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Correio Braziliense

CPMI mira no 'gabinete do ódio' em investigação sobre disseminação de fake news

CPI irá solicitar acesso aos IPs e dados dos computadores usados por servidores do "grupo"


postado em 06/12/2019 20:33 / atualizado em 06/12/2019 20:34

Os três servidores que fazem parte do
Os três servidores que fazem parte do "gabinete do ódio" têm ligação com o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (foto: Sérgio Lima/AFP)
O terceiro andar do Palácio do Planalto entrou na mira das investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News. Nas próximas semanas, a comissão deve solicitar acesso aos IPs (uma espécie de identidade do aparelho) e dados dos computadores usados por servidores que integram o chamado "gabinete do ódio", que atuam no mesmo andar no qual o presidente da República, Jair Bolsonaro, despacha diariamente.

Como mostrou o jornal O Estado de S. Paulo em setembro, "gabinete do ódio" é como internamente integrantes do governo passaram a se referir ao grupo formado por três servidores ligados ao vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC), filho "02" do presidente. Os assessores Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz produzem relatórios diários, com suas interpretações, sobre fatos do Brasil e do mundo e são responsáveis pelas redes sociais da Presidência da República.

A decisão de pedir acesso aos IPs e dados dos computadores desses servidores foi tomada depois que a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-líder do governo no Congresso, prestou depoimento na CPI, na Quarta-feira passada (4/12) acusando os assessores do presidente de disseminar notícias falsas durante o horário de serviço.

"Vamos pedir a quebra dos IPs para localizar as máquinas. Se por um acaso tiver requerimento, e tiver provas concretas que existe computador dentro do Palácio do Planalto que faz a divulgação, claro que pode ser quebrado. Não podemos quebrar se não tiver prova. Tendo provas, nós vamos correr atrás", afirmou, ao Estado, o presidente da CPI, senador Angelo Coronel (PSD-BA).

Ainda segundo Coronel, a CPI vai apurar se há dinheiro público bancando a disseminação de notícias falsas a partir do Palácio do Planalto. "Obviamente, nós vamos correr atrás para ver se é dinheiro público que está sendo investido nessa prática. Se for, nós vamos indiciar os culpados e encaminhar para o Ministério Público Federal. E que aí se puna os verdadeiros culpados", disse.

Segundo Joice Hasselmann, o chamado "gabinete do ódio" é integrado ainda pelo assessor especial da Presidência da República Filipe Martins, que é próximo ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho "03" do presidente. O grupo, na versão da ex-aliada do Planalto, é um dos mais ativos propagadores de notícias falsas e difamações. "Estou mostrando o modus operandi, estou mostrando pessoas ganhando dinheiro público para atacar pessoas", disse a parlamentar durante o depoimento, na quarta.

A partir do depoimento da ex-líder do governo, técnicos do Ministério Público Federal (MPF), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do próprio Congresso, que atuam em conjunto com a CPI, iniciarão uma fase de aprofundamento de coleta de provas e de investigação dos fatos relatados pela deputada. "A partir daí, que se substancie a relatora. Vamos tentar fazer de tudo para fazer o banimento no País das fake news e dos perfis falsos. Não podemos mais permitir que as pessoas criem um perfil falso para atacar seus alvos. Temos é que fortalecer a democracia", afirmou Coronel.

A sessão que ouviu a deputada Joice Hasselmann durou mais de dez horas e foi marcada por muito bate-boca e troca de acusações entre as alas em disputa no PSL, os "bivaristas", ligados ao presidente da legenda, Luciano Bivar (PE), e os "bolsonaristas", próximos ao presidente. Todos os funcionários do "gabinete do ódio" foram convocados para prestar depoimento na CPI, mas ainda não há uma data para isso acontecer.

'Disparo custa 20 mil'

Um único disparo de mensagens por robôs custa, em média, conforme a parlamentar, R$ 20 mil. "De maneira, digamos, legal, comprovável imediatamente, (são destinados) praticamente R$ 500 mil, de dinheiro público, para perseguir desafetos. Essa é a função do 'gabinete do ódio'. Nós estamos falando de crime. Caluniar, difamar e injuriar são crimes previstos no Código Penal", disse a deputada, que também foi alvo de ataques de bolsonaristas.

Joice afirmou não saber quem financia tal cadeia de difamação, mas sugeriu à comissão que "siga o rastro do dinheiro porque estamos falando de milhões". Apesar de não apontar eventuais financiadores do esquema, a deputada declarou que boa parte das notícias falsas e campanhas difamatórias tem origem em gabinetes de políticos aliados do governo.

A ex-líder ainda acusou Eduardo e Carlos, filhos do presidente Bolsonaro, de pautarem a ação do "gabinete do ódio". Outro influenciador ligado ao grupo seria "o guru" Olavo de Carvalho. "Eu quero crer que o presidente não sabe disso", disse.

Ela afirmou que o próprio presidente tem publicações impulsionadas por robôs. "São quase 2 milhões de robôs seguindo dois perfis, sendo 1,4 milhão no perfil de Jair Bolsonaro e 468 mil no perfil de Eduardo Bolsonaro." O número tem por base um aplicativo que analisa se um perfil no Twitter é ou não falso.

Questionado sobre os trabalho da CPI na quarta-feira, enquanto visitava uma feira popular em Brasília, Bolsonaro afirmou não temer o resultado da comissão que investiga fake news. "Inventaram o 'gabinete do ódio' e alguns idiotas acreditaram. Outros idiotas vão até prestar depoimento", disse, em referência a Joice Hasselmann.

Procurado, o Palácio do Planalto não comentou a intenção de integrantes da CPI de pedir acesso a informações dos computadores de funcionários da Presidência da República.

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