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Correio Braziliense

Passo a passo, governo está construindo base de apoio no Congresso

Governo evolui na articulação sob o comando do ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, e amarra estrutura de apoio. Relação com o Congresso muda também nas palavras e ações de Bolsonaro, que interrompeu escalada de ataques à política


postado em 22/09/2019 08:00

Ramos, de costas, com Bolsonaro: melhora na governabilidade nos últimos meses (foto: José Cruz/Agência Brasil - 11/8/19 )
Ramos, de costas, com Bolsonaro: melhora na governabilidade nos últimos meses (foto: José Cruz/Agência Brasil - 11/8/19 )
Passo a passo, o governo está construindo a base de apoio no Congresso para aprovar, sobretudo, a agenda econômica. Na Câmara, os apoios chegam a 180 deputados. No Senado, aproximadamente 30 parlamentares. Os números são confirmados por interlocutores do Palácio do Planalto, que atribuem ao processo gradativo consolidado pelos 217 atendimentos feitos pelo ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e pelo líder na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO). Um terceiro nome, no Senado, o de Fernando Bezerra (MDB-PE) — foi abatido em pleno voo pela Polícia Federal, mas continuará no cargo até segunda ordem (leia mais abaixo).

O articulador político assumiu o cargo em 4 de julho. Significa que, nas últimas 11 semanas à frente do posto, fez uma média de quase 20 atendimentos por semana. Foram 177 encontros com deputados e outros 40 com senadores, que incluem acolhimentos a parlamentares que se reuniram com Ramos mais de uma vez, segundo informações obtidas junto a fontes na Secretaria de Governo. É uma interlocução construída com laços de reciprocidade, explicam, sem toma lá dá cá, mas, sim, com construções sólidas para a “reconstrução” do Brasil.

Aos mais próximos, Ramos se orgulha de atribuir o trabalho feito como uma articulação de Estado, não de governo. Não à toa, em relação a esses atendimentos, feitos para dialogar a acomodação de espaços para indicados políticos, o ministro e os líderes praticamente só não se reuniram com parlamentares do PT, do PCdoB, do PDT e do PSol, legendas opositoras ao governo. Dos 217 encontros, quase 90% foram a 16 partidos (veja quadro).

Ao Correio, Ramos explica que o objetivo é construir pontes e buscar entendimentos. “Mais recentemente, fui ao Congresso em duas oportunidades, na semana retrasada e nesta última, e conversei separadamente com cada líder de partido. Botei meus pontos de vista, eles colocaram os deles. Alguns até botaram algumas coisas, brincando: ‘Quero um casamento de relação de franqueza e sinceridade!’. Não existe alinhamento 100% com o governo, mas postura pelo Brasil. Nem falo em construir base, mas criar relações republicanas com o Congresso”, sustenta.

O ministro classifica como positivas as reuniões com os líderes partidários e almoços com as bancadas nessas últimas duas semanas. O bom relacionamento também se estende ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Fui muito bem-recebido, com aproximação com o Rodrigo e o Davi, por duas ou três oportunidades. Então, está caminhando. Com dois meses, como não me conheciam e não conhecia todos, estamos desenvolvendo uma relação amistosa. É um processo lento, mas estamos vivendo um novo momento da articulação, pensando no Brasil, que é a bandeira do presidente Jair Bolsonaro”, destaca Ramos.

Lideranças partidárias e interlocutores governistas explicam que, na Câmara, a estratégia consiste em potencializar deputados novatos para compor uma base sem, necessariamente, ficar dependente dos caciques. O embrião disso surgiu com uma costura feita entre Vitor Hugo e líderes do Podemos, Cidadania, PSC, Pros e Patriota, antes de julho. Agora, está se consolidando e incluindo alguns “dissidentes” de partidos maiores. “O ministro e o Major (Vitor Hugo) fizeram rodadas de reuniões na Câmara nas últimas duas semanas e conseguiram atender a grande maioria dos líderes, os maiores e os menores, também”, sustenta um interlocutor governista.

No Senado, onde o mandato é dos parlamentares, não dos partidos — como na Câmara —, a articulação vem sendo construída sem pressa, gradualmente, à moda antiga. Um namoro a ser conquistado, um a um, sendo entendido e mapeado. Afinal, alguns têm mandato de oito anos a cumprir, então, o governo tenta ser bem convincente. Nas duas Casas, em geral, está sendo conduzido um processo de reestruturação do novo governo, buscando avançar na adequação dos posicionamentos dos parlamentares. Alguns têm muitos cargos e, ainda assim, votam contra o governo. Isso não será mais admitido no modelo atual.

Anseios

Alguns parlamentares não estão contentes, pois têm anseios imediatos, que, por vezes, são difíceis de serem atendidos, pois cada decisão precisa ser mapeada e planejada, por ter consequências a longo prazo. “Até a metade do ano foram feitas diversas promessas que, naturalmente, são quase impossíveis de serem cumpridas. Assim, está sendo feito um realinhamento de forma honesta e direta para atender a todos os anseios no tempo adequado dentro das possibilidades e critérios do governo”, ponderou uma fonte do Planalto.

A interlocução governista é elogiada pelo deputado José Nelto (Podemos-GO), líder da legenda na Câmara. O parlamentar afirma ter tido uma conversa sincera, leal, madura e de responsabilidade pelo Brasil com Ramos. “Nós depositamos a confiança na articulação e considero que tem que continuar empoderando politicamente o ministro, pois construiu uma ponte entre o Executivo e o Legislativo”, afirma. O embarque do Podemos na base governista, por sinal, é uma realidade. “Não teremos dificuldade (em compor), se for da boa e verdadeira política”, sustenta.

O deputado Fausto Pinato (PP-SP), vice-líder do bloco e presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, também elogia. “O Ramos pegou uma articulação torta, que não falava com o Parlamento e as bancadas e, ainda assim, deixou uma conta impagável. A articulação foi mal distribuída para uma panela que não votava com o governo. Agora, vejo que o diálogo vem sendo bem-feito, mas é preciso fazer uma reavaliação dos vice-líderes”, avalia.

Acolhimentos

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Prestígio

Os parlamentares procuram o governo e vice-versa. Até o momento, foram feitos 217 atendimentos referentes a cargos (em números totais):

» Deputados  177

» Senadores  40

Por partido

PSL, Podemos, MDB, PP, PSD, DEM, PL, Solidariedade, Republicanos, Avante, PSDB, Pros, PTB, PSC, Cidadania e Patriota respondem por 190, ou seja, cerca de 88% do total.

Por estados

Congressistas do Nordeste foram recebidos em 76 ocasiões. Os do Sudeste, 54 vezes. Depois os do Norte (32), Centro-Oeste (30) e Sul (25)

Fonte: Secretaria de Governo

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Cautela e confiança no Senado

A situação do senador Fernando Bezerra (MDB-PE) se tornou um incômodo para o governo. Depois de ele ter colocado o cargo de líder do governo no Senado à disposição, a ordem no Palácio do Planalto é aguardar o andamento das investigações feitas pela Polícia Federal, que apura um suposto esquema de propinas pagas por empreiteiras. As empresas executariam obras custeadas com recursos públicos a favor de autoridades, entre elas, o parlamentar.

Com votações importantes para esta semana na Casa, como a  reforma da Previdência em primeiro turno no plenário, na terça, e a sabatina do subprocurador-geral Augusto Aras, na Comissão de Relações Exteriores (CRE), na quarta, interlocutores do governo no Senado montam uma estratégia para evitar ruídos e impactos da operação da PF à articulação governista. Com isso, Bezerra ficará no cargo de líder, pelo menos por enquanto.

Os quatro vice-líderes do governo no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO), Elmano Férrer (Podemos-PI), Izalci Lucas (PSDB-DF) e Chico Rodrigues (DEM-RR), estão dialogando com os demais parlamentares, por telefone e presencialmente, minimizando a operação, frisando que sequer o Ministério Público fez a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é convencer de que tudo permanecerá em ordem.

O planejamento é manter a confiança dos senadores na articulação. Afinal, são 30 parlamentares que compõem a base, dos quais o governo tem intenção de ampliar, e não perder votos. “E nós, que somos vice-líderes, temos que ter essa segurança de que aquilo que falamos seja honrado e cumprido, se não, perdemos a credibilidade. Então, não dá para brincar com essas coisas de empurrar com a barriga”, destaca Izalci.

Por ser de Brasília, o senador ressalta que sempre tem ajudado muito na articulação, e, agora, não será diferente. “Estou aqui no sábado o tempo todo, sempre à disposição dos senadores para conversar. Na segunda-feira, quando, normalmente, ocorrem as reuniões, muitas vezes o Fernando não pode vir, e eu vou. Agora, torço para que não haja nenhuma modificação e que ele continue na liderança, pois é uma pessoa competente, articulada, que conhece a fundo a máquina pública e a Casa. É um processo de investigação, não há nenhuma definição”, sustenta. 
 
 

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