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Correio Braziliense

Artigo: ''In vino, veritas'', o embate entre Moro e Lula

Talvez não exista outra expressão que defina, com tanta precisão, o embate de Lula com Moro. "No vinho, a verdade", seja ela qual for, doa a quem doer


postado em 08/07/2019 11:38

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press / Mauro Pimentel/AFP)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press / Mauro Pimentel/AFP)


*Delegado de Polícia
 
Lendo uma matéria publicada na revista de vinhos inglesa Decanter, sobre o furto de cerca de 150 garrafas de vinhos de safras históricas de Chateau Petrus, Romanné-Conti e outros ícones do mundo da enologia, na adega do renomado restaurante parisiense Maison Rostang, me dei conta de como essa história — sobre vinhos caros e ladrões — tem muita pertinência com o principal assunto da imprensa brasileira nesses dias.

In vino, veritas. Talvez não exista, seja em que língua for, um brocardo que, em apenas três palavras defina, com tanta precisão, o embate do hoje presidiário Luiz Inácio Lula da Silva com o ministro da Justiça, Sérgio Moro. “No vinho, a verdade”, seja ela qual for, doa a quem doer.

Foi Elio Gaspari quem revelou ao Brasil o gosto de Lula pelo vinho mais caro do mundo. Em sua coluna na Folha de São Paulo, em outubro de 2002, em tom crítico, o jornalista revelou ao país que o à época marqueteiro Duda Mendonça havia presenteado o então candidato com uma garrafa de Romanné-Conti safra 1997,  ao custo de R$ 6 mil a peça, em preço daqueles dias, durante um jantar em um conhecido restaurante da Zona Sul carioca.

Durante o exercício da Presidência da República e como ex-presidente, seja por relatos desatentos reproduzidos pela imprensa sobre os jantares e almoços de Lula, seja pela apreensão da adega existente em seu sítio em Atibaia,  o gosto pelo Romaneé-Conti, pelo Chateau Petrus — um dos mais caros bourdeaux grand crus — por Brunellos, Vegas Sicilia, Almavivas e outros vinhos renomados e inalcançáveis para o padrão aquisitivo do brasileiro médio, parece ter se mantido intacto.

Intacto, também, se manteve o silêncio de todo o país de que aquele padrão de consumo não era compatível com os rendimentos do então presidente, ex-sindicalista e ex-metalúrgico, enfim, do homem mais honesto do Brasil, em suas próprias palavras. A história revelou de onde vinha a possibilidade de acesso de Lula ao precioso líquido, cuja produção não ultrapassa 6.000 garrafas ao ano e o preço, dependendo da safra, chega a US$ 25 mil a unidade: da improbidade, que lhe permeia o caráter e que marcou sua gestão e de sua sucessora, ao ponto de não encontrarmos, na história de qualquer outra nação, atos de corrupção que sejam comparáveis aos revelados pela Operação Lava-Jato. E isso sem levar em consideração os fatos que estão por vir à tona com a delação de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda.

Condenado em primeira instância, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), e com recursos não providos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pelo Supremol Tribunal Federal (STF), Lula tenta, agora, sair do cárcere qualificando de parciais — para dizer o menos — os supostos diálogos entre Moro e Dallagnol, diálogos esses obtidos ilegalmente por meio da violação do sagrado direito à privacidade por um criminoso cibernético, um hacker, como o próprio difusor fez questão de ressaltar.

Mesmo que verdadeiros, os diálogos mostraram apenas a atuação de um juiz que, na busca pela verdade real, analisou com independência e imparcialidade a prova produzida pela força-tarefa da Lava-Jato, inclusive, absolvendo, em muitos casos, réus em processos penais vinculados à operação, mesmo quando a acusação se baseava em evidências obtidas mediante medidas cautelares por ele autorizadas, como quebras de sigilo e buscas e apreensões.

A mesma imparcialidade e bom senso Moro demonstrou tomando-se como verdadeiros os supostos diálogos quando apresentados fatos criminosos diretamente a ele, juiz da causa, ocasião em que, em obediência ao Código de Processo Penal, deixou de atuar motu proprio, e os encaminhou ao Ministério Público com a recomendação de que fossem formalizados, ou seja, trazidos ao processo para submissão ao contraditório, ao escrutínio da defesa.

Na verdade, depois de tudo que se viu, inclusive nas audiências públicas do ministro no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, o bom senso, a probidade e a simplicidade parecem orientar, de fato, todas as decisões de Sérgio Moro, seja na sua atuação profissional, seja em sua vida privada.

Em recente postagem no aplicativo Instagram, sua esposa fotografou o que seriam duas garrafas do vinho italiano Rosso Amaro di Rovescala Gaggiarone, da província de Pavia, degustado, ao que parece, em um evento entre amigos. Preço médio da iguaria: R$ 129 a garrafa, algo plenamente compatível com a renda do casal e, com certeza, um prazer compartilhado por tantos outros brasileiros, servidores públicos, profissionais liberais, pequenos empresários, que auferem seus rendimentos de forma lícita e proba e querem ver a corrupção extirpada de nosso país.

Já Lula, no gosto pelo Romaneé, está acompanhado, pelo menos, de outro ilustre personagem das páginas policiais que tratam da corrupção no Brasil: ninguém menos que Paulo Maluf. Seis anos antes do jantar de Lula e sua equipe na zona sul carioca, Maluf teria comemorado com uma garrafa de Romanée-Conti a vitória de Celso Pitta à prefeitura de São Paulo, figura cuja probidade dispensa comentários.

Enfim, “In vino, veritas”.

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