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Correio Braziliense

Fogo amigo entre os Poderes atinge Previdência e dificulta avanço da PEC

Falta de engajamento do governo na articulação política e interferência dos filhos de Jair Bolsonaro nas pautas do Executivo têm resultado em brigas entre os Poderes e dificultado ainda mais o avanço da agenda econômica


postado em 23/03/2019 07:00 / atualizado em 23/03/2019 14:49

(foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
(foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A falta de engajamento do Executivo na articulação política e a interferência dos filhos do presidente Jair Bolsonaro nas pautas do governo têm irritado aliados, resultado em brigas entre os Poderes e dificultado ainda mais o avanço da agenda econômica. Soma-se ao clima instável a prisão do ex-presidente Michel Temer, um dos maiores caciques do MDB, partido de grande influência no Congresso.

Para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Bolsonaro precisa ter “mais tempo para cuidar da Previdência” e menos para rede social. O ministro da Economia, Paulo Guedes, resumiu o momento político em poucas palavras: “Não posso falar agora, parece que o pau está comendo”, disse ontem, ao chegar à cerimônia de posse de Solange Paiva Vieira na Superintendência de Seguros Privados (Susep).

As brigas acontecem em todas as esferas, mas o que mais tem potencial de estrago, no momento, é a indisposição entre o Executivo e o Legislativo. Mais especificamente, entre Maia e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, que tem pressionado o presidente da Câmara a pautar o pacote anticrime num momento em que o foco é a reforma, exigência que desencadeou uma série de desentendimentos. A gota d’água foi o apoio do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, à crítica de Moro.
 
(foto: Reprodução/Twitter)
(foto: Reprodução/Twitter)
 
 
(foto: Reprodução/Twitter)
(foto: Reprodução/Twitter)
 

Ao lembrar que Moro é um “funcionário do presidente”, como disse Maia, na quinta-feira, o deputado direciona a Bolsonaro uma crítica de boa parte dos parlamentares. “Há uma certa chateação dos congressistas, focalizada por Maia, de que ele não assume a negociação da reforma com o Congresso”, avaliou o gerente de análise e política da consultoria Prospectiva, Thiago Vidal.

Depois de ter sido atacado, Maia anunciou que passará a ter uma atitude pragmática: não vai abrir mão da pauta, que defende desde muito antes de Bolsonaro entrar em cena, mas também não vai assumir mais um papel que não é dele. A articulação da base aliada para aprová-la passará a ser responsabilidade do governo. “A postura é de pressionar o Executivo e deixar claro que ele é uma peça importante no jogo. O governo tem de entender que é preciso dialogar com o Congresso”, pontuou o analista político Creomar de Souza.

Quem sai perdendo com a briga é Bolsonaro, na avaliação do especialista. Ao contrário do governo, Maia transita com facilidade tanto entre os partidos de centro quanto com as siglas de oposição. É uma figura imprescindível para avançar nos projetos de interesse do presidente, avaliou Souza. “Se ficar fora da base, o governo tem de achar um outro tipo de interlocutor. Mas será um desafio grande, pois o Congresso está renovado”, explicou.

O analista lembrou que o governo não tem investido em articuladores e mantém o discurso contra a “velha política”, duas atitudes que podem prejudicar a tramitação dos projetos.


Divórcio


A líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), fez questão de dizer que o governo “não está no ponto de divórcio”. O Planalto precisa “reatar” a relação com Maia e, para isso, é importante o governo “conversar” e “dialogar” para “eliminar os ruídos”, disse. Mais cedo, no Twitter, ela havia ressaltado que, “na prática, sem Maia, a coisa não vai, e o Brasil empaca. Simples assim”.

O deputado Domingos Neto (PSD-CE) se mostrou indignado com os ataques a Maia em um momento crucial para o avanço da pauta econômica. “Não é uma estratégia inteligente de parte da militância do presidente da República, Jair Bolsonaro, hostilizar o presidente Rodrigo Maia. Todos percebem que o Rodrigo é o maior articulador da reforma, e a turma do propositor dela ataca seu maior defensor... Inacreditável”, comentou, na rede social.

Quanto à articulação, Joice voltou a afirmar que vai ouvir todos os presidentes dos partidos e os líderes de bancada para alinhar o discurso e avançar nas negociações. Ela, inclusive, disse que o governo já levantou “bandeira branca” e não descarta manter o diálogo nem com o PT. “Não vamos dispensar votos, inclusive os da oposição. A nova Previdência é capaz, mesmo com brigas e posicionamentos ideológicos diferentes, de unir a oposição e os aliados”, defendeu.

Assim como ela, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (PSL-GO), acredita que Maia vai voltar a dialogar com o governo — sobretudo porque ele é um dos “entusiastas” da reforma da Previdência. Entretanto, o parlamentar não isenta a responsabilidade do Executivo de buscar a reconciliação por meio do diálogo. “Esse é um papel que tem de ser feito pelo presidente Bolsonaro”, disse.
 

Interesses próprios, não coletivos

 
O Congresso está completamente fragmentado, com aliados que se confundem com oposição e lideranças que oscilam entre disputar o título ou se esconder dos holofotes. No Executivo, ministros brigam por protagonismo, cada um com uma pauta, e tentam se sobrepor à agenda legislativa. Para especialistas, esses são alguns dos sinais, cada vez mais claros, de que o governo está dividido em grupos com interesses mais próprios do que coletivos.

Há dois que tentam aparentar uma boa relação, mas têm objetivos antagônicas: militares e equipe econômica. Um exemplo clássico do choque de interesses é a reforma da Previdência. O Ministério da Economia quer aprovar um projeto com o maior ganho possível, mirando R$ 1 trilhão em 10 anos, mas o da Defesa foi o primeiro a desidratar o texto, ao propor contrapartidas para as Forças Armadas.

“Tem outro grupo que não tem uma agenda prioritária, mas tem jogado casca de banana na agenda do Paulo Guedes”, comentou o gerente de análise e política da consultoria Prospectiva, Thiago Vidal. Ele acrescentou à lista os “barulhentos ideológicos” — do Itamaraty, por exemplo — e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. A diferença entre os dois, segundo ele, é que “os grupos ideológicos, em geral, jogam para si, enquanto Moro joga para a plateia”.

A postura do ministro da Justiça, na visão do especialista, é perigosa. “Para conseguir o que quer, ele assume que o governo está fraco e deslegitima outras pautas. Tenta ganhar no tapetão uma pauta que não tem prioridade agora”, afirmou. Prejudica ainda mais o cenário o fato de o presidente Jair Bolsonaro não tomar partido e não decidir qual é a prioridade do governo, já que não tem como agradar a todos os grupos de uma vez.

O chefe do Executivo precisa assumir responsabilidades, como a da articulação política da PEC da Previdência, uma das mais essenciais no momento. Para Vidal, se continuar como está, e ele não decidir o que, de fato,  importa, os ministros podem começar a abandonar o barco, e ele, ficar sem nenhuma das pautas.

Na opinião do cientista político César Alexandre Carvalho, da CAC Consultoria, a estratégia de “continuar batendo na velha política”, que ajudou a colocar Bolsonaro no Planalto, está começando a dar problemas. “Ele vai ter que fazer uma reforma ministerial, cedo ou tarde. E o caminho é mais ou menos adotado pelo governo do presidente Lula: um núcleo duro, com o pessoal de confiança, e os ministérios distribuídos entre os partidos”, acredita o especialista. Para Carvalho, está claro que as legendas demandam cargos e que, sem eles, as pautas não vão avançar.  (AA) 

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