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Correio Braziliense

PGR recebe representação contra novo presidente da Fundação Palmares

Razão foi as posições consideradas incompatíveis com políticas de valorização da tradição negra de Sérgio Camargo. Para Bolsonaro, cultura deve servir à maioria


postado em 30/11/2019 07:00

Manifestantes tentaram falar com Sérgio Camargo, mas não foram recebidos. Bolsonaro deu carta branca para as indicações do setor de cultura(foto: Marivaldo Pereira/Divulgação)
Manifestantes tentaram falar com Sérgio Camargo, mas não foram recebidos. Bolsonaro deu carta branca para as indicações do setor de cultura (foto: Marivaldo Pereira/Divulgação)
A polêmica nomeação de Sérgio Nascimento de Camargo para a presidência da Fundação Cultural Palmares não passará por crivo, pelo menos por enquanto, do presidente Jair Bolsonaro. Ele afirmou que o secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, tem “carta branca” para fazer as mudanças que achar necessárias, em todas as subsecretarias e autarquias vinculadas à pasta, como a Palmares. Mas o novo presidente da instituição pode ser alvo de ação da Procuradoria-Geral da República: Nesta sexta-feira (29/11), o procurador-geral Augusto Aras recebeu de militantes de movimentos negros uma representação pedindo que Camargo seja destituído da função.


Segundo Bolsonaro, a cultura deve servir à “maioria” — disse, em referência aos votos válidos que garantiram sua eleição. “A cultura nossa tem que estar de acordo com a maioria da população, não de acordo com a minoria, e ponto final! É ele (Roberto Alvim) que decide, não vou adentrar em detalhe”, justificou, acrescentando. “Olha só: o secretário é um tal de Roberto Alvim. Dei carta branca a ele”, sustentou. Bolsonaro, porém, se propôs a ouvir o secretário a respeito da escolha de Camargo.

O presidente da Palmares tem sido criticado por declarações consideradas racistas. Segundo ele, a escravidão foi “benéfica para os descendentes” e não existe “racismo real”. Também já sugeriu que “alguns pretos sejam levados à força para a África”, como os atores Lázaro Ramos e Taís Araújo. Nem Zumbi dos Palmares, que dá nome à instituição, foi poupado de críticas: para Camargo, o líder quilombola foi “um falso herói dos negros”, e o Dia da Consciência Negra — comemorado no dia da morte de Zumbi — causa “incalculáveis perdas à economia do país”.

Questionado sobre as ideias de Camargo, Bolsonaro desconversou e relembrou o processo que respondeu na Justiça por injúria racial contra a cantora Preta Gil. “Eu já fui acusado de racista. Lembra o que o programa CQC fez comigo? Inventaram as respostas que dei à senhora Preta Gil e daí o escândalo foi feito.”

Reclamação

Com 62 assinaturas, o documento entregue a Augusto Aras alerta que “a nomeação de Camargo mostra-se absolutamente antijurídica e contrária ao interesse público, uma vez que sua trajetória, historicamente, é radicalmente contrária aos interesses que a Fundação busca defender”. Segundo a representação, as posições de Sérgio Camargo demonstram “incompatibilidade entre a trajetória e os valores de Camargo e aqueles valores que a lei determina que devem ser perseguidos pela Fundação Cultural Palmares”.

“Tal incompatibilidade torna evidente que a referida nomeação tem como objetivo frustrar, não apenas a persecução dos objetivos legalmente atribuídos à Fundação, como o cumprimento do dever de enfrentamento do racismo institucional e estrutural e da promoção da igualdade racial expressamente abrigados na Constituição, o que configura claro desvio de finalidade”, destaca o documento.

Além de pedirem a saída do presidente da fundação, os militantes também querem que Aras adote procedimento para apurar a responsabilidade do ministro-chefe da Casa Civil substituto, Fernando Wandscheer Alves — que efetivou Camargo na Palmares —, a quem acusam de cometer ato de improbidade e ter praticado abuso de poder.

Nesta sexta-feira (29/11), representantes de diferentes movimentos negros protestaram na sede da fundação, no Setor Comercial Sul, em Brasília. O grupo chegou a entrar no prédio da instituição e subir ao gabinete do presidente, mas ele não quis conversa com os manifestantes. Um deles era o advogado Marivaldo Pereira, também militante do movimento Mova-se, que disse que o comportamento de Camargo demonstra “uma ofensa muito grande”.

“Várias áreas onde nós conseguimos alguns avanços, depois de muita luta e muito sofrimento, estão sendo atacadas nesse governo. Nomear alguém com a trajetória do Sérgio para presidir a Fundação Palmares é uma violência muito grande. É um atentado contra a história de luta do movimento negro do país. É pisar em cima dos sentimentos de toda a população negra que, desde a abolição da escravatura, veio lutando por gerações e gerações para conseguir o mínimo de direitos”, desabafou.

Marivaldo ainda definiu a nomeação de Camargo como “um retrocesso sem precedentes”. “Nós vamos lutar contra isso. Vamos recorrer a todos os meios jurídicos para tentar anular essa nomeação e ficar em cima de todos os atos que ele praticar para desmontar as políticas atualmente existentes”, garantiu.

Resposta enviesada a Preta Gil

 


Imagens de um quadro do extinto programa de televisão CQC, exibido pela Band TV, mostram o então deputado federal Jair Bolsonaro sendo questionado pela cantora Preta Gil sobre como reagiria se um de seus filhos se apaixonasse por uma negra. Declarou que não discutiria “promiscuidade”.“Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.

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