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Correio Braziliense

Bachelet alerta para redução da democracia no Brasil; Bolsonaro reage

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, disse que Brasil vive ataques contra defensores da natureza e dos direitos humanos


postado em 04/09/2019 09:53 / atualizado em 04/09/2019 15:55

(foto: Fabrice Coffrini e Evaristo Sá/AFP)
(foto: Fabrice Coffrini e Evaristo Sá/AFP)
Genebra, Suíça — A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, criticou o ímpeto nacionalista do presidente Jair Bolsonaro resultante da crise dos incêndios na Amazônia, alertando que há uma "redução no espaço democrático" no Brasil.

"Nos últimos meses, observamos (no Brasil) uma redução do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições impostas ao trabalho da sociedade civil", disse Bachelet em entrevista coletiva em Genebra.

A ex-presidente do Chile (2006-2010 e 2014-2018) também evocou um aumento do número de pessoas mortas pela polícia no país liderado pelo presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, ressaltando que esta violência afeta desproporcionalmente os negros e as pessoas que vivem em favelas.

Ela lamentou o "discurso público que legitima as execuções sumárias" e a persistência da impunidade em vigor desde a chegada de Bolsonaro ao poder.

Também se referiu ao desmatamento da Amazônia, causado, segundo especialistas, pelo avanço das atividades agrícolas e de mineração, em um processo que começa com queimadas.

Reação de Bolsonaro

Os comentários de Bachelet desencadearam a fúria de Bolsonaro, que, no Twitter, acusou a funcionária da ONU de "se intrometer nos assuntos internos e da soberania brasileira".

Segundo Bolsonaro, Bachelet está "seguindo a linha" do presidente francês, Emmanuel Macron, que recentemente evocou uma internacionalização da Amazônia, caso o Brasil não consiga controlar os incêndios que devastam a maior floresta tropical do planeta.

De janeiro a 3 de setembro, os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contabilizaram 93.947 focos incêndios no Brasil, 772 a mais do que na segunda-feira. Trata-se de um recorde para esse período, desde 2010, sendo que 51,9% do total foram registrados na região amazônica.

A controvérsia ocorre a menos de três semanas do início dos debates na Assembleia Geral da ONU em Nova York.

Bolsonaro, que passará por uma cirurgia no domingo, disse na segunda-feira que vai a Nova York "até de cadeira de rodas" para defender a posição do Brasil na questão da Amazônia.

Elogio a Pinochet

Falando na saída de sua residência oficial em Brasília, Bolsonaro, ex-oficial do Exército, voltou a elogiar a ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990), que derrubou o governo socialista de Salvador Allende.

Bachelet "diz que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época".

O pai da comissária da ONU, general de aviação Alberto Bachelet, foi preso e torturado após o golpe de Pinochet e morreu na prisão no ano seguinte.

"Quando tem gente que não tem o que fazer, vai lá para a cadeira de Direitos Humanos da ONU", acrescentou Bolsonaro.



A Amazônia é nossa

O presidente brasileiro está em disputa aberta com Macron há semanas devido ao aumento alarmante de incêndios na Amazônia, descrito como "crise internacional" pela França.

Em entrevista publicada na terça-feira pelo jornal Folha de S. Paulo, Bolsonaro reiterou que só aceitará a ajuda para combater os incêndios anunciada por Macron após a recente reunião do G7, se o presidente francês se retratar por ter sugerido a internacionalização da Amazônia.

E, ironicamente, ele agradeceu a Macron por permitir que empunhasse a bandeira do nacionalismo, em uma época em que o presidente brasileiro sofre uma erosão de sua popularidade.

"Não preciso de esmolas. Ele (Macron) me deu duas coisas de graça: o discurso da soberania e o do patriotismo".

Ontem, Bolsonaro pediu aos brasileiros que usem as cores verde e amarelo durante as comemorações de 7 de Setembro para reafirmar a soberania brasileira sobre sua região amazônica.

"Não é para me defender, ou ofender quem quer que seja. É para mostrar pro mundo que este é o Brasil, que a Amazônia é nossa", afirmou.

Para o analista Thomaz Favaro, da Control Risks, "a ideia de que a Amazônia deve ser protegida da cobiça estrangeira é tão antiga quanto o próprio país".

"Bolsonaro usa a retórica nacionalista para angariar apoio nessa escalada de tensão com os líderes europeus", concluiu.

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