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Correio Braziliense

Brasil busca se descolar da crise latina

a avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, a mensagem de que estamos longe da crise da América Latina é recebida com sucesso


postado em 17/11/2019 06:32

Líderes do Brics: declaração de Brasília não mencionou a crise política e econômica que assola os vizinhos(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Líderes do Brics: declaração de Brasília não mencionou a crise política e econômica que assola os vizinhos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Em meio a protestos inflamados, deposição de presidente e eleições controversas na América do Sul, a preocupação do maior país do continente é se descolar do cenário de instabilidade. A mensagem que o governo tenta passar é de que o Brasil está imune às crises nas nações vizinhas. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, a mensagem é recebida com sucesso.

Sinal disso é o comunicado final da XI Cúpula do Brics — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, que aconteceu em Brasília, ter ignorado completamente a situação nos países latinos. O documento, elaborado na última quinta-feira (14/11), não faz nenhuma menção ao assunto, nem mesmo na parte que fala da conjuntura regional. Bolsonaro, anfitrião do evento, sequer os mencionou no discurso.

A onda de crises ainda não teve efeitos diretos no Brasil, mas é natural que reflita ao menos em um clima de apreensão, explica o cientista político Creomar de Souza, da consultoria Dharma Political Risk and Strategy. Nesse ponto, os especialistas concordam: a consequência imediata é o alerta sobre a importância de se atender às demandas da sociedade, para não cometer os mesmos erros dos vizinhos, e, ao mesmo tempo, avançar em políticas econômicas capazes de atrair investimentos.

Souza cita como exemplo de fracasso nessa dinâmica o caso do Chile, “bastante emblemático”, na visão dele. A economia estava relativamente estável, mas as queixas quanto ao bem estar social eram menosprezadas pelo governo. Em algum momento, a insatisfação extrapolou e deu origem a protestos de grande proporção, que amanhã completam um mês. Para o especialista, não há indícios de que o mesmo aconteça no Brasil.

Na Bolívia, a situação também é diferente da brasileira. Lá, a economia deve registrar, neste ano, o maior crescimento da América do Sul, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas há uma crise política intensa desde o plebiscito de 2016, desrespeitado por Evo Morales, que agora atingiu o auge, com a renúncia do presidente. Se o governo brasileiro conseguir dar respostas positivas e não cair nas mesmas armadilhas, “será menor a chance de questionamentos mais explosivos ou de ações que caminhem para a violência”, resume Souza.

O cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria Arko Advice, ressalta que as boas perspectivas econômicas devem segurar potenciais efeitos de divergências políticas no Brasil. Os indicadores começam a melhorar —- o nível de atividade econômica teve alta de 0,44% em setembro, na comparação com agosto, acima do 0,39% esperado pelo mercado, e a inflação ficou em 0,10% em outubro, menor taxa para o mês desde 1998.

Além disso, o governo tem tomado medidas para organizar as contas públicas e estimular a geração de empregos, o que acalma o mercado e reduz a pressão social. “Algumas dessas ações, às vezes, são impopulares à primeira vista. Mas, conforme geram resultados, a expectativa das pessoas melhora em relação ao futuro. Combinação perigosa seria sinais econômicos ruins e caos político”, afirma Noronha.

Polarização

Se as perspectivas econômicas no Brasil são animadoras, a polarização política representa um possível fator de instabilidade no futuro. Mas, apesar dos embates virulentos entre esquerda e direita, especialistas apontam alguns fatores positivos, como a leitura de que a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva repercutiu menos do que se esperava.
Apesar de movimentos pontuais contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que veda a prisão em segunda instância, eles avaliam que a disputa está contida e que será um fator decisivo de crise. Em um primeiro momento, Lula questionou a vitória de Bolsonaro nas urnas, o que causou apreensão. Mas o petista voltou atrás e admitiu que o presidente foi eleito democraticamente e deve terminar o mandato. Bolsonaro tampouco tem discutido com o petista de forma intensa, apesar de rebater algumas falas. “É essencial haver responsabilidade de ambos os lados, para não jogar gasolina na fogueira”, diz o cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria Arko Advice. Para ele, esse equilíbrio tem sido bem administrado.
Na avaliação do consultor em relações governamentais e comércio internacional Wagner Parente, da BMJ, é “improvável” que a soltura de Lula seja suficiente para levantar revoltas. “Mesmo que alguns não concordem e tentem atacar as instituições, elas estão funcionando bem”, afirma. Além disso, ele ressalta que os motivos dos impasses na América do Sul são muito variados. O que ocorreu, na visão dele, não foi um “efeito contágio”, mas uma série de crises individuais que explodiram ao mesmo tempo.
O fator político que pode influenciar na estabilidade, segundo Noronha, da Arko Advice, é a futura votação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da suspeição do ministro da Justiça, Sergio Moro, na condenação de Lula. “Pode acender uma faísca”, acredita o cientista político da Arko Advice. Além de reforçar a polarização, uma decisão que confirme a interferência do então juiz da Lava Jato no caso devolveria a elegibilidade do petista e o levaria de volta à disputa eleitoral.

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