candidaturas laranjas envolvendo Bebianno e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Oliveira ressaltou que esse não é o único problema que o governo enfrenta. Há também a falta de justificativa sobre o escândalo dos depósitos suspeitos envolvendo Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente. Assim, as constantes crises enfrentadas pela gestão atual podem afetar o discurso anticorrupção feito durante a campanha. “Isso demonstra que o PSL não é tão diferente dos outros partidos que critica”, considerou.

Dificuldades

Segundo o cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Geraldo Tadeu Monteiro, a crise política e moral exposta pelo Planalto é produto de um governo “totalmente inorgânico”. Ele entende que o chefe do Executivo ainda não tem uma linha política ou programática definida, o que dificulta a governabilidade e o avanço da reforma da Previdência e das demais pautas que o governo pretende encaminhar ao Legislativo. Monteiro considera que a saída de Bebianno pode ser um retrocesso, porque deverá pulverizar ainda mais a base do governo, que já se demonstrou caótica nas primeiras votações no Congresso.

O bate-cabeça entre os integrantes do governo tem criado crises desnecessárias e que poderiam ter sido evitadas, enfatizou Monteiro, que lembra que a acusação feita por Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador pelo PSC-RJ, por meio de um tuíte, de que Bebianno teria mentido sobre conversas com o pai, gerou uma crise “absolutamente evitável”. “Em qualquer governo mais estruturado essas coisas teriam sido resolvidas internamente”, enfatizou o professor.

Para o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), os três filhos do presidente  não são um problema para o governo, apesar das interferências. “É um caso inédito. Eles são pessoas formadoras de opinião e podem criticar ou tomar posições. Isso é uma democracia. Nenhum pai consegue segurar o filho. Até os 18 anos, orienta. Depois, cria para o mundo. Não pode podar ninguém. Não vou criticar isso”, justificou. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade