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Correio Braziliense

Após prisão, PF quer descobrir motivação de grupo que hackeou Moro

Corporação quer saber a razão pela qual os quatro presos em São Paulo hackearam telefones de autoridades. Um dos detidos confessou que invadiu celular de Moro. Acusados teriam feito ao menos mil vítimas e movimentaram mais de R$ 600 mil


postado em 25/07/2019 06:00

Dois dos detidos estão na Superintendência da Polícia Federal, e dois, na carceragem da corporação no Aeroporto Juscelino Kubitschek(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Dois dos detidos estão na Superintendência da Polícia Federal, e dois, na carceragem da corporação no Aeroporto Juscelino Kubitschek (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Com a prisão de quatro suspeitos de terem invadido o celular do ministro da Justiça, Sérgio Moro, a Polícia Federal agora se concentra na busca pelas motivações do crime. Os investigadores também querem saber se outras pessoas estão envolvidas no caso, o que deve gerar novas fases da Operação Spooling, que apura o acesso ilegal a celulares de diversas autoridades.

Em depoimento à PF, Walter Delgatti Neto, um dos detidos, confessou que atuou na invasão do celular de Moro; do coordenador da Lava-Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol; de delegados e juízes. Ao menos mil pessoas teriam sido vítimas de ataque, incluindo autoridades dos Três Poderes.

No apartamento de dois suspeitos, os agentes encontraram R$ 100 mil em espécie, numa mala. Além disso, movimentações financeiras no valor de R$ 627 mil entre março e julho deste ano na conta dos acusados chamaram a atenção.

Até o momento, as diligências apontam para um grupo especializado na invasão de aparelhos telefônicos com a finalidade de acessar contas de aplicativos de mensagens e extorquir dinheiro de parentes e amigos das vítimas.

Os suspeitos, Danilo Cristiano Marques, Walter Delgatti Neto, Gustavo Henrique Elias Santos e a mulher dele, Suelen Priscila de Oliveira, foram presos em Araraquara (SP), Ribeirão Preto (SP) e na capital paulista. Eles estão detidos em Brasília: dois na Superintendência da PF e dois na carceragem da corporação, no Aeroporto Juscelino Kubitschek.

O advogado Ariovaldo Moreira, que defende Gustavo, afirmou que o cliente chegou a receber, por computador, parte dos diálogos que estavam em poder de Walter Delgatti Neto. “Segundo relato do Gustavo, o Vermelho (apelido de Walter) mostrou pra ele algumas interceptações de uma autoridade (Sérgio Moro), tempos atrás”, disse.

Moreira contou que o cliente fez prints das mensagens recebidas. “O que ele me disse é que ele chegou a ver isso no computador dele. Inclusive, printou (captura da imagem da tela) isso no computador. E ele me disse que, no aplicativo dele, devolveu a mensagem para o Walter, dizendo que ele teria problemas”, completou o defensor. 

O dinheiro achado no apartamento, de acordo com o acusado, é fruto de compra e venda de uma moeda virtual. “O Gustavo é DJ e disse que estava operando a compra e venda de Bitcoins. Ele disse que tem como provar isso”, ressaltou o advogado.

Invasão generalizada

Uma das linhas de investigação é de que o mesmo grupo seja autor da investida cibernética contra procuradores que integram a Operação Lava-Jato no Paraná. “Há fortes indícios de que os investigados integram organização criminosa para a prática de crimes e se uniram para violar o sigilo telefônico de diversas autoridades públicas brasileiras, via invasão do aplicativo Telegram”, citou o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, na decisão em que autorizou as prisões.

Durante o cumprimento dos mandados de busca, na terça-feira, os policiais encontraram, no computador de um dos investigados, atalhos que davam acesso a diversas contas do Telegram, entre elas, a de Moro. Pelo menos mil contas diferentes estão registradas nos atalhos, o que indica o número de vítimas. No entanto, os investigadores aguardam o avanço das diligências para confirmar a amplitude do ataque.

O diretor do Instituto Nacional de Criminalística, Luiz Spricigo Júnior, afirmou que o foco agora será saber quem foram os alvos. “No celular do investigado havia uma conta ligada ao ministro Paulo Guedes (da Economia). Precisamos investigar, mas existem fortes indícios de que o ministro também foi vítima”, ressaltou Spricigo.

Modus operandi

Na decisão que autoriza as prisões e o cumprimento de mandados de busca e apreensão, o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, detalha como teria ocorrido a invasão ao celular de Moro e dos demais alvos. De acordo com o magistrado, as investigações da Polícia Federal apontam que os supostos hackers tiveram acesso a um código enviado pelo Telegram para que a conta de Moro fosse acessada por computador. O código é enviado por meio de uma ligação. “O invasor, então, realiza diversas ligações para o número alvo, a fim de que a linha fique ocupada e a ligação contendo o código de ativação do serviço Telegram Web seja direcionada para a caixa postal da vítima”, descreve o magistrado em sua decisão. A PF vai enviar à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informações sobre a dinâmica do ataque cibernético. A intenção é acabar com vulnerabilidades na rede das companhias telefônicas, que deixam os usuários expostos.

Os presos

Gustavo Henrique Elias Santos: tem 28 anos, é conhecido como DJ Guto Dubra de Araraquara (SP). Trabalha com organização de festas eletrônicas. Foi preso em 2013 por receptação de uma caminhonete. Julgado em 2015, foi condenado a seis meses em regime semiaberto. Movimentou R$ 424 mil entre 18 de abril e 29 de junho de 2018. Tem renda média de R$ 2.866.

Suelen Priscila de Oliveira: tem 25 anos, foi presa no mesmo endereço de Gustavo, em São Paulo, com quem já foi casada. Movimentou R$ 203 mil entre 7 de março e 29 de maio. Tem renda mensal registrada de R$ 2.191.

Walter Delgatti Neto: tem 30 anos, é conhecido como Vermelho e foi preso em Ribeirão Preto (SP). Costumava se apresentar como investidor e estudante de medicina da USP, onde não estudava. Foi alvo de mandado de busca e apreensão em 2015, quando a namorada do irmão dele, de 17 anos, o acusou de dopá-la e estuprá-la. Em sua página no Twitter, fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro e a Sérgio Moro. Chegou a responder ao coordenador da Lava-Jato em Curitiba, procurador Deltan Dallagnol, sobre como identificar se o conteúdo vazado do seu celular era verídico. Compartilhava páginas de sites ligados à esquerda, mas era filiado ao DEM desde 2007.

Danilo Cristiano Marques: tem 33 anos, também foi preso em Araraquara, enquanto fazia um curso de eletricista. É motorista de Uber. Teve uma microempresa de comércio de equipamentos de telefonia e comunicação com o nome  Pousada e Comércio Chatuba.

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