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Correio Braziliense

''O papel dos países ricos, agora, é pagar'', diz ministro do Meio Ambiente

Ministro do Meio Ambiente diz que nações em desenvolvimento aguardam pagamento bilionário prometido no Acordo de Paris e que Brasil levou calote no Protocolo de Kyoto


postado em 22/09/2019 08:00 / atualizado em 22/09/2019 14:11

"O BID e, provavelmente, também com a ajuda do Banco Mundial e massiva participação do setor privado, vai lançar um fundo para desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia" (foto: Sergio LIMA/AFP - 24/8/19)
Nova York —
 O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, desembarcou, ontem, em Nova York, num esforço para melhorar a imagem do governo brasileiro antes da chegada do presidente Jair Bolsonaro para a abertura da 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Sem citar Antonio Guterrez, o secretário-geral da ONU, o ministro disse, em entrevista exclusiva ao Correio, que chegou à cidade “pronto para falar” na cúpula das mudanças climáticas, amanhã, mas, “numa manobra política, me parece que o secretariado-geral preferiu deixar só chefes de Estado”. A acusação soa como uma resposta à cobrança feita por Guterrez, de responsabilidade dos países para ações nessa área. “O Brasil é o que tem mais para mostrar e que cumpriu mais metas dentro do Acordo de Paris. Fazem acusações injustas ao Brasil”, afirmou, cobrando dos países ricos que cumpram a sua parte. A seguir, os principais trechos da entrevista.


O que o senhor tem a dizer sobre a afirmação do secretário-geral da ONU, Antonio  Guterrez, de que os países têm que ter responsabilidade spbre a Amazônia?
Nós sabemos das nossas responsabilidades, temos agido de acordo com elas. E da parte dos países ricos, nós queremos que eles cumpram o que se comprometeram no Acordo de Paris, não só com suas próprias metas, mas, principalmente, com o pagamento dos US$ 100 bilhões que se comprometeram com os países em desenvolvimento e que começa no ano que vem. Seria bom eles darem a indicação de que isso vai acontecer, ao contrário do Protocolo de Kyoto, que até hoje não deram vazão aos créditos brasileiros.

Qual é essa dívida?
São 250 milhões de toneladas de carbono que o Brasil tem de crédito, segundo o mecanismo de desenvolvimento limpo do Protocolo de Kyoto. Se nós calcularmos a US$ 10 por tonelada de carbono, estamos falando em US$ 2,5 bilhões que, há 14 anos, estamos tomando calote.

O que o senhor já conseguiu aqui?
Toda essa viagem — Washington, Nova York e Europa — tem três objetivos. O primeiro é conversar com os meios de comunicação, ou seja, imprensa, seja televisão, sejam jornais, para explicar efetivamente o que está acontecendo com o Brasil, os planos que temos para o meio ambiente, não só para a Amazônia, mas também para a agenda urbana. Enfim, é uma viagem de comunicação, sobretudo. Fizemos isso em Washington durante dois dias: Associated Press, Reuters, Wall Street Journal. O segundo é explicar para os investidores o que está acontecendo e aquilo que a gente pode fazer no Brasil, oportunidades para investimentos, enfim, não só na parte de bioeconomia, mas também de saneamento, lixo, agenda urbana de meio ambiente. Para isso, tivemos reunião com várias companhias americanas e europeias que têm escritórios em Washington. E, ainda, a US Chamber, a câmara americana de comércio. Os maiores investidores do Brasil estavam lá. O terceiro são as entidades ambientalistas e os acadêmicos. E vamos repetir esse tipo de agenda aqui em Nova York e na Europa, Alemanha e Inglaterra.

Qual é a mensagem que o país traz nessas visitas?
Primeiro, que o Brasil é um país que se manteve no acordo do clima e manteve seus compromissos assumidos na NDC (National Determined Contributions). Mais do que isso, é o país que mais está avançado com seus compromissos sobre o Acordo de Paris. Ao contrário de muitos dos países que nos apontam os dedos e que não estão cumprindo e já disseram que não vão conseguir cumprir suas metas com o Acordo de Paris, o Brasil está indo muito bem. Temos o etanol, o Renova Bio, o aumento expressivo do reflorestamento no Brasil, da mudança da nossa matriz energética. Temos muita coisa para mostrar e que nos coloca muito à frente desses outros países. Inclusive, essa acusação de que nós não teríamos nos comprometido com metas novas, ambiciosas é injusta e falsa, porque os outros países que estão agora, e apenas agora, apresentando supostamente novas metas, ainda assim vão ficar muito aquém daquela com a qual o Brasil já se comprometeu. O desafio deles para conosco, agora, é pagar. Havia uma promessa de US$ 100 bilhões por ano para os países em desenvolvimento e, entre eles, o maior beneficiário tem de ser o Brasil, porque é aquele que mais tem feito, mais tem florestas, mais tem coisas para mostrar. 

Qual é a sua expectativa sobre esse pagamento?
O pagamento começa no ano que vem, e o precedente não é bom. Desde 2005, o Brasil tem um crédito de carbono da ordem de 400 milhões de toneladas. Após 14 anos de transcurso desse prazo do Protocolo de Kyoto-2005, só tivemos 150 milhões, dos 400 milhões de toneladas de carbono, efetivamente, transformados em investimentos por meio do MDL, que é o mecanismo de desenvolvimento limpo do Protocolo de Kyoto. Os outros 250 milhões de toneladas, que, se nós calcularmos, nos dão o crédito de US$ 2,5 bilhões para investimentos na parte ambiental, de mecanismo de desenvolvimento limpo no Brasil, até hoje esses países não honraram, passados 14 anos.

Existe toda uma onda internacional de ‘Amazônia  está queimando’. Como responder a isso?
Temos uma resposta muito concreta, sem precedentes no Brasil e, talvez, na América Latina, que é a grande Operação de Garantia da Lei e da Ordem, o decreto de GLO Ambiental que o presidente Bolsonaro assinou e agora prorrogou por um mês. É uma operação sem precedentes. Nunca foi feito algo dessa magnitude no Brasil para combater desmatamento ilegal e focos de queimadas. Agora, outros países estão queimando, o próprio Alasca (nos EUA). O presidente do EPA, que equivale ao ministro do Meio Ambiente dos Estados Unidos, me disse pessoalmente, ontem, que foi ao Alasca e ficou impressionado com as queimadas. Não tem nada a ver com Amazônia. Da mesma forma, a África, o nosso vizinho Bolívia, em que o Evo Morales assinou um decreto autorizando o aumento expressivo da área de queimada no país. Mas como ele é um político de esquerda, esses países todos que estão apontando o dedo para o Brasil não falam nada. A grande queimada na América do Sul, hoje, é na Bolívia, graças a um decreto do senhor Evo Morales.

Não seria importante, então, o Brasil participar, hoje,  da cúpula de mudanças climáticas para expor a sua posição?
Seria muito importante. Eu, como ministro, estou aqui para isso. Vim para apresentar a posição brasileira, que é a mais sólida e com mais ações concretas para mostrar. Entretanto, numa decisão que é claramente política, se determinou, lá nas Nações Unidas, que apenas chefes de Estado poderão falar. Ainda que o nosso presidente, nesse caso específico, em razão da cirurgia, não tenha condições de vir para esse dia anterior. Ele virá para a abertura oficial da ONU. Então, estou aqui pronto para falar, mas, numa manobra política, me parece que o secretariado-geral preferiu deixar só chefes de Estado.

No mundo todo houve protestos cobrando ações para  conter as mudanças climáticas e há também manifestações  sobre queimadas na Amazônia. Como o senhor vê esses movimentos?
A manifestação dos jovens é positiva, com a qual nos alinhamos, que é uma preocupação com a mudança do clima e com o futuro. Todos nós, que somos responsáveis e reconhecemos a importância do meio ambiente, estamos alinhados com isso. Agora, nosso papel, enquanto governo brasileiro, é perguntar: E os jovens brasileiros, miseráveis, que estão passando necessidade lá na Amazônia? Quem vai lutar por eles? Quem vai lutar por saúde, educação, oportunidade de emprego e renda desses jovens da Amazônia? Seria importante incorporar essa pauta na pauta das mudanças climáticas, para que os jovens ricos, que estão saindo às ruas, se lembrassem também dos jovens pobres do Brasil.

Amazônia no centro dos debates


Na abertura da Conferência do Clima, na ONU, a Amazônia esteve no centro dos debates que reuniram jovens, especialistas e empresários.

Em Nova York, a mobilização assumiu a forma de uma cúpula juvenil para o clima, a convite da ONU, que esta semana recebe os líderes do planeta. “Mostramos que estamos unidos e que os jovens são imparáveis”, disse Greta Thunberg, ambientalista sueca de 16 anos cujas greves às sextas-feiras em frente ao parlamento sob o slogan “Sextas para o Futuro” se tornaram um movimento global.

Um dia depois de manifestações que reuniram milhões de pessoas ao redor do mundo para exigir políticas contra a mudança climática, os voluntários partiram para a ação, sob sol ou chuva, das praias de Manila às margens do Mediterrâneo. De acordo com dados da fundação, no ano passado 18 milhões de pessoas participaram do dia da limpeza em 157 países. Este ano, os organizadores citaram eventos em 160 nações.A operação começou na Ásia. Os moradores de Fiji iniciaram o trabalho ao amanhecer, recolhendo o lixo de suas praias paradisíacas, retirando pneus e motores abandonados da costa, ao oeste da capital Suva. 

Nas Filipinas, quase 10.000 pessoas tentaram limpar a baía de Manila, muito contaminada.A poluição por plástico é um grande problema no sudeste asiático, sobretudo nas Filipinas, China, Vietnã e Indonésia. “Nós temos que ajudar o meio ambiente, especialmente aqui, em Manila, onde há muito lixo”, declarou à AFP Mae Angela Areglado, uma estudante de 20 anos, enquanto colaborava com a iniciativa, no bairro de Baseco da capital filipina.Na França, os voluntários compareceram às praias em um dia ensolarado. O Ministério do Meio Ambiente informou que apenas no bairro financeiro de Paris, La Defense, foram recolhidas 12.528 bitucas de cigarro. 
 
 
 
 

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