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Correio Braziliense

Protestos políticos ganham as ruas do país durante o carnaval

Com a festa celebrada em março, houve mais tempo para os foliões aumentarem o cardápio de caricaturas políticas nas ruas


postado em 05/03/2019 06:00

A cor laranja predominou em vários blocos, numa alusão ao desvio de recursos pelo 'laranjal do PSL'(foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo)
A cor laranja predominou em vários blocos, numa alusão ao desvio de recursos pelo 'laranjal do PSL' (foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

Explosão de emoções e manifestações populares, o carnaval é a expressão do universo simbólico e cultural, portanto, é comum ser palco de protestos políticos e tela para a crítica social. Este ano, a maior festa brasileira caiu em março, tempo suficiente para engordar o arsenal de escárnio dos foliões, considerando a coleção de situações polêmicas protagonizadas pelo novo governo em menos de dois meses.

De laranjal a meninas de rosa e meninos de azul, a crítica tomou conta das ruas nos blocos e nas passarelas dos sambódromos do Rio e de São Paulo, e assumiu versões mais ácidas na forma de marchinhas . Em Belo Horizonte, a polícia chegou a ameaçar abandonar o policiamento de um bloco de rua, caso os foliões não parassem com a cantoria que insultava o presidente Jair Bolsonaro e pedia a liberdade do ex-presidente Lula.  

“Liberdade de expressão tem que ser plena. As pessoas devem poder criticar, observando as questões relativas à calúnia e à difamação previstas em Lei, pondera Sérgio Guerra, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Mas críticas e insultos das massas no carnaval  são normais e saudáveis, e não acho que a polícia militar deve intervir, mesmo sob o argumento de evitar a violência.”

Para a Guerra, não foi apenas o fato de o governo ter começado depois de uma eleição muito polarizada que acirrou as críticas neste carnaval, mas, principalmente, a atitude de vários de seus ministros e do próprio presidente, que fermentou o clima. “Sugerir que a educação forma comunistas é algo fora do razoável, mas parece que o governo se comporta de forma polêmica justamente para mobilizar sua base continuamente”, avalia.

De fato, desde que Bolsonaro assumiu o governo, não faltaram situações caricatas para ilustrar o carnaval. O suposto esquema de laranjas para desviar recursos do fundo eleitoral, protagonizado pelo PSL, partido do presidente, foi um dos temas preferidos. Outra fantasia campeão faz alusão à ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, para quem “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Em outra ocasião, a ministra aconselhou pais de meninas a deixarem o Brasil ao comentar a violência contra mulheres.

Antes de assumir o ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo classificou as mudanças climáticas como “conspiração marxista”. Recentemente, o ministro da Educação, Vélez Rodrigues, enviou carta às escolas em que orientava os diretores a lerem para seus alunos um documento que incluía o slogan de campanha de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”. E ainda pedia que as crianças fossem filmadas cantando o hino nacional. O próprio presidente comandou de chinelos e com uma camisa falsa do Palmeiras a reunião que definiu o texto da reforma da Previdência. Tudo virou piada de carnaval.

Para Thiago de Aragão, sociólogo e pesquisador do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas, com a polarização e um ambiente político bastante tumultuado desde 2013, é normal que haja expressões mais vigorosas, o que faz parte da democracia. “A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia , mas é importante que não seja feita com o objetivo de confrontação entre prós e contras. Críticas ao governo, à política ou a ideias  são democráticas”.

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