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Correio Braziliense

'O mecanismo' e 'Democracia em vertigem' são combustível para polarização

Série e documentário, disponíveis na Netflix, se tornaram o mais novo capítulo da disputa de narrativas que ocorre entre apoiadores e críticos ao PT


postado em 24/06/2019 23:19 / atualizado em 24/06/2019 23:35

Cenas do documentário Democracia em vertigem, de Petra Costa(foto: Divulgação/Netflix)
Cenas do documentário Democracia em vertigem, de Petra Costa (foto: Divulgação/Netflix)
Assim como nas disputas eleitorais, quando marqueteiros de campanha dividem o mundo e a política em termos absolutos como bem e mal, o documentário Democracia em vertigem e a série O mecanismo, ambos disponíveis na Netflix, se atrapalham ao explorar exaustivamente o uso dessa narrativa. Lançado na última semana, o documentário dominou as redes sociais como uma espécie de adversário de O mecanismo, disponível desde maio no Brasil.

Se, de um lado, há ataques à esquerda e ao PT; do outro, os enaltecimentos ao partido e pinceladas críticas ao governo de Jair Bolsonaro e aos militares que vieram antes da redemocratização se fazem presentes. Antiga artimanha política, a teoria maniqueísta fez com que os títulos figurassem entre os assuntos mais comentados do Twitter brasileiro e se tornassem uma opção simplificada dos livros de história.

Enquanto o documentário trata basicamente do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), mostrando em viés pouco delimitado imagens de bastidores sobre o processo na Câmara e no Senado e inéditos depoimentos de Dilma e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); a série se concentra em apresentar ao espectador a versão midiática da Operação Lava-Jato.

Na primeira temporada de O mecanismo, colocou-se tanto a Polícia Federal e o Ministério Público como os heróis da Lava-Jato no país. A segunda trouxe nova abordagem, não reconhecendo os “salvadores da nação”, mas apresentando as “maçãs podres” da política. Se, na primeira versão, o autor tentou enaltecer instituições, a segunda trata de atacar as diferentes faunas políticas do Congresso e do Planalto.

Embora os títulos sejam diferentes – um é feito na forma de documentário, atendo-se aos fatos históricos com uma narrativa desconcertantemente livre; outro, roteiriza os acontecimentos em uma história artificia – existe, ali, um paralelo entre eles.

O mecanismo tenta mostrar que o sistema político inteiro se atrapalha, mas fortalece as instituições. Ataca o PT e deixa ali para o bom entendedor sua motivação como série. Em Democracia em vertigem, a autora mostra claramente seu viés enquanto defende o partido e reforça a divisão entre o bem e o mal”, analisa o especialista em cinema Antônio das Graças.

Mocinhos e bandidos

Simplificar a história dividindo o mundo em mocinhos e bandidos é uma técnica usada, por exemplo, em eleições presidenciais desde a redemocratização, especialmente durante o segundo turno, quando há apenas dois nomes disputando a Presidência da República. “Isso é clássico, você mostra para o interlocutor do seu interesse que o candidato X é mais “bonzinho” que Y. Normalmente, isso ocorre ao se apresentar fatos que desabonem Y. É o que fazem os dois títulos”, complementa Graças.

Tratado nas redes sociais como antítese de O mecanismo, Democracia em vertigem apresenta uma solução caseira, fortalecendo argumentos a favor do ex-presidente Lula e apresentando um frágil e injustiçado político idoso às vésperas da prisão.

Propositalmente, levantamentos financeiros (alguns, fictícios) apresentados tanto na série quanto no documentário elevam a temperatura. “Falar que o país perdeu tantos bilhões por conta de corrupção ajuda a vender uma ideia de “mal necessário”, acrescenta o professor de cinema e roteirista Maiton Abranches.

Simplificar excessivamente o roteiro facilita os ataques às diferentes correntes políticas. No documentário, a posse de Lula em 2003 é tratada “com temor”, como se houvesse possibilidade real de Fernando Henrique Cardoso (ou dos militares, para alguns observadores) impedir o petista de subir na rampa no Planalto.

Na série O mecanismo, que trata a classe política como “farinha do mesmo saco”, como se todo o sistema brasileiro fosse extremamente corrupto, o exagero vem nos desmerecimentos às maracutaias petistas, como a nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil de Dilma – uma tentativa para conseguir foro privilegiado e fugir da cadeia.

As duas obras, no entanto, refletem a tumultuada versão da política nacional. Flertando com o estilo shakesperiano, o documentário de Petra Costa tem final infeliz. Como se não houvesse mais história a ser contada depois da saída de Dilma e da prisão de Lula. O mecanismo, dirigido por José Padilha, deixa no ar a desconfiança de que falta participação da sociedade, o que escancara a permanência de corruptos no poder.

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