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Correio Braziliense

''Querem acabar com o jornalismo'', afirma David Miranda

Deputado do PSol, casado com o jornalista Glenn Greenwald, defende criação de CPI para investigar o comportamento do juiz Sérgio Moro e de procuradores da Operação Lava-Jato


postado em 15/08/2019 06:00

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
O deputado federal David Miranda (PSol/RJ) defende uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar integrantes da Operação Lava-Jato. “Uma CPI dos citados nas publicações que foram feitas, porque eles vão ser alvos de investigação, eles precisam responder pelos crimes, e tiveram vários (crimes), inclusive o de fraudar uma eleição (de 2018)”, disse ele, em entrevista ao CB.Poder, uma parceira entre o Correio e a TV Brasília. Segundo o deputado, casado há quase 15 anos com Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil, ele e o marido têm sido alvos de ameaças de morte e mudaram a rotina — incluindo escolta policial — para garantir a segurança. Miranda, entretanto, descarta deixar o país, como Jean Wyllys, ex-titular do mandato. Confira os principais trechos do programa:

Como tem sido a vida do senhor depois que as mensagens da força-tarefa vieram a público?

 

Temos recebido ameaças desde que Glenn (Greenwald) começou a expor ações que hoje podemos chamar de corruptas do ministro Sérgio Moro e de alguns procuradores da Lava-Jato. Hoje, ando com escolta armada, precisamos modificar todo o sistema de segurança de onde a gente vive, nossos dados pessoais. Eu já era atacado quando era vereador no Rio de Janeiro, mas também recebi várias ameaças desde que vim para Brasília, depois que o deputado Jean Wyllys teve que sair do país. O Jean sofria tortura psicológica, eles minaram a mente dele durante oito anos, enviando e-mails, cartas, ameaças a ele, à família. Ele não resistiu mais e teve que sair do país.

 

O senhor pensa em seguir esse caminho também? De sair do país?

 

Claro que não. Eu sou um rapaz que vem da favela do Jacarezinho, a violência está estampada na minha vida desde quando era pequeno. O primeiro corpo que vi estendido na rua foi aos oito anos. Tive que correr de bala de policial, já tomei tapa na cara de policiais voltando do trabalho às 23h. A violência do Estado contra mim já foi muito grande.

 

O senhor diz que está protegido em relação a essa tortura psicológica?

 

Tenho uma couraça muito forte, mas ninguém é uma pessoa de ferro. Nas redes sociais, há muitos ataques coordenados, mas, ao mesmo tempo, muitas pessoas que nos defendem, por estarmos fazendo, eu, o meu trabalho de parlamentar, e o Glenn, o trabalho jornalístico. Esse amor faz a gente ter mais resistência.

 

E no Congresso, como é a relação com os deputados do PSL, com Eduardo Bolsonaro?

 

Minha relação com Eduardo Bolsonaro é bem complicada. O ministro Moro fez algumas viagens para fora do país, principalmente, para a CIA. Eu e outros parlamentares protocolamos um pedido para chamá-lo a responder. O Eduardo simplesmente blindou todos os nossos requerimentos, nem colocou em pauta. Ele blindou também outros ministros que foram ali, e tive que recorrer à Mesa Diretora. A Mesa acatou o pedido, fez uma fala no plenário, e enviamos o documento com vários partidos assinando, e até agora não foi colocado em votação. Não recebi resposta do Rodrigo Maia ainda.

Como você vê a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada nos EUA?

Eu acho muito complicado. É uma posição em que você precisa ter um preparo muito grande. Os EUA são a maior potência econômica e militar do mundo, e, se você não tem uma pessoa que possa fazer essa relação, que seja capacitada realmente, diplomata de carreira… A fala do presidente, de dizer que se ele (Eduardo) não for aprovado, ele (Jair) tira o Ernesto Araújo e coloca (Eduardo) lá, mostra o autoritarismo do governo Bolsonaro. Ele é só um pequeno moleque no poder.

Sobre essa votação ser secreta no Senado, ajuda ou atrapalha?

Ajuda, porque já vimos muito bem como funciona o governo Bolsonaro, o “troca-troca”. Quantos milhões foram liberados para a reforma da Previdência? Tiraram R$ 1 bilhão da educação para poder colocar emendas para os deputados que votaram a favor ali.  O governo Bolsonaro não é nada mais do que a velha política corrupta que sempre existiu.

Bolsonaro está desgastando o ministro Moro?

A imagem do Moro vem desmoronando a cada vez que surgem novas revelações. Depois das primeiras revelações, o Moro não sai do lado do Bolsonaro. Antes, ele dava prestígio ao governo. Agora, ele é que está precisando do prestígio do Bolsonaro, o que é a coisa mais caricata possível.

O senhor participou diretamente do caso dos documentos de Snowden. Na “Vaza-Jato”, o senhor tem participado também da análise, da publicação?

Não. Eu e o Glenn somos casados há quase 15 anos, compartilhamos quase tudo da nossa vida. Mas na Vaza-Jato eu não me envolvo, por uma questão de ética, porque o jornalismo tem que ter seus princípios. Em 2013, trabalhei com o Glenn, em mais de 47 países, com vários jornalistas, e sofri com a tortura do governo britânico. Ganhei, em 2016, uma ação contra o governo da Inglaterra, e eles nunca mais vão poder parar nenhum jornalista com nenhum conteúdo jornalístico. Isso é uma grande vitória para a democracia. Aqui, o que o pessoal quer é acabar com o jornalismo. É um ataque grave à liberdade de imprensa.

Que pessoal é esse que está querendo ir contra a Vaza-Jato?

A ala bolsonarista e olavista, que está dando suporte ao Moro agora, é uma galera superfanática, que não acredita nas publicações, que fala que os hackers obtiveram isso de forma criminosa. Eles (PF) prenderam os hackers, que disseram que não foram pagos por nenhum tipo de material. O material jornalístico foi publicado da forma protegida pela Constituição. Agora, eles não negam mais o conteúdo. Mas uma coisa eu quero deixar bem clara: agora que já foi obtido, e indo para o STF, esse material é autenticado, porque está nas mãos da Polícia Federal.

O senhor acha que o governo e o próprio ministro da Justiça foram pegos de surpresa? Eles esperavam que viesse tanto material?

O Glenn diz que eles ainda não trabalharam nem na metade do material. Foi uma grande surpresa e uma paulada no governo Bolsonaro. O Moro, antes, fazia discursos em Harvard, agora ele vai para um programa de TV de quinta categoria para se defender. A Operação Lava-Jato fez um grande serviço para o país, prendeu vários políticos corruptos. O problema é que tivemos corpos corruptos dentro da operação, e isso precisa ser retirado para a Lava-Jato poder continuar a fazer seu trabalho.

Então o senhor concorda com a prorrogação determinada pela procuradora Raquel Dodge, por mais um ano da Lava-Jato?

Concordo em parte, porque a gente ainda não tem na PGR uma investigação sobre as publicações que foram feitas. Nós temos claramente a intervenção de um juiz em uma eleição, podendo retirar um candidato, fazendo toda uma manobra política com a Operação Lava-Jato. Não estou aqui para defender Lula e nenhum preso, mas vimos exatamente isso em todas as publicações. Se a gente não começar uma investigação agora, isso é um escândalo enorme.

Mas o Dallagnol está sendo investigado.

O Dallagnol está sendo investigado, mas, e o ministro, que tem todas as evidências em suas mãos e controla a PF? Nesse momento, ele pode estar acabando com todas as evidências. Eu não confio nele.

Quando o presidente, ainda candidato, recebeu a facada, houve a suspeita de que o PSol estaria por trás do atentado. Como o partido reage a essas suspeitas?

O presidente Bolsonaro foi do PP, um dos partidos mais corruptos de todos os tempos — a Lava-Jato pegou vários dali, inclusive. Então, se a gente for avaliar o fato de ele ter se filiado a um partido corrupto, podemos dizer que ele é corrupto também? Só porque o Adélio fez parte do partido e foi filiado há uns seis ou sete anos atrás, isso não tem nada a ver com o PSol.

Quem o senhor vislumbra como candidato do PSol à Presidência da República com chances para enfrentar Bolsonaro em 2022?

O candidato mais preparado, na minha opinião, seria o Marcelo Freixo. É um excelente parlamentar, combateu a milícia no Rio de Janeiro muito fortemente, tem experiência. Ele conseguiria unificar uma oposição muito forte, e conseguiria derrubar, em 2022, o Bolsonaro.

Quais os próximos passos do trabalho legislativo paralelo ao da Vaza-Jato? Como vocês vão atuar agora?

Vamos fazer a CPI, não a CPI da Lava-Jato — e gostaria de frisar, para não falarem que queremos acabar com a Lava-Jato. É uma CPI dos citados nas publicações, porque eles é que vão ser alvos da investigação, eles precisam responder pelos crimes que cometeram, inclusive o de fraudar uma eleição.

* Estagiária sob supervisão de Leonardo Cavalcanti

 

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