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Correio Braziliense

'A nova Previdência é o portal da prosperidade', avalia Onyx Lorenzoni

Chefe da Casa Civil diz que é necessário manter a modéstia nas negociações, mostra-se otimista na aprovação da reforma da Previdência ainda no primeiro semestre e critica ação da OAB contra a recomendação de Bolsonaro de comemorar o dia 31 de março


postado em 31/03/2019 06:00 / atualizado em 31/03/2019 08:26

'Somos um governo novo, com uma herança maldita deixada pelo Partido dos Trabalhadores, sem falar na roubalheira. E por 30 anos o Brasil criou o presidencialismo de coalizão, em que o resultado, todos nós conhecemos'(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
'Somos um governo novo, com uma herança maldita deixada pelo Partido dos Trabalhadores, sem falar na roubalheira. E por 30 anos o Brasil criou o presidencialismo de coalizão, em que o resultado, todos nós conhecemos' (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Prestes a completar 100 dias, em 11 de abril, o governo Jair Bolsonaro conseguiu fechar a semana com um respiro em relação a controvérsias e troca de chumbo entre aliados e parlamentares. A dúvida é quanto tempo a trégua vai durar, até a próxima troca de tuíte ou declaração agressiva. Mas não para o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, 64 anos. Para ele, os atritos eram esperados, mas a tendência é que as polêmicas decantem e a reforma da Previdência — o principal projeto do Planalto — avance no Congresso e seja aprovada antes do recesso de julho.

“É preciso tempo, paciência, resiliência e humildade”, disse Onyx em entrevista ao Correio, ao final da tarde da última sexta-feira, em seu gabinete, no quarto andar do Palácio do Planalto. Pouco antes de receber a reportagem, o ministro trabalhava com a organização do anúncio dos 100 primeiros dias do governo Bolsonaro. “Vem aí o revogaço”, diz ele, referindo-se à revogação de mais de 200 decretos do Poder Executivo, de forma a simplificar a vida do cidadão.

Quanto aos sobressaltos que o governo passou em tão pouco tempo e às resistências a pontos da reforma, ele é direto: “Nenhum projeto de nenhum governo passa incólume pelo Parlamento. Vamos discutir na comissão de mérito”, diz ele, citando o texto do governo não como uma reforma, nos moldes das gestões passadas, mas uma mudança total no sistema previdenciário do país. E, num caso desses, os sobressaltos ocorreriam. “Isso era perfeitamente previsível. A gente sabia que ia ser complexo. A alta burocracia se defende, porque burocracia significa proteção e poder”, comenta, ao ressaltar que a “nova Previdência” exige um pacto pelo Brasil. “Ou vamos ser a Grécia e mergulhar no abismo ou vamos ser o Portugal, que em um belo dia cortou 30% de pensões de aposentadorias. Os portugueses gritaram, choraram, mas o que aconteceu? Tiveram que aguentar. Imagina cortar 30% de pensão hoje!”

Questionado se faria comemorações hoje, 31 de março, Onyx disse que a “sociedade brasileira, majoritariamente, escolheu o caminho da democracia e para evitar o processo que vinha da Guerra Fria”. Segundo ele, “todo mundo sabe da história”. “As pessoas sabem que nunca lutaram contra a democracia, lutaram contra a ditadura comunista. “A democracia não tava no horizonte. Foi necessário aquele movimento”, diz ele, que atacou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que na sexta-feira denunciou Bolsonaro por recomendar que se promova uma “comemoração adequada” do golpe. “Um absurdo, eu fico triste de ver que a entidade como a OAB se presta a isso. As pessoas do mundo todo vão rir do Brasil, não tem nenhum sentido. A OAB deveria cuidar das coisas do Brasil, deixa a ONU para lá.” 

A seguir, confira a entrevista: 

O que dá pra ressaltar nos primeiros 100 dias de governo?
Faremos o balanço no dia 11 de abril. Não vamos antecipar, já que é lá que vamos comemorar. Nós tínhamos 35 metas, e estamos aí com mais de 90% do cumprimento. A gente acha que vai chegar, mas, se não alcançar os 100%, deve ser 98% para cima. Estamos coletando outras ações que desenvolvemos e tem um balanço muito positivo para o governo. O que são os primeiros 100 dias? Isso é governança pública, padrão OCDE, que é o projeto criado pelo TCU, já aplicado na transição, quando lançamos aquela cartilha de governança pública. Todos os ministros e secretários executivos passaram por treinamento na Escola Nacional de Administração Pública. Estamos praticando o procedimento tanto com metas finalísticas, quanto metas transversais. Trabalhamos com a digitalização do governo até os primeiros quatro anos. Reduzimos ministérios e níveis hierárquicos. Cortamos as primeiras 21 mil funções de cargos e comissões. Vamos implantar, antes dos 100 dias, as primeiras unidades de integridade e combate à corrupção, uma no Ministério da Saúde e outra, no Ministério de Agricultura, justamente por terem grande capilaridade. No combate à corrupção, não adianta somente ter Polícia Federal forte, o Judiciário... A gente precisa mudar a cultura na área pública, trabalhando por dentro. Vamos fazer teste da forma de funcionamento em aproximadamente 90 dias e, provavelmente, em agosto, implantamos em toda a Esplanada. Cada pasta terá uma unidade integradora e controle.

É a volta do controle interno?
Não, é um modelo semelhantes às unidades de compliance aplicado às empresas privadas.

Mas o governo tem apresentado muitas dificuldades.
Vamos lá, primeiro deixa eu falar da reforma, que é um nome ruim para uma coisa boa e diferente. Quem fez reforma foi FHC. Lula, Dilma e Temer, uma maquiagem, um conserto pontual. Nós apresentamos um novo sistema previdenciário. Antes de mandar a reforma, mandamos a MP de fraudes do INSS e entregamos o projeto que melhora a cobrança a devedores. Depois, pela primeira vez na história republicana, desde o século XIX, separamos Previdência de assistência, para a sociedade ter clareza. Quando lembramos de João 8:32, é a verdade. A verdade é que Previdência é sistema de seguridade. O Brasil tem sistema de repartição, e a assistência social é de outra natureza, tem que ser coberta com taxas, imposto e contribuições. A sociedade tem que ter clareza do custo e de como se faz essa rede de solidariedade, que tem que existir. Outra coisa, estamos consertando o barco, que está furado, para permitir que ele continue flutuando, tenha capacidade de receber milhões de pessoas que vão se aposentar na próxima década, e ele possa pagar pensões e aposentadorias rigorosamente em dia. Eu considero o sistema de pensão uma falha geracional. Ele podia funcionar em um mundo do trabalho, que, a partir de meados dos anos 1980, começou a se transformar, a forma como o trabalho se organizou na época. Hoje é diferente. Outra coisa importante, graças a Deus, as pessoas vivem mais por causa dos avanços da medicina, melhoria do padrão de vida brasileiro, alimentação, saneamento. Outro problema é: meu avô vem de uma família de 11 filhos, não sendo o padrão atual. Então, a conjugação desses aspectos, a mistura de Previdência e assistência, e a irresponsabilidade da gestão fizeram um buraco no navio. E o que estamos fazendo? Estamos consertando com equidade. É para todos, para todo mundo, a partir da cota de sacrifício no aumento das alíquotas e na incidência de alíquotas para todos — mas, diferentemente das outras, não há retirada de direitos para ninguém, nem no regime próprio, nem na Previdência Geral.

Mas há uma dificuldade para que a sociedade apoie, principalmente em relação à capitalização.
Isso é importante, a gente corrige e dá condição de flutuação para o barco novinho para os nossos filhos e netos, que é o regime de capitalização. É diferente do chileno, que foi em fundo. O nosso será em poupança individual para aposentadoria. Escolhemos a poupança porque a poupança é conhecida dos extratos menos “aquinhoados” da população, e a população confia. Na medida em que seja assim, essa poupança individual vai ter característica importante: uma portabilidade de 3 a 4 anos. Então imagina a disputa dos bancos para receber poupança sobre remuneração. Usando mecanismo de mercado, o Brasil tem do PIB 15,5% de poupança interna, mas terá condições de bater 20%, com a capacidade de alcançar 3% do crescimento ao ano. Além de que vai melhorar câmbio, reduzir dependência do recurso externo, financiar o próprio crescimento e atualização tecnológica, na medida em que seja assim, uma transformação profunda.

Onyx mantém hábitos dos Pampas, como tomar chimarrão (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Onyx mantém hábitos dos Pampas, como tomar chimarrão (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Mas o presidente parece não ter convicção da reforma, e a troca de declarações com o Maia atrapalhou tudo. Como resolver?
Primeiro, com muita humildade. Somos um governo novo, que tem uma herança terrível deixada pelo PT, para não falar maldita. São 13 milhões de desempregados, R$ 139 bilhões de deficit primário, 9% de analfabetos, enquanto que os funcionais são 30%. Parte dos alunos que entra nas escolas públicas e privadas não faz interpretação de texto nem equação matemática. Isso é a herança petista, sem falar na roubalheira. Estamos falando daquilo que mexe com a vida da cidadania, 60 mil homicídios por ano. Evidente que, em um período curto, essa tragédia se abateu sobre o Brasil, misturando incompetência com projeto de poder continental, e é a dificuldade que nós temos. Por 30 anos o Brasil criou presidencialismo de coalizão, em que o resultado, todo nós conhecemos.

Essa dificuldade é a dificuldade com o Maia?
Não, isso é outra questão. Vou tentar equacionar para não cair no reducionismo de o problema ser o “Maia e o presidente”, que é ótimo para a manchete do jornal, mas é uma tragédia para o Brasil. Nós temos 30 anos de presidencialismo de coalizão que está sendo modificado. Como está sendo modificado? Montamos o primeiro escalão independente, enquanto que, no segundo escalão, o presidente da República nomeou uma pessoa, que é o secretário nacional da pesca. Mais ninguém. Vocês já viram isso? Ninguém nunca viu isso no Brasil.

E quem está nomeando?
Os ministros, com total independência. O que acontece: é claro que tem um processo de adaptação. O Congresso é o mesmo? Não. São 249 deputados novos e 46 senadores novos. Então, é evidente que tudo isso precisa de tempo, paciência, resiliência e humildade para poder persistir no diálogo. Então o que aconteceu: quando começamos a ajustar, houve uma situação de desentendimento de parte a parte, e a gente encontra razão de todos os lados.

Não importa quem errou?
Não, até pelo fato da humildade, como o presidente teve e o Rodrigo (Maia) também. A gente dizia: erramos? Erramos. Vamos arrumar? Vamos. Essa semana foi a semana do apaziguamento. Na terça-feira, passei duas horas e cinquenta minutos reunido com 14 líderes partidários dentro de uma sala, onde conversamos sobre tudo que tinha que ser conversado.

Qual foi a principal reclamação deles?
Dá pra escrever um livro. Na quarta-feira, fui ao Senado e passei mais de 3 horas lá. Falei com oito líderes de partidos. Nós conversamos aqui também na quinta, quando o cenário passou a mudar. Comecei com o Davi (Alcolumbre), (Rodrigo) Maia. Graças a Deus, passamos a desanuviar as tensões.

O que é velha política e  o que é nova política?
Isso foi uma disputa feita na eleição, e que permitiu que houvesse essa renovação e vitória dele (Bolsonaro). Depois de formatados a Câmara e o Senado e tendo um presidente, acabou. Daqui para frente é a política, numa nova forma de construção de relacionamento entre poderes Executivo e Legislativo, o qual ainda está em uma fase de aprendizagem. Vamos lá, nós temos um campeonato a ser jogado, que é o campeonato de desenvolvimento. Nós temos quatro anos para jogar esse campeonato. Vamos lá: qual era a previsão em junho do ano passado? “Quando começar a campanha do Bolsonaro, ele perde espaço.” Depois: “Mas quando entrar a televisão, acaba”. Aí, por pouquinho, não liquidamos no primeiro turno. “No segundo, ele perde”. Não perdeu. Quando teve a disputa lá no Senado... Só uma parcela apostava no Davi. E ele ganhou.

O Davi foi considerado uma boa articulação da sua parte. Como o senhor vai operacionalizar isso no Senado?
A nova política foi uma resposta da sociedade eleitoral que, na minha opinião, e eu tenho conversado internamente, acabou. Agora o estado é de fazer política. Para que foi inventado o Estado? Para garantir a nossa integridade física. Depois, melhorar a condição de vida da sociedade. Aí, quando a gente evoluiu para a democracia, se escolheu, desde o iluminismo francês, a tripartição dos poderes. E quando os americanos inventaram o presidencialismo republicano, então diminui o poder para o rei, afinal pode ser qualquer um de nós. E nós no Brasil precisamos reinventar a nossa forma de nos relacionar. De forma que tenha mais transparência, de forma que seja mais facilmente identificável pela sociedade. E eu não tenho nenhuma dúvida de que a Nova Previdência é o portal da prosperidade para o Brasil, devido aos seus reflexos econômicos importantes, que vão trazer para o nosso país, o volume de investimentos. E, por outro lado, a Nova Previdência é a chance de o Congresso se reencontrar com a sociedade, que, nos últimos anos, teve quase que um divórcio.

O senhor fala em  paciência, tempo e humildade  para que se entenda esses 100 dias. Mas são muitos sobressaltos...
Está dentro do normal. Até porque a gente tem uma circunstância em que todos estão se ajustando. Isso era perfeitamente previsível. A gente sabia que ia ser complexo. A gente sabia que ia ser difícil porque estamos mudando uma cultura. Por exemplo, quando a gente fala em avançar para a digitalização aqui, nós temos forças da alta burocracia que impedem. A gente começou a fazer os decretos de desburocratização para fazer o revogado. Nós já temos mais de 100 decretos para serem renovados. A alta burocracia se defende porque burocracia significa proteção e poder.

Essa lua de mel tem um prazo de validade devido à opinião pública. Vai ter uma hora em que as coisas começam a embaraçar. Isso afeta a reforma da Previdência?
A nova Previdência não é apenas um projeto do governo Bolsonaro. Ela exige um pacto pelo Brasil. Ou vamos ser a Grécia e mergulhar no abismo, ou vamos ser Portugal, que, em um belo dia, cortou 30% de pensões de aposentadorias. Os portugueses gritaram, choraram, mas o que aconteceu? Tiveram que aguentar. Imagina cortar 30% de pensões hoje? Mas, em compensação, Portugal, hoje, se equilibrou, é um dos países europeus que mais crescem, com qualidade de vida. Então, nós podemos fazer tudo isso sem passar por esse sofrimento.  Vocês publicaram aquelas fotos das pessoas em filas intermináveis em São Paulo, pessoas procurando trabalho. Aquilo é desumano. O país que tem as riquezas que o nosso país tem, a biodiversidade que tem, o capital humano que o nosso tem, um governo que é constitucional, que defende liberdade, respeita contratos, propriedade... Está tudo pronto. O que falta para o Brasil? Por que o Brasil não bomba? O grande lugar do planeta para fazer investimento que retorna em curto prazo não é o México, porque, com a guinada deles, eles saem do radar. Não é a Argentina, porque Macri não teve um norte como este governo tem. Aí tem o Chile, mas que tem o mercado que já está resolvido, pequeno, está com US$ 24 mil de renda per capita. Então, no momento em que reequilibrarmos fiscalmente o Brasil, cabe estudar a palavrinha mágica entre o investidor externo e o interno, que é previsibilidade. Ou seja, não há risco de quebrar o governo. Não vai ter corte de pensões e aposentadorias ou, o que é pior para o investidor, um tarifaço para recuperar equilíbrio fiscal, porque aí você vai cobrir o lucro do cara e não permite que ele retome o investimento. O Brasil tem um referencial de confiança que foi gerado pela eleição do presidente Bolsonaro. Fizemos uma concessão de aeroportos, arrecadamos R$ 2,37 bilhões. Então, o que é isso? Isso é confiança. Isso é esperança.

Orgulhoso ao exibir a camisa do Inter, o time do coroção (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Orgulhoso ao exibir a camisa do Inter, o time do coroção (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


O senhor disse que o governo não precisaria da Previdência. Ele vai sobreviver a esse mandato com ou sem a Previdência.
O Brasil tem US$ 380 bilhões de reserva externa, um deficit primário que conseguimos administrar. O nosso problema é que o buraco vai aumentar. O Brasil tem um cenário que nos permite, com muita dificuldade, conduzir o país nestes quatro anos se eventualmente a reforma não passar. Agora, é um cenário muito ruim para os brasileiros. A Nova Previdência é um portal das prosperidades. A potência fiscal preparada pelo ministro Paulo Guedes é de R$ 1,1 trilhão em 10 anos. Isso nos dá condição para mostrar ao mundo que o Brasil é solvente. Só tem notícia boa para governador, prefeito, para o cidadão, que é o mais importante. Estamos fazendo isso para as nossas famílias, para os nossos netos. Todo brasileiro tem chance de ir a países como Austrália, Nova Zelândia, e se questiona: “Por que nós não somos assim?”. Nós podemos ser melhores do que eles. Depende só da gente. Eu acredito muito que o Congresso brasileiro tenha a alma verde e amarela. Principalmente, esse Congresso que emergiu das urnas.

Mas 13 partidos fizeram manifesto pedindo mudanças no projeto da Previdência...
Nenhum projeto passa incólume pelo Parlamento, com raríssimas exceções. Isso vale para a Alemanha, Espanha, Brasil.

Mesmo que a economia seja menor?
Sabemos que ocorrerão modificações. Esse diálogo com os partidos é a favor do Brasil. É o trabalho que nós vamos ter no momento que, mais ou menos, no dia 17 de abril, vai sair da CCJ. Vamos para a comissão especial em pouco mais de 40 dias. Nós vamos fazer um debate profundo tecnicamente consistente, de parte a parte, e eu tenho certeza de que nós vamos encontrar o caminho.

O governo parece não precisar de oposição, por causa dos filhos do presidente ou dos olavistas...
O que significou a vitória do Bolsonaro é que ela foi construída nem só pelo Bolsonaro, nem só pelos filhos dele, nem só pelas ideias liberais do Olavo de Carvalho, nem só pelas ideias liberais do Paulo Guedes, nem só pelas ideias liberais que eu defendo. Eu fui um dos primeiros deputados a se eleger defendendo ideias liberais há vinte e tantos anos. Lá no Rio Grande do Sul, eu lembro que as pessoas diziam que, com aquelas ideias, eu teria apenas um mandato. Eu tô fechando o meu sétimo mandato. Fui o segundo mais votado no estado. Tinha sido o quinto. Agora, fiz 184 mil. Hoje, a mídia organizada brasileira fala para 7% da população. Nessa última eleição, se gerou uma bolha fora dessa bolha. A gente sabe que tem quase 60% da população brasileira que são os eleitores do Bolsonaro. Então, o Bolsonaro construiu um canal de comunicação aí. Eu voltei lá em 2013, quando surgiram as movimentações dos 10 centavos. Ninguém entendia direito o que estava rolando. O que foi aquilo? De onde saiu? De lá para cá, veio 2014, 2015, veio o impeachment da Dilma, que foi fundamentalmente nas redes sociais. Depois começa a se notar o fenômeno Bolsonaro em 2017/2018. Ele se consolida. Vira um candidato para valer. Pouquíssimas pessoas conseguiram fazer essa leitura em 2017. No mundo político, praticamente ninguém. Por eu ter tido a honra de ser líder dele no período pequeno (PFL/democrata), ele pegou bem o momento da transição, e depois a amizade se consolidou no referendo do Estatuto do Desarmamento. Hoje, eu ando nas ruas sozinho. Eu vou ao mercado na feira do Guará, eu falo com as pessoas e as pessoas falam comigo, as pessoas estão muito felizes com o governo.

Mas não é isso o que dizem as pesquisas...
O dia em que o Ibope acertar uma pesquisa no Brasil, eu te pago um jantar. Esse Ibope é um salafrário. Não deveria existir esse negócio, esse troço. É um absurdo. Se fosse um país sério, já estava na cadeia o dono do Ibope, e eu provo isso porque eles me roubaram uma eleição no Rio Grande do Sul, em 2004.

O senhor vai comemorar o 31 de março?
Olha aqui, isso é uma coisa histórica. Ali, em 1964, a sociedade brasileira, majoritariamente, escolheu o caminho da democracia para evitar o processo que vinha da Guerra Fria. Todo mundo sabe da história. As pessoas sabem que eles nunca lutaram pela democracia, lutaram pela ditadura comunista. A democracia não estava no horizonte. Foi necessário aquele movimento.

As torturas foram necessárias?
Não. É claro que não, mas vamos lá. Pega todas as ditaduras do mundo. Todas de direita, e as de esquerda ganham de mil por um. São cem milhões de mortos no mundo todo. Muitos, de fome. Ninguém quer ditadura. O Brasil amadureceu democraticamente. Nenhum partido de esquerda tem autoridade moral para falar contra o que aconteceu aqui, no Brasil, porque tem a Venezuela.

A Ordem dos Advogados do Brasil também recorreu hoje à Organização das Nações Unidas.
É uma tristeza ver a OAB recorrer à ONU. A OAB, que já prestou tantos serviços relevantes ao Brasil. Foi importante na reconquista democrática. Sou de uma família de advogados. Conheço inúmeros advogados. Tenho uma admiração. O meu filho do meio tem dois anos de formado, já tem mestrado, especialista em uma universidade fora do Brasil. Está fazendo doutorado em direito. Tenho um respeito imenso pela profissão. É um absurdo, e eu fico triste de ver ao que a OAB se presta. As pessoas do mundo todo vão rir do Brasil, não tem nenhum sentido. A OAB deve cuidar das coisas do Brasil, deixa a ONU para lá.

O senhor falou da burocracia que atrapalha o cidadão...
Estamos acabando com essa coisa de reconhecer firma e isso e aquilo e papel para isso e para aquilo, ou seja, estamos construindo uma relação completamente diferente do que foi historicamente. O cidadão votou na eleição, depois chegava a vez do governo, e o governo desrespeitava. O cidadão tem razão até que se prove o contrário. Nós vamos estruturar o arcabouço legal nessa linha. Agora, é difícil porque essa burocracia que se instalou no Brasil nos últimos anos é a alta burocracia mais resistente. Eu vou te dar um exemplo: a presidente da Embratur resolveu fazer um jantar de R$ 299 mil. O presidente descobriu e ela foi demitida na hora. A gente não brinca com essas coisas, estamos trabalhando. Eu sou ministro desde 3 de novembro do ano passado, fui um ministro de transição. Quantos aviões da Força Aérea Brasileira eu requisitei? Nenhum. Sabe quantos centavos eu gastei do cartão corporativo? Nenhum. Olha o que está acontecendo no MEC, talvez o órgão público mais aparelhado do Brasil. Sabíamos que seria um dos focos da resistência, até porque, do ponto de vista ideológico, é o lugar onde se expressam as influências desses quase 30 anos de esquerdismo que o Brasil empilhou e que deu no que deu. Nós temos problemas gravíssimos dentro das escolas brasileiras. Então, isso vai levar muito tempo para recuperar.

Mas a impressão é que o ministro Veléz está perdido, não sabe nem os nomes dos programas...
(Com ironia) 80 dias é um tempo longuíssimo para uma construção que levou três décadas. Eu tomei uma decisão que foi a da exoneração e da reconstrução. A maior parte dos ministros não topou a despetização, está fazendo lentamente. A gente tem profundo respeito pela ação de cada ministro, estamos em um time que está se afinando. A equipe tem alma verde e amarela, são reuniões espetaculares de serem assistidas. O presidente, reiteradamente, mobiliza a equipe no sentido pra servir o Brasil, ou seja, tem um tempo e tem que ter paciência.

Quando a Previdência será aprovada?
A nossa expectativa e a projeção são de que, até julho, a gente tenha a Nova Previdência votada na Câmara e no Senado. Até o recesso. A gente acha que pode ser antes. Mas, se a gente tiver ela aprovada até antes do recesso, está perfeito. Aí, no segundo semestre, entra a descentralização dos recursos. E o que ocorre: o projeto do Moro vai tramitando. Os projetos do pacote anticrime, na verdade, têm um rito todo próprio. Tem uma série de comissões para passar, e a gente sabe o trâmite médio de projeto de lei que não seja PEC. Mesmo com urgência constitucional, tem uma tramitação de mais ou menos um ano. Às vezes, até um pouquinho mais. É natural isso. O tempo do Parlamento não é o mesmo do Executivo. Algumas vezes, a gente consegue sincronizar, mas a maior parte do tempo é a dessincronia. Não estamos parados. Já desmontamos o comando da maior organização criminosa do Brasil. Eu acho que isso é um mérito. Falo das transferências que fizemos do líder do PCC.

Mas o DF está reclamando muito disso. A bancada do DF encontrou o ministro Moro para debater o assunto.
Esses presídios de alta segurança estão pelo Brasil todo. Qual é o registro de incidente em 10 anos? Sabe quantos? Se não foi nenhum, é um ou dois. Eu nunca vi. Nunca soube de uma notícia. Porque, nessas áreas de alta segurança ninguém vai bulir, não é? Nós não tivemos problema nenhum.

O governador do DF reclamou...
O problema é que, às vezes, existem incompreensões. Quando a gente vai tentar construir presídio, a maior parte das cidades não quer receber. E poucas sabem que as cidades que têm presídios têm os menores índices de criminalidade, justamente porque os cuidados de segurança são muito grandes, e essas incompreensões são naturais. Aqui também está começando o governo, tem que aprender um pouquinho, tem que ser humilde.

Quem tem que ser humilde?
Todo mundo. Eu desconheço alguém mais humilde que o presidente da República no universo político. Ele é humilde mesmo, ele não tem frescura, ele é um cara tranquilo, humano, direto. Às vezes, a gente tem conceitos de que a gente se apropriou, mas, se não contribuirmos uns com os outros, como a gente faz? E isso porque a gente tem uma das melhores polícias do Brasil, que são a Civil e a Militar. Eu acho que o grau de segurança que tem o DF, comparado com o Brasil, é exemplar. Tenho muito respeito pelo trabalho que a segurança pública vem fazendo no DF.

O que o servidor público pode esperar?
O que essa nova Previdência traz para os que estão atuando é apenas uma contribuição maior e tempo de serviço, claro. Não podemos mais ter aquela circunstância de pessoas se aposentarem aos 50 anos de idade.

Mas tem aqueles que dizem: “Ah, mas quando eu fiz meu concurso, não era assim?”
Ah, mas as regras de transição são muito tranquilas.

O senhor tem algum plano para se tornar governador do seu estado?
Sempre sonhei em governar o Rio Grande do Sul. Nessa última eleição, isso esteve muito próximo, com boas chances, mas aí teve o convite e compromisso com ele (Bolsonaro). Nós éramos poucos. Contando ele com os filhos, éramos 15. Mas tínhamos muita fé em Deus. Eu digo sempre que Ele é quem decide. Ele é que me tirou da eleição de Porto Alegre em 2016, onde eu era favorito. Um dia conto a história. Eu não estou de graça aqui, não. Ele me botou aqui. Fez muitas coisas na minha vida nos últimos 13 anos.

Brasiliense adotado

Com a mulher, Denise, que o faz se sentir como cidadão do DF(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Com a mulher, Denise, que o faz se sentir como cidadão do DF (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

“Eu estou há 17 anos em Brasília. Minha esposa (Denise) é brasiliense, nativa da Vila Planalto. Agora, hoje, eu estou quase brasiliense adotivo, mas, na verdade, mantenho todos os hábitos gaúchos. Ela me torna um brasiliense adotivo, e eu a torno uma gaúcha nativa. Ela toma mate, come churrasco. E ouve música gaúcha e dança. Eu gosto de dançar. Aqui, corro todos os dias na rua.

Eu sou luterano. Minha mulher é da Sara Nossa Terra há 18 anos. Sou muito amigo do pastor Rodovalho, nossos mandatos coincidiram. Desde lá, fizemos uma relação de amizade. E aí ele faz um trabalho muito bonito. Eu gosto muito. Me sinto feliz e vamos ver o que Ele (Deus) vai decidir sobre o futuro, mas agora é servir ao Brasil. Eu tive uma conversa com Ele quando fiz o caminho de Santiago de Compostela, em 2016. Foi espetacular. Você faz um mergulho. Eu fiz perguntas para ele que só tive respostas na revisão de vida que fiz há sete meses na Sara Nossa Terra. Muita coisa que perguntei para ele lá, as respostas vieram.”

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