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Correio Braziliense

Maior economia da América do Sul, Brasil vê cenário de crises na região

Afetado pela polaridade entre direita e esquerda, o Brasil se vê em meio a um cenário regional de crises e de avanço da instabilidade política e social


postado em 13/10/2019 08:00 / atualizado em 14/10/2019 13:39

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
Em uma escalada de tensões na América do Sul, cinco países da região vivem em um cenário de grave conflito. Impulsionada por mudanças econômicas e políticas, uma série de revoltas tem preocupado autoridades e colocado em xeque o futuro da geopolítica regional. Maior economia da região, o Brasil não registra casos de rebelião em massa, mas sofre com uma polaridade política que cria rusgas quase que diárias entre as instituições. Colômbia, Equador, Peru, Venezuela e Argentina, porém, mergulharam em problemas internos, crises e situações de violência que chegam a ameaçar a democracia. A situação mais caótica é a da Venezuela, onde uma grave crise política e social resulta na falta de alimentos, na precarização dos serviços públicos e em uma onda de violência nas ruas.

 

Por trás dos fatores políticos, está uma mudança, silenciosa, mas importante, na configuração econômica regional. Especialistas ouvidos pelo Correio apontam que mudanças econômicas, como a maior aproximação desses países com a China, além de viradas ideológicas no comando dessas nações, estão intrinsecamente ligadas à sequência de problemas no continente. Nos últimos anos, esse processo favoreceu a perda de articulação regional, criando um distanciamento entre os chefes de Estado sul-americanos que inviabiliza a discussão de problemas comuns do continente.

 

Alguns números da economia brasileira ilustram esse esgarçamento nas relações entre nações latino-americanas.  De acordo com dados do Ministério da Economia, entre janeiro e setembro deste ano, as exportações nacionais para os países da América do Sul caíram 23%, se comparadas a igual período de 2018, movimentando US$ 20 bilhões. Para a Ásia, o recuo foi de 1,3%, mas os embarques chegaram a US$$ 40 bilhões, ou seja, o dobro.

 

O resultado das eleições na Argentina, agora em outubro, será fundamental para definir os rumos do país e de seus aliados. As pesquisas indicam que o atual presidente, Maurício Macri, está em desvantagem, e pode perder a eleição. Ele chegou ao cargo com a promessa de dar uma guinada à direita, e foi beneficiado por denúncias de corrupção contra sua antecessora, Cristina Kirchner, representante da esquerda nacionalista. No entanto, sem conseguir tirar o país do atoleiro da inflação, do desemprego e das altas taxas de pobreza, Macri perdeu popularidade e pode ter que ceder o posto para a chapa formada por Alberto Fernandez e Cristina Kirchner.

 

O ex-diretor da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), Pedro Silva Barros, afirma que, apesar de ocorrerem em diferentes países, as crises em andamento no continente têm fatores em comum. “Este é um momento delicado para a região, que enfrenta uma fragmentação política — tanto interna, com aumento da polarização ideológica, quanto entre os diferentes países. Ao mesmo tempo, existe uma recessão econômica, com a diminuição da interdependência comercial. Os países em geral registram queda no PIB, com crescimento negativo ou de, no máximo, 1%a per capita”, diz Barros.

 

Para o especialista, a redução das negociações comerciais entre os países da região tem forte repercussão no cenário político e social. “Os países da região, de três anos pra cá, têm reduzido o comércio intrarregional. Isso gera mais instabilidade. Alguns presidentes têm falado sobre assuntos internos de outros países, até manifestando o desejo de que determinado candidato ganhe a eleição. Há oito anos, 11% do que o Brasil exportava era para a Argentina. Neste ano, é menos do que 5%, ou seja, é o piso, desde que foi criado o Mercosul, em 1991”, completa. 

Tensão política e revolta nas ruas


Além da Argentina, a Colômbia vive sob tensão com o ressurgimento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O grupo havia abdicado da luta armada e se tornado um partido político, mas, recentemente, convocou seus integrantes a pegarem novamente em armas.

No Equador, um acordo com o Fundo Monetário Internacional para viabilizar um empréstimo de US$ 4,2 bilhões gerou revolta e levou a população às ruas. Para receber o dinheiro, o governo eliminou benefícios como o subsídio aos combustíveis, o que gerou um aumento de 123% no preço dos produtos nas bombas.

No Peru, uma grave crise política resultou na destituição do Congresso pelo presidente Martín Vizcarra. O país chegou a ter dois presidentes em um só dia, após os parlamentares tentarem reagir com a entrega do comando do Executivo para a vice-presidente Mercedes Aráoz, mas ela não resistiu mais do que 24 horas. No embate, Vizcarra saiu fortalecido e viu a popularidade aumentar.

Grupo de Lima


Em meio à crise na Venezuela, foi criado o Grupo de Lima, um fórum de articulação política que tem como objetivo acompanhar e buscar formas de estabilizar politicamente o país caribenho. Formado por 14 nações, incluindo o Brasil, o bloco patrocinou campanhas de ajuda humanitária, mas tem atuado no sentido de isolar o regime comandado por Nicolás Maduro.

Apesar do objetivo específico, o Grupo de Lima ganhou um novo contorno ao se manifestar recentemente sobre a crise política no Peru. O analista político Leopoldo Vieira, chefe executivo da consultoria IdealPolitik lembra que a operação Lava-Jato, que gerou turbulência no Brasil, levando para a cadeia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros integrantes das cúpulas do Executivo e do Legislativo, também teve efeitos no Peru. “A versão local da operação Lava-Jato levou à erosão do sistema político em um nível maior do que no Brasil, mostrando que o combate à corrupção pode provocar situações de gelatinosidade e ilegitimidade das instituições, a ponto de quase não restar caminho, a não ser uma constituinte originária”, diz.

Para Leopoldo Vieira, apesar de viver situação menos turbulenta, o Brasil começa a dar sinais de deterioração do sistema político, com a perda de apoio do presidente. “Jair Bolsonaro tem se projetado muito mais como um futuro não desejado por outros países que pensaram em dar uma chance à direita radical. Ele vai perdendo aprovação devido ao discurso polêmico e denúncias de corrupção — paradoxalmente, o vetor que o fez ganhar a eleição, na esteira da Lava-Jato”, completa. (RS)

 

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