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Correio Braziliense

Governo prepara arsenal de comunicação para 'lutar a guerra' da Previdência

O primeiro e mais agressivo passo para a aprovação da PEC da Previdência está na construção de uma narrativa eficaz para todas as classes sociais. Enquanto isso, os ministros Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni farão o trabalho junto aos parlamentares


postado em 09/03/2019 07:00

Bolsonaro, ao lado do chanceler, Ernesto Araújo ontem: a ideia é mostrar que as mudanças previdenciárias serão amargas, mas urgentes e necessárias(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Bolsonaro, ao lado do chanceler, Ernesto Araújo ontem: a ideia é mostrar que as mudanças previdenciárias serão amargas, mas urgentes e necessárias (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O governo está preparando o arsenal para lutar a guerra da Previdência. Com a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara prestes a ser instalada, na próxima terça-feira, a Presidência da República trabalha uma comunicação integrada capaz de construir uma narrativa eficaz para convencer a população da necessidade da atualização das regras de aposentadoria. A ideia é manter as redes sociais em foco, mas também intensificar a disponibilidade de informações por meio da televisão, rádio e dos jornais. O slogan já pode ser visto: “Nova Previdência. É para todos. É melhor para o Brasil”.

A estratégia de comunicação será capitaneada pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele será o “garoto-propaganda” da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) encaminhada ao Congresso. A avaliação de estrategistas, ministros e assessores do Palácio do Planalto é de que será preciso construir uma boa narrativa para evitar a fúria da população. Afinal, as armas da oposição são voltadas para desconstruir a imagem de que a reforma seja boa para o cidadão mais pobre. O governo atuará justamente no ponto nevrálgico da boa informação, em como construir uma retórica que penetre até nos municípios mais pobres.

O governo não se ilude com a ideia de conseguir um amplo apoio da população. Pessoas próximas ao presidente explicam que a meta é fazer com que a sociedade, no mínimo, entenda a urgência. O próprio Bolsonaro usa, metaforicamente, o contexto de que o ajuste nas regras de aposentadoria é um remédio amargo, mas necessário. Algo nos moldes do que o ex-presidente Michel Temer dizia. “É uma medida amarga, mas é uma resposta que temos que dar, de uma política sem muita responsabilidade que foi feita ao longo dos últimos anos. E tem que dar um freio de arrumação agora. Até os militares vão entrar com sua cota de sacrifício nessa reforma”, declarou, ontem, o pesselista.

A equipe de comunicação do Planalto estuda ainda a calibragem certa sobre a melhor forma de trabalhar a imagem da reforma para todas as camadas. Os meios para transmitir a mensagem, entretanto, já estão definidos. As camadas mais humildes serão informadas pela televisão e, sobretudo, pelo rádio, por entender que é o meio mais eficaz de comunicação com esse público, explicou o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros.


Redes integradas


As redes sociais continuarão sendo o carro-chefe na divulgação, mas em um contexto mais amplo e integrado. “Vamos usar as mídias sociais integradas do Planalto com disponibilidade dos nossos stakeholders a fim de aclarar a sociedade”, destacou Barros. “A partir de agora, por decisão do nosso presidente, precisará ser acelerado, a fim de que a sociedade em todos os níveis possa compreendê-la na plenitude e enxergar que, apenas havendo a confirmação dessa Previdência, teremos futuro para nosso país”, declarou. O próprio Bolsonaro afirmou que tem pressa na aprovação. “Não pode levar um ano para aprovar uma reforma”, disse.

O presidente será o “garoto-propaganda” da reforma no que lhe “couber assumir a liderança”, explicou Barros. Entretanto, não está descartada a possibilidade de que outros atores do governo trabalhem na comunicação. Como o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes. Ontem mesmo, no Twitter de Bolsonaro, o presidente publicou um vídeo em que o chefe da equipe econômica declara que o governo vai garantir as aposentadorias, reduzir as desigualdades e remover os privilégios.

Junto ao vídeo, Bolsonaro declarou que, com a reforma, o governo terá condições de estabilizar as contas públicas, potencializar investimentos e enxugar ainda mais a máquina pública. “Reduzindo nossas estatais e possibilitando muitos outros projetos. Os estudos estão sempre avançando!”, comentou. Em outro tuíte, Bolsonaro postou um vídeo feito pelo deputado Vinicius Poit (Novo-SP), que classifica como fake news informações ditas sobre a Previdência.


Tutela


Na nova etapa de comunicação do governo também está prevista a tutela das redes sociais do próprio Bolsonaro. Foram feitas, inclusive, adaptações em um decreto que autoriza assessores da Presidência a cuidar das mídias sociais institucionais e pessoais do presidente. A definição de quem será o líder do processo, no entanto, ainda está sendo amadurecida. O objetivo é dar unidade e foco à comunicação, evitando novas polêmicas, como a de terça-feira, quando Bolsonaro postou um vídeo controverso no Twitter.

As munições para vencer a guerra da Previdência não contemplam apenas a comunicação. Estão divididas em outros dois segmentos: a batalha da articulação política e do convencimento econômico. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, atua na primeira frente, enquanto o ministro da Economia, Paulo Guedes, cuida do segundo pelotão. Líderes partidários, entretanto, criticam o trabalho feito pelo interlocutor político, a ponto de o chefe da equipe econômica estar dando as cartas (leia mais na página 3) na Esplanada dos Ministérios.

A comunicação com a sociedade deve ser um dos caminhos para aprovar a reforma, alerta o deputado José Nelto (Podemos-GO), líder da legenda na Câmara. É preciso, também, que a articulação política se certifique de garantir que os ministros de Estado atendam os parlamentares. “O governo não tem interlocutores ainda. Tem que saber quem é. A batalha da articulação política e dos votos deve ser feita naturalmente, como no dia a dia do cidadão, e não deixar nas costas do Guedes. A missão dele é explicar bem a Previdência, mostrar o tamanho do rombo e fechar os dutos da roubalheira no INSS”, ponderou.

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