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Correio Braziliense

Artigo: estratégia de mensagem para a reforma da Previdência


postado em 09/04/2019 13:25

(foto: Cícero/CB/D.A Press)
(foto: Cícero/CB/D.A Press)
Ninguém sai enfraquecido de um diálogo. Quem dialoga sai mais forte. A reforma da Previdência deve ter mensagens claramente desenhadas em algumas categorias: técnica, social, política e regional. Para cada uma dessas mensagens, o governo deve escalar alguém da base aliada para conversar com parlamentares específicos. A categorização de uma mensagem complexa facilita a compreensão entre indivíduos de formações, interesses, origens e comportamentos tão distintos quanto os que formam o Congresso brasileiro.

Os parlamentares não devem ser categorizados apenas em “a favor”, “indecisos” e “contra”. Identificar quais são os pontos particulares que motivam uns a serem a favor e outros a serem contra facilita bastante. Cada parlamentar possui um efeito multiplicador diferente. Uns não são capazes de influenciar colega algum. Outros conseguem arregimentar um grupo maior. Esses, de preferência, devem estar na linha de frente das prioridades.

Ademais, os estilos e comportamentos também devem ser identificados antes da personalização de mensagens. Existem parlamentares formadores de opinião. Outros são porta-vozes (falam com imprensa e sociedade). Há aqueles que transitam com mais facilidade entre partidos e os que são negociadores internos, dentro dos próprios partidos. Cada um, dentro da base aliada, deve ter uma função coordenada com a personalização e a disseminação das mensagens.

A mensagem técnica deve ser baseada nos elementos-chave identificados pela equipe de Guedes com a etiqueta de necessidade urgente. A curva de gastos e a de envelhecimento da sociedade brasileira não se encaixam com a velocidade do aumento de gastos. A Previdência é altamente deficitária e, além de paralisar qualquer possibilidade de ampliação de investimentos, não sustentará sua função em um futuro próximo. Essa é a mensagem que vem sendo veiculada há algum tempo, tendo começado no governo Temer. A regra de transição e a idade mínima são pontos considerados complicados até por aliados do governo. Os regimes especiais (professores, militares etc) também precisam ser tratados não só tecnicamente, mas politicamente, frente às principais lideranças aliadas que representam esses grupos. A mensagem social deve focar no impacto social que resultará se a aprovação fracassar ou for excessivamente diluída.

Essa mensagem, apesar de ser de âmbito social, não pode se basear apenas em alegorias e no uso exacerbado do adjetivismo. Nesse campo, a oposição bate na busca por confundir o cidadão. Entretanto, o uso da figura de linguagem ajuda a perceber o caos que a eventual ausência de caixa pode se tornar para pagar, investir e manter o Estado brasileiro. A compreensão automática de que, a partir da economia que a reforma trouxer para os cofres públicos, maior a possibilidade de investimentos em áreas de grande carência, deverá ser de ampla divulgação. A sustentabilidade da Previdência também representa uma revisão justa entre os disparates de benefícios que determinados setores têm frente a outros. Um argumento usado frequentemente de que os pobres sofrerão mais é veiculado por aqueles mais privilegiados no sistema previdenciário e que temem perder seus próprios privilégios.

A mensagem política é a utilizada, quase que exclusivamente, no processo de articulação. Existem parlamentares que concordam com 80% da reforma. Outros, com apenas 30%. Alguns não concordam com nada e outros não estão interessados nem em buscar entender seu conteúdo. Não se trata de um documento binário de sim ou não. Trata-se de uma coletânea de complexos “sins e nãos”. Dado que o parlamentar representa o seu eleitor, e não a sociedade como um todo, ele precisa de argumentação não propriamente para se convencer, mas para repassar à sua base eleitoral, confiando que essa não lhe abandone em três anos.

Esse não é um comportamento magnânimo? Não importa. Trata-se da realidade. O apoio à reforma oferecido por determinada liderança pode demandar um apoio do governo a um projeto anteriormente esquecido. Pode resultar no engavetamento de outro. Entram aí as prioridades e a capacidade de ganhar o jogo com as cartas que se tem na mão. Interesses multitemáticos e cruzados obrigam a negociação a ser multidimensional. Buscar votos para a aprovação da reforma implica, necessariamente, em entender quais são os projetos prioritários de potenciais aliados em posição de influenciar colegas.

A mensagem regional leva em consideração a nossa condição de república federativa. Alguns estados estão em péssima situação. Outros, mais ou menos, e poucos estão ok. As mensagens regionais devem levar em consideração a realidade local. Falar com um deputado de Rondônia (superavitário) da mesma forma com a qual se conversa com um do Rio Grande do Sul (deficitário) não flui e não traz o mesmo impacto.

Cada parlamentar tem temas de interesses e perfis de narrativas baseados na composição de seu eleitorado. Poucos são essencialmente técnicos e compreendem de forma absoluta as explicações do Ministério da Economia. Muitos precisam assimilar o impacto que a ausência da reforma trará perante o seu eleitorado. Geralmente, um parlamentar perde a referência e o senso de urgência, quando a generalização é ampla demais. Parte da articulação, das conversas diretas entre Executivo e Legislativo, deve focar no perfil de brasileiro que determinado parlamentar conhece e representa. Nesse caso, a amplitude tende a diluir o sentimento de responsabilidade de um parlamentar em relação ao tema. Quanto mais específicos forem os exemplos de impacto, mais fácil será a compreensão.

O processo de personalização da mensagem é trabalhoso, porém, recompensador. A estratégia inteligente leva o interessado a conhecer profundamente o processo “mental” de tomada de decisões do legislador. Analisar o histórico de discursos, perfil do eleitor e menções públicas de cada parlamentar é um importante caminho para compreender qual tipo de narrativa se aplica. Isso não deve ser feito apenas para a reforma da previdência, mas para todos os temas nos quais o governo entenda serem de importância. Generalizar que “deputado só quer dinheiro” é uma justificativa superficial para não tentar.

Na política (assim como em várias situações da vida), destruir algo é bem mais fácil do que construir. A tática utilizada pela oposição de “confundir para convencer” tende a ser eficaz, principalmente devido ao baixo nível educacional de nossa sociedade. A reforma não será aprovada apenas por meio da vontade. O estrategista do governo (se é que existe um) deve traçar um plano inteligente, de fácil compreensão e multifacetado. Política é um jogo aberto e uma estratégia bem articulada é um trunfo na mão do governo.

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