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Correio Braziliense

Artigo: A hora e a vez do DEM?

Duas necessidades se fazem presentes, uma de natureza política e outra de natureza ideológica. Em ambas, o Partido Democratas (DEM) emerge como peça-chave indispensável à agenda governamental


postado em 07/03/2019 12:20

O presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro Onyx Lorenzoni (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ministro Onyx Lorenzoni (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O governo de Jair Bolsonaro representa uma troca de guarda na história política brasileira. Como em qualquer outro momento de transição da República, duas necessidades se fazem presentes, uma de natureza política e outra de natureza ideológica. Em ambas, o Partido Democratas (DEM) emerge como peça-chave indispensável à agenda governamental.

A primeira necessidade tem cunho essencialmente pragmático e envolve a relação do governo com outras forças que possam representar barreiras ou incentivos à implementação de suas políticas públicas. Trata-se da política das articulações diárias. A segunda, por sua vez, envolve a construção de pilares de sustentabilidade moral e interpretativa que operem como guia para a atuação do governo. Essa dimensão diz respeito, sobretudo, a aspectos ideológicos.

Bolsonaro viabilizou-se como alternativa e conseguiu triunfar em uma corrida eleitoral permeada por alto grau de dramaticidade. O ápice dessa trajetória foi o atentado sofrido em Juiz de Fora, quando o então candidato se encontrava literalmente nos braços do povo, em uma sequência carregada de simbolismo. A peculiar habilidade de se comunicar diretamente com seu eleitorado pelas redes sociais somada à derrocada de atores tradicionais do sistema eleitoral brasileiro condicionaram a vitória nas urnas. A tarefa de constituir um governo, entretanto, mostra-se um tanto quanto mais complexa. A dificuldade é ainda maior porque a sustentabilidade congressual apresenta-se como um dilema: sua busca se opõe à narrativa de refundação da República e das regras do jogo político defendida pelo presidente e por seu núcleo familiar durante a campanha. 

As dificuldades se tornam mais evidentes quando se coloca uma lupa sobre o núcleo de tomada de decisão do governo. Esse olhar mais acurado resulta na visualização de quatro grupos de poder: família, representada pelos filhos, sobretudo Eduardo Bolsonaro; ex-militares, liderados pelo General Heleno; técnicos, com Paulo Guedes à frente; e políticos, conduzidos por Onyx Lorenzoni. Essa heterogênea coalizão age organicamente de forma a ocupar mais espaços comparativamente a outros grupos, a partir de uma maior capacidade de entrega de resultados ao presidente Bolsonaro.  A este caberia, em última instância, o papel de árbitro das querelas que eventualmente possam representar algum grau de desestabilização interna.

Episódios recentes, no entanto, demonstram razoável fragilidade desse modelo decisório, ao qual se alia outro componente peculiarmente interessante. O Presidente carece de um grupamento político e partidário capaz de lhe conferir robustez narrativa e força pragmática necessárias à implementação de sua agenda política.  Seu partido, o PSL, alçado pelo fenômeno eleitoral que catapultou Bolsonaro a vitória, não possui até o presente momento consistência ideológica nem coesão comportamental para defender os projetos de Bolsonaro. Esse vácuo em termos de discurso e ação política do novo governo representa uma enorme janela de oportunidade para o Democratas. Potencialmente, o partido seria capaz de suprir o vazio argumentativo que fragiliza o partido do presidente tanto em âmbito congressual quanto institucional.

As circunstâncias e seu próprio histórico fizeram do DEM um importante elemento da estratégia de sustentação política de Bolsonaro. Ressalvadas questões que envolvam interesses de outros núcleos, é possível afirmar que a sinergia entre o presidente e Onyx Lorenzoni cria um processo de ganha-ganha para ambos. O governo ganha capacidade de diálogo com outros entes institucionais e o partido retoma uma posição de protagonismo não vista desde meados dos anos 1990. Ressalte-se, ainda, o fato do Democratas ocupar a presidência da Câmara, com Rodrigo Maia, e do Senado, com Davi Alcolumbre.

O governo Bolsonaro marca o retorno do DEM à arena política, por meio de uma espécie de protagonismo endógeno, tanto em termos de construção programática, como também da articulação política. Essa situação favorável é vista com ressalvas por outros partidos da base de apoio. Afinal, se um ganha, alguém perde, o que pode complicar o cálculo político do governo com o avanço das reformas no Congresso. De qualquer forma, independentemente das próximas rodadas, o Democratas está em vantagem até aqui.
 
*Creomar de Souza é analista de risco político e Professor da Universidade Católica de Brasília
*Juliano Domingues é consultor político e Professor da Universidade Católica de Pernambuco

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