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Correio Braziliense

Professor Israel: 'Educação tem de ser discussão séria', afirma deputado

Deputado federal prega o fim das "cortinas de fumaça", como chama os debates sobre ideologia de gênero e Escola sem Partido, em nome do avanço nas pautas do século 21, como a preparação de estudantes para o mundo de alta tecnologia


postado em 23/02/2019 07:00 / atualizado em 23/02/2019 11:35

(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 12/11/18)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 12/11/18)

Os moinhos de vento que, no século 17, chegaram a ser confundidos com dragões pelo protagonista de Miguel de Cervantes, Dom Quixote, nos dias atuais é utilizado pelo deputado federal Professor Israel (PV-DF) para enfatizar a loucura brasileira que insiste nos erros do passado.

Ao Correio, o parlamentar lamentou a insistência de parte do Congresso em manter uma polarização que impede a real discussão de assuntos importantes relacionados à educação. O desejo dele é esclarecer à sociedade que o Brasil precisa avançar nas pautas do século 21. Temas como robótica, biotecnologia e inteligência artificial estão sendo substituídos, segundo o deputado, por debates que se tornaram “moinhos de vento”, como a Escola sem Partido e ideologia de gênero. Confira:


Como deputado federal eleito com o discurso de mudar a educação, o senhor pretende defender os investimentos na escola pública ou a liberação de instituições privadas?

A educação privada é complementar à educação pública. Hoje, se a gente não tivesse escolas privadas, seria muito caro para o Estado manter ensino para todo mundo, então a educação privada também é importante, embora o foco seja criar uma política para a educação pública. Resumindo, eu acredito que a educação pública seja a principal, e a privada, complementar e que tem de ser respeitada, porque senão, o Estado sofreria um grave impacto. A escola pública merece uma defesa total nossa e precisa ser bem gerenciada. Precisa ser o foco de um país que se pretende moderno.


Se houvesse uma proposta de privatização do ensino superior, seria a favor?

Não. Eu sou contra, porque é necessário um conjunto de universidades públicas de ponta, cuja principal missão não seja o lucro, para que a gente tenha pesquisa. Mais de 80% da pesquisa científica brasileira é feita nas universidades públicas, por isso, elas custam mais caro. Uma coisa é a universidade privada preparando para o mercado de trabalho, outra coisa são os centros de excelências que são, em sua maioria, as universidades federais, preparando para a vida acadêmica. A universidade pública é essencial, porque nem sempre a pesquisa dá lucro, mas é necessária para um país que queira ter alguma seriedade na produção científica.


O senhor já tem alguma proposta a apresentar?

Tenho feito alguns encaminhamentos. O primeiro é a lei de proteção ao professor. Brasília já tem essa lei, mas agora nós vamos cobrar em âmbito nacional. Segundo a OCDE, que é a mesma instituição internacional que faz a pesquisa Pisa — cujos dados são importantes para a avaliação de qualquer cenário educacional no mundo —, o Brasil ocupa posições vergonhosas. É primeiro no ranking mundial de violência escolar; de agressão ao professor; de indisciplina escolar; e de tempo gasto para a obtenção do silêncio da turma em sala de aula. Em média, 25% do tempo de uma aula é gasto para que o professor consiga a atenção dos alunos. Isso é a demonstração cabal do pior dos rankings: o Brasil é o primeiro no mundo em desprestígio social do professor, ele não merece nem o silêncio da turma nem ser ouvido. Outro projeto que nós estamos lançando é o plano nacional de educação para inteligência artificial. Países considerados civilizados já estão revendo seus currículos para que o aluno saiba fazer uma programação, para que o estudante entenda o mundo onde está vivendo, da evolução biotecnológica e da inteligência artificial. Infelizmente, o Brasil ainda está discutindo a ideologia de gênero, um assunto absurdamente moralista que, para mim, é uma cortina de fumaça. Eu quero saber se o meu estudante será capaz de enfrentar o desafio do mundo do trabalho em 20 anos. Se eles vão compreender como se vive no mundo do Big Data. Nós precisamos reformar o currículo e gastar energia com assuntos que realmente importam, como o fato de que 41% dos nossos estudantes não concluem o ensino médio na idade correta. Ou o entendimento de que 24% das crianças não concluem o fundamental. E o que também tinha de ser discutido é que 92,7% dos estudantes não conseguem fazer um cálculo de percentagem ao terminar o terceiro ano do ensino médio.


Como defender essas medidas com a bancada da educação cada vez menor no Congresso?

Nesta legislatura, a bancada da educação caiu de mais de 90 para apenas 47 deputados. No entanto, são 47 muito bem organizados. Estão lançando a bancada da educação, que nunca houve, uma bancada que será respeitada, coesa e que tem prioridades para evitar que a nossa energia seja consumida com assuntos de segunda ordem. Também estarão focados em melhorar a qualidade do gasto público na educação. Outra questão que deve se debruçar é a ideia de tentar igualar os gastos do ensino superior com o do fundamental.


Quando o senhor estava na Câmara Legislativa, ficou isolado. Como sair do isolamento em uma Casa muito maior, com 513 parlamentares?

Fazendo bons aliados. Se observarmos, aqui na Casa já tem um grupo de deputados que estão buscando montar uma frente forte. São parlamentares de partidos diferentes, mas que têm como pensamento comum, central, a necessidade da gente fazer uma discussão séria sobre educação que não descambe para um debate moral, porque as pessoas têm percepções diferentes do que é certo ou errado. Mas todo mundo entende que, no mundo em que os robôs estão chegando e que a tecnologia está cada vez mais avançada, a gente tem de melhorar a qualidade da informação passada para as nossas crianças.


Recentemente, o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, afirmou que a universidade não é para todos.Como o senhor entende essa frase?

A universidade brasileira realmente não é para todos. Ela não é para todos porque o nosso ensino médio público não prepara para enfrentar um vestibular. Ela não é para todos porque ela não é para o pobre. O pobre não entra na universidade. Para termos uma ideia, hoje, a quantidade de pessoas humildes que têm renda média, per capita (familiar), de R$ 250, apenas 7% deles entram na universidade. Então, o ministro falou que a universidade não é para todos, e eu concordo, não é para todos. Porém, deveria ser, pelo menos, para quem quer.

“No mundo em que os robôs estão chegando e que a tecnologia está cada vez mais avançada, a gente tem de melhorar a qualidade da informação passada para as nossas crianças”

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