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Correio Braziliense

Com novo partido, Bolsonaro corre contra o tempo por eleições de 2020

O presidente comanda nesta quinta-feira (21/11) a primeira convenção do Aliança pelo Brasil, partido que ele deseja criar até março, para que possa disputar os pleitos municipais. Nova sigla pretende levantar bandeiras da família, dos valores cristãos e do combate à corrupção


postado em 21/11/2019 06:00 / atualizado em 21/11/2019 02:28

Não está definido ainda se Jair Bolsonaro será o presidente da nova legenda: estatuto vai ser submetido a aprovação nesta quinta-feira (21/11), no evento em hotel de Brasília(foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)
Não está definido ainda se Jair Bolsonaro será o presidente da nova legenda: estatuto vai ser submetido a aprovação nesta quinta-feira (21/11), no evento em hotel de Brasília (foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)
O presidente Jair Bolsonaro dá, nesta quinta-feira (21/11), o passo inicial para a criação do Aliança pelo Brasil. O partido, a ser homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vai levantar as bandeiras da família, dos valores cristãos, da liberdade econômica e do combate à corrupção. A transparência e o compromisso com a lisura no trato com o dinheiro público, por sinal, ganhará um destaque especial na convenção nacional, às 10h, no Hotel Royal Tulip Alvorada.

A advogada Karina Kufa afirmou que o Aliança terá um canal de denúncias, com a finalidade de acolher acusações contra membros do próprio partido. A legenda apresentará um manual orientando não só o diretório nacional, mas também os estaduais de como proceder para a condução das contratações. Além disso, terá como regra a vedação à contratação de parentes de dirigentes. “E isso acaba trazendo mais moralidade para o partido. Há diversas regras nesse sentido. Outro tema é a obrigação de auditoria externa constante e publicação de balanços, despesa e receitas no site do partido”, declarou.

Com alfinetadas veladas ao PSL, Kufa disse que os mecanismos de transparência terão por objetivo evitar candidaturas fantasmas. As suspeitas de uso de laranjas nas eleições de 2018, por parte do antigo partido do presidente, foi uma das principais causas para a ruptura interna e a criação do Aliança. “O melhor para evitar é por meio de formação, conscientização. Explicar para as mulheres o que é uma candidatura laranja e ter um canal de denúncia para que ela, ao verificar isso ou alguém que faça uma proposta dessa, possa entrar nesse canal e denunciar”, frisou. “Vamos mostrar como funciona. De fato, numa eleição municipal, não tem como ter controle de tudo o que acontece nos municípios.”

Em concomitância com a conscientização, o Aliança orientará seus filiados a usar recursos de forma proporcional e responsável. “E não enviar recursos altos para candidatos que, sabidamente, não têm condições de ser eleitos”, ressaltou Kufa. A expectativa para a solenidade desta quinta-feira (21/11) é de casa cheia. O auditório do Royal Tulip consegue acomodar 500 pessoas, porém o número das que solicitaram e foram indicadas a comparecer ao evento chega ao dobro do permitido. Para atender a todos, será disponibilizado, na parte externa do hotel, um telão para mostrar todo o evento. Bolsonaro será a estrela e não atenderá apenas o público do auditório. Após a cerimônia, ele irá ao setor externo falar diretamente com os eleitores.

Expectativa

A previsão feita por deputados federais que planejam a migração para o Aliança é de que o partido seja homologado até março de 2020, prazo final de filiação para a disputa das eleições municipais. O especialista em direito eleitoral Admar Gonzaga, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e advogado da futura legenda, entende que a legislação eleitoral possibilita a criação de uma janela partidária no momento em que a sigla for criada.

“Está muito clara a justa causa. O presidente, com os deputados, cobrou transparência. O partido (PSL) se afastou de si próprio, não é um deputado saindo, é mais da metade saindo, porque o partido se perdeu. Houve cobrança pública pela transparência”, ponderou o primeiro-vice-líder do PSL na Câmara, Filipe Barros (PR).

O parlamentar reconheceu que a parte mais demorada é a coleta das cerca de 490 mil assinaturas exigidas, mas avalia que isso não será um problema. “Acreditamos que não haverá dificuldade. Tem a checagem e leva um tempo”, afirmou. Para ele, é possível, “sem dúvida nenhuma”, concluir a coleta de assinaturas ainda em 2019.

O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), é mais conservador e acredita que todo o processo, incluindo a coleta de assinaturas, esteja encerrado até fevereiro. “Esse foi o horizonte de tempo que o Admar nos passou como sendo possível para coleta e aprovação do TSE”, declarou. Paralelamente à coleta física, exigida pela Corte eleitoral, o partido anunciará um mecanismo digital, a fim de receber rubricas de todo o país.

Eduardo prega sobriedade

O Aliança não vai destrinchar as ações e demais estratégias para as eleições em 2020. Mas, passo a passo, o partido começa a ganhar corpo e musculatura política. No Ceará, oito deputados estaduais sinalizam a intenção de migrar para a futura legenda quando for aberta a janela partidária. Em Goiás, o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), mantém diálogo próximo com aliados que assumirão presidências de diretórios municipais quando a sigla estiver homologada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ainda assim, os principais líderes do partido em gestação pregaram cautela, a exemplo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Ao Correio, ele garantiu que o momento é de sobriedade, não de euforia em relação ao futuro da legenda. Dessa forma, tem buscado frear o ímpeto dos mais empolgados com as eleições municipais de 2020, deixando claro que todo e qualquer nome está sendo analisado caso a caso. “Muita gente anda tentando puxar para si, principalmente diretórios municipais, dizendo ‘ah, eu já sou do Aliança, já comecei’, mas não é nada assim, não. Está tudo em aberto”, avisou.

Irmão dele, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) deve ser confirmado nesta quinta-feira (21/11) presidente do diretório estadual do Rio de Janeiro, segundo garantem interlocutores. A expectativa é de que, quando puder anunciar a migração, Eduardo assuma a presidência da executiva estadual em São Paulo. O deputado evita, contudo, se aprofundar nas estratégias e prioridades da futura legenda para 2020. “Primeiro, o partido tem que existir, tem que ter a coleta de assinaturas, vai ter a convenção nacional na quinta (nesta quinta-feira — 21/11). Então, um passo de cada vez. Mas, daqui a pouco, a gente começa com a coleta de assinaturas”, explicou.

Como deputado federal mais votado da história do país pelo eleitorado paulista, Eduardo disse que, pessoalmente, não está pensando na montagem partidária do Aliança em São Paulo, com a composição dos diretórios municipais e estaduais de olho nas eleições de 2020 e 2022. “Não, eu tenho uma outra filosofia. Minha filosofia é fora do partido. Quatro anos do mandato e a gente está em eleição, vamos assim dizer. E o que elege deputado não é ser presidente de um diretório municipal ou estadual. O que elege é a satisfação do povo, a confiança, e isso pode ser trabalhado nos quatro anos, independentemente do cargo que vou ocupar dentro do partido”, destacou.

Alinhamentos

O argumento de Eduardo é respaldado por Bolsonaro, disse o deputado estadual André Fernandes (PSL-CE). O parlamentar foi recebido, na manhã desta quarta-feira (20/11), pelo presidente da República e, no encontro, a pauta de estrutura partidária do Aliança no estado nordestino não foi debatida. “Hoje (nesta quarta-feira — 20/11), na conversa que tivemos, não tinha isso de já estar alinhando os escritórios”, ressaltou. O parlamentar anunciou que, assim que possível, migrará para o Aliança. Outros sete deputados no estado podem adotar o mesmo caminho.

Embora tenha evitado entrar nas minúcias eleitorais do Aliança no Ceará e no Nordeste, Bolsonaro externou a Fernandes o desejo de estruturar a futura legenda com pessoas de confiança. “Tem de ser escolhida uma liderança forte por estado que seja da confiança do presidente”, afirmou Fernandes. A ideia de Bolsonaro é priorizar “qualidade”, não “quantidade”. Ou seja, a principal preocupação do chefe do Planalto é compor o Aliança com pessoas de sua mais alta confiança.

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