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Correio Braziliense

Indicação de Eduardo Bolsonaro para líder não acaba com crise no PSL

Ala bolsonarista consegue colocar Eduardo Bolsonaro (SP) na liderança do partido na Câmara, mas aliados do presidente da sigla, deputado Luciano Bivar (PE), prometem reagir. Comissão Executiva se reúne nesta terça-feira (22/10) e pode abrir processo contra opositores


postado em 22/10/2019 06:00

Limpando o terreno: primeiro ato de Eduardo Bolsonaro após assumir o novo cargo foi destituir todos os vice-líderes da legenda(foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Limpando o terreno: primeiro ato de Eduardo Bolsonaro após assumir o novo cargo foi destituir todos os vice-líderes da legenda (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Em mais um capítulo da crise que divide o PSL, a ala bolsonarista conseguiu, após três tentativas, elevar o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) à liderança do partido na Câmara. Nada indica, porém, que a disputa pelo controle da legenda, iniciada há duas semanas, tenha terminado. Ainda nesta segunda-feira (21/10), a Executiva Nacional do PSL convocou para esta terça-feira uma reunião com o objetivo de instituir o Conselho de Ética do partido e abrir processos visando à suspensão de 19 deputados, todos do grupo ligado ao presidente da República, Jair Bolsonaro. Entre os alvos, está o filho Eduardo, mas o gabinete do parlamentar disse não ter recebido a notificação. Segundo o deputado Júnior Bozzella (PSL-SP), um dos principais porta-vozes do presidente da sigla, Luciano Bivar (PE), com quem os bolsonaristas disputam o controle da legenda, depois que os processos disciplinares forem abertos, os deputados acusados terão cinco dias para recorrer e fazer a defesa. A alegação do partido é que esses parlamentares atacaram o PSL e correligionários em redes sociais e discursos. Punições mais graves, como expulsões, devem ser tratadas em um segundo momento, assim como a troca de comando dos diretórios estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro, nas mãos de Eduardo Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), respectivamente.

A intenção dos bivaristas é, também, reconduzir o deputado Delegado Waldir (PSL-GO) ao cargo de líder do partido na Câmara. Eduardo foi colocado na liderança, na manhã desta segunda-feira (21/10), por força de um requerimento assinado por 28 deputados da legenda. Entretanto, a questão não foi pacificada. Há mais listas à espera de análise da Mesa Diretora da Câmara — uma apresentada por parlamentares da ala fiel a Bivar, para que Delegado Waldir volte ao posto, e uma outra, para que Eduardo permaneça líder.

Não à toa, o filho do presidente da República adotou um discurso cauteloso ao receber a notícia. No início da tarde, ele disse que preferia “não se posicionar como líder do partido”. No entanto, horas depois, usou o poder da função para promover mudanças: destituiu os 12 vice-líderes do PSL na Casa. Quase todos são da ala que apoia Bivar, entre os quais Joice Hasselmann (SP), afastada pelo presidente Jair Bolsonaro, na semana passada, da liderança do governo no Congresso. Os substitutos ainda não foram anunciados.

Os bivaristas, porém, acusaram o governo de quebrar um acordo estabelecido entre o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, e o presidente do PSL. No início da manhã desta segunda-feira (21/10), ambos teriam conversado por telefone e acertado que nenhuma outra lista seria apresentada à Mesa a fim de mudar a liderança do partido. Em troca, seria revogada a suspensão temporária dos deputados Filipe Barros (PR), Carlos Jordy (RJ), Carla Zambelli (SP), Bibo Nunes (RS) e Alê Silva (MG), imposto por Bivar, na última sexta-feira.

Bivar teria concordado, e chegou a anunciar a suspensão das penalidades. Com isso, os cinco parlamentares, que chegaram a recorrer ao Supremo Tribunal Federal para anular a suspensão, tiveram as atividades parlamentares restabelecidas. Na sequência, com outros 24 deputados do partido, eles assinaram requerimento, encabeçado pelo líder do governo na Câmara, Vítor Hugo (GO), para que Eduardo fosse elevado à liderança. O general Ramos confirmou a conversa, mas negou ter feito qualquer acordo.

“Isso (o não cumprimento do acordo) reflete a falta de articulação política do líder do governo e a desorganização do Palácio (do Planalto) com relação ao Congresso. O coordenador político da Casa Civil, que é o general Ramos, propõe um acordo, o líder do governo descumpre, fica uma coisa estranha. A gente não sabe se é incompetência ou se é falta de caráter mesmo”, atacou Júnior Bozzella, um dos que foram tirados da função de vice-líder da legenda.

Para o diretor para Américas da consultoria Eurasia, em Washington, Christopher Garman, a confusão das listas mostra que a força eleitoral do presidente está falando mais alto. David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), observa que o presidente nunca articulou uma coalizão de apoio no Congresso. “Bolsonaro tem feito tudo ad hoc (expressão do latim que significa para um fim específico). É a chamada nova política, mas ele tem usado a velha política para alcançar algumas coisas. Ele foi acusado dentro do partido de tentar comprar voto para tornar o filho líder do PSL”, destacou.

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