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Correio Braziliense

Bolsonaro defende manifestações marcadas pra domingo, mas pede bom senso

Em mais um café da manhã com jornalistas, o presidente da República afirma que protestos marcados para domingo (26/5) não devem ser contra o Congresso e o Judiciário. Também deixou claro que não tem planos de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa


postado em 24/05/2019 06:00

O presidente recebeu 17 jornalistas para o café da manhã de ontem: bom humor na entrada e tensão durante as perguntas(foto: Marcos Corrêa/PR)
O presidente recebeu 17 jornalistas para o café da manhã de ontem: bom humor na entrada e tensão durante as perguntas (foto: Marcos Corrêa/PR)


Um bem-humorado Jair Bolsonaro entra sorrindo, pontualmente às 9h, para o seu quinto café da manhã com jornalistas desde que assumiu o mandato, no terceiro andar do Planalto, na sala de reuniões do terceiro andar. São 17 profissionais, coincidentemente, o número de seu partido. Cumprimenta um a um de forma afetuosa. À mesa, quando vão começar as perguntas, com cada um chamado pelo porta-voz, Rêgo Barros, o semblante não esconde a tensão. O presidente esfrega as mãos, o rosto. Tem a exata noção dos problemas que enfrenta, seja na economia, seja na relação com o Congresso, fruto da "mudança de paradigma" que pretende implantar no país.

As soluções, porém, ainda estão em construção. Acha que vai aparecer "muita gente" na manifestação do próximo dia 26 em seu apoio. Àqueles que pretendem comparecer aos atos interessados em protestar contra o Supremo Tribunal Federal, o presidente adverte: "Quem estiver com essa pauta, estará na manifestação errada. Não fará bem ao Brasil", fazendo uma comparação com o regime de Nicolás Maduro na Venezuela: "(Um pedido desses) Está mais para Maduro do que para Jair Bolsonaro. Quem fala em fechar o STF não está alinhado com a minha política", ressaltou. "Espero não ter nenhum infiltrado de camisa verde e amarela, com faixa pedindo para fechar o Supremo".

Todos os ministros da "Casa" (Onyx Lorenzoni, da Casa Civil; general Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional; Santos Cruz, da Secretaria de Governo; e Floriano Peixoto, secretário Geral da Presidência) acompanham a conversa, que passou um pouco das 10h por causa da foto, e, na sequência, mais algumas perguntas, antes de o presidente se dirigir ao próximo compromisso — o ministro Paulo Guedes e a direção da Fiat, que chega com anúncio de novos investimentos no Brasil. Em meio a tantos problemas, uma boa notícia. A seguir, os principais temas tratados no café.

Privatizações


Vem aí um programa de privatizações forte e em várias etapas. Citou que, para os Correios, por exemplo, já há sinal verde. O secretário que comanda a área de privatizações no Ministério da Economia, Salim Mattar, está trabalhando ainda na área de refino da Petrobras, setor que o presidente espera que ajude a reduzir o preço do gás. Mas há duas instituições que ele, pessoalmente, não pretende incluir nessa programação: Caixa Econômica e Banco do Brasil. "Não pretendo mexer", disse. E previu: "Vai ter uma grita aí". Vale lembrar que, nos Estados Unidos, o ministro Paulo Guedes havia mencionado a perspectiva de privatização do Banco do Brasil.

Coaf e MP 870


Em termos de organização de governo, o presidente tem esperanças em ver a Medida Provisória 870, que organizou o governo, aprovada até a semana que vem nas duas Casas e minimizou o fato de a Câmara ter devolvido o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ao Ministério da Economia. "Foi 1 x 1 o jogo ontem, né? Faz parte. O Parlamento tem legitimidade para mudar", disse ele, ressaltando a independência do Congresso. "Não temos base fixa. De acordo com o entendimento, votam de uma forma ou de outra. O Parlamento é um poder independente, conforme está na Constituição", disse ele.

Relação com o Congresso


Perguntado sobre a frase de segunda-feira, em que disse que o problema do país é a classe política, o presidente se coloca "no bolo". "Estamos, nós, políticos, no poder desde que saiu o (presidente João Batista) Figueiredo. Um deputado não aguenta ouvir isso daí? Está chateado? Eu me incluo no bolo. Somos todos políticos, eu sou, o Onyx é, o general Heleno é", aponta. "Meus 28 anos de Parlamento deram uma ideia do que enfrentaria nessa relação. Estamos mudando um paradigma", disse, citando como exemplo o corte de um patrocínio de R$ 800 milhões da Petrobras a uma empresa de Fórmula 1. "Quando mexe, bota gente poderosa contra. Não sou o dono da verdade, mas procurarei mudar o Brasil. Então, o tiro vem. Poderia estar reeleito deputado federal, poderia estar no Senado ou aposentado. Mas estou feliz, tive a oportunidade de escolher os meus ministros. Agora, às vezes, é um parto sem respiração. Eu tenho engolido sapos até pela fosseta lacrimal".

Líderes do governo

“O Major Vitor Hugo (líder na Câmara, que brigou com Rodrigo Maia) continua. A charge que ele colocou (da presidente Dilma entrando no Congresso com um saco de dinheiro) foi no sentido de que devemos combater isso. Ele é deputado federal. Não seria maluco de falar isso (que no Congresso se negocia com saco de dinheiro). Falam mal da Joice também. Dizem que ela tratora. Não vou trocar nenhum líder”.

Bagagens

A Lei de Conversão à MP 863 aprovada pelo Congresso incluiu a gratuidade de uma bagagem de 23kg em voos domésticos. As empresas pressionam pelo veto desse dispositivo. “Meu coração manda não vetar. Se eu decidir de um lado ou de outro, eu levo paulada. Vou ver o custo/benefício. E vai ser aos 48 (minutos) do segundo tempo”, comparou Bolsonaro. Ele lembrou que a cobrança das bagagens veio para baixar o preço das passagens, mas não baixou.

Armas

O presidente disse que fez as modificações para evitar “perder” o texto. No entanto, deixou claro que não concorda com todas as modificações feitas. Citou especificamente a restrição de menores de 14 anos para a prática de tiro esportivo, medida adotada na nova versão. “Meus filhos atiraram desde muito cedo. Não vejo nada de mal em um garoto de 8, 9, 10 anos, obviamente com uma pessoa responsável do lado, atirar. É ensinar que arma é perigosa”, afirmou, acrescentado que “se vê criança com fuzil no Rio de Janeiro”, numa clara referência aos menores cooptados pelo crime organizado. O presidente mencionou ainda que é a favor da liberação (das armas) e que considera a arma de fogo uma forma de dissuadir, por exemplo, uma possível invasão a domicílio.

Universidades

A proposta do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de cobrar mensalidades de alunos de pós-graduação das universidades públicas, em princípio, não conta com o aval do presidente da República: “Particularmente, sou contra. Quem tem dinheiro vai estudar em outros países”, afirmou. Na graduação, diz Bolsonaro, se houver cobrança, haverá uma fuga. “Quem ganha R$ 2 mil, R$ 3 mil, não poderá pagar. Mesmo quem ganha R$ 20 mil, porque, geralmente, paga um condomínio caro, plano de saúde”.

Economia

O governo estuda um projeto que “arrecadará mais” e com o qual até a oposição concordaria. Perguntado sobre a proposta, ele deu apenas uma dica: usou a expressão “atualização patrimonial”.“Não posso entrar em detalhes. É um anteprojeto ligado à Previdência, de atualização patrimonial. Dará um aporte de caixa semelhante, mas não é substituto da Previdência”.

Reformas e empregos

Bolsonaro disse ainda acreditar que o mercado de trabalho será reaquecido com a reforma da Previdência, mas evitou citar números sobre quantos empregos pode criar. E lembrou da reforma trabalhista: “Se não tivéssemos feito, estaria pior”. “O salário é pouco para quem recebe e muito para quem paga”, afirmou o presidente. Ele disse ainda que o governo apostará na reforma tributária e prepara um projeto para ser apensado ao que tramita nesta sexta-feira (24/5) na Casa e foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça na Câmara nesta quinta-feira (23/5). “Sabemos que a reforma 100% legal (no sentido de ideal) não passa. Vamos fazer, então, uma boa reforma”, disse o presidente. “É preciso tirar o Estado de cima de quem produz”.

Carteira de motorista

“Vou conversar com o Rodrigo Maia sobre o Código Nacional de Trânsito”, diz o presidente, interessado em aumentar de 20 para 40 o número de pontos de multas que resulta em suspensão da carteira. “Para o motorista de caminhão, a carteira de motorista é quase como a sua carteira de trabalho”.

Protesto antes de visita ao Nordeste

Jair Bolsonaro embarca nesta sexta-feira (24/5) em sua primeira viagem oficial como presidente da República para o Nordeste. Na agenda, compromissos pela manhã e pela tarde divulgam boas notícias em Pernambuco, como o anúncio de verbas destinadas a obras de infraestrutura. No entanto, a visita do presidente ao Nordeste também deve ser marcada por tensões e manifestações contrárias. A primeira delas aconteceu nesta quinta-feira (23/5) mesmo, antes da visita de Bolsonaro. Um projeto de decreto legislativo que concederia o título de cidadão petrolinense a Bolsonaro foi retirado da pauta da Câmara de Vereadores de Petrolina, um dos destinos do presidente, após a repercussão negativa.

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