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Correio Braziliense

Apesar da melhora econômica, queixas de eleitores preocupam Planalto

Apesar dos sinais de que a economia teria começado a melhorar, reclamações contra dificuldades do dia, como desemprego e custo de vida elevado, tornam-se mais constantes, inclusive, nas lives feitas pelo presidente. Para analistas, sensação de melhora não chega à população


postado em 09/12/2019 06:00

(foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil )
(foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil )
O presidente Jair Bolsonaro comemorou o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, que apontou avanço de 0,6% no período, mas a sensação de bem-estar na economia ainda está longe das pessoas. Apesar de pesquisas indicarem que a popularidade do presidente parou de cair, o número de eleitores que reclama nas lives que ele faz semanalmente está em alta. Muitos cobram emprego, melhor qualidade de vida e moradia, redução dos preços da carne e condições para empreender. Até bem pouco tempo, isso não era comum, o que acendeu uma luz amarela no Palácio do Planalto.


Quando Bolsonaro foi à Feira dos Importados, protegido por um cordão de seguranças, na última quarta-feira, a live feita no momento mostrou, apesar de muitos elogios, algumas queixas relacionadas à economia. “Meu presidente, larga esse povo de mão e dá um jeito de abaixar o preço da carne bovina, pelo amor de Deus”, reclamou Franceri Melo, morador de Manaus. “Meus filhos (estão) desempregados, trabalho não acham, alimento com preço alto, não devia ter votado em você, pois só se importa com os ricos”, criticou Ricacilda Mattos, moradora de Planura (MG).

Houve até quem questionasse uma promessa do presidente na área tributária durante as eleições. “Cadê a isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos? Essa promessa de campanha não será cumprida?”, indagou Josimar de Paola, de Teresina. “Senhor presidente, as microempresas estão sofrendo com esse mercado, não temos incentivo de nada, nem mesmo para contratar funcionários. Precisamos melhorar isso”, cobrou Dado Eduardo Edu, de Niterói (RJ).

Nas redes sociais ou nas ruas, as cobranças mostram que, apesar dos sinais de reação da economia, a maioria dos brasileiros ainda não sente melhora nas condições de vida, sobretudo os mais pobres. O governo reconhece que dinheiro no bolso é a solução para aumentar a sensação de bem-estar. Interlocutores na Presidência da República dizem que falta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, fazer “mais gols”. “Mas é preciso entender que, aos poucos, estamos saindo de um ciclo vicioso de medidas populistas e entrando em um ciclo virtuoso. As reformas estão sendo feitas, os estímulos ao mercado imobiliário estão sendo conduzidos com responsabilidade, e é questão de tempo que isso gere empregos”, pondera um assessor do Planalto.

O deputado Luis Miranda (DEM-DF), presidente da Frente Parlamentar Mista da Reforma Tributária, reconhece que a indústria está voltando a se aquecer, como mostra, por exemplo, o aumento da venda de veículos, mas avalia que isso decorre de um crescimento da demanda da classe mais rica. “O mesmo vale para o mercado imobiliário. Não há um crescimento na demanda distribuído entre diferentes classes sociais. O crédito continua farto para o rico, não para o pobre. O tributo sobre o consumo pesa, proporcionalmente, mais para o pobre do que para o rico. A desigualdade está aumentando, não o contrário”, critica.

A mediana das expectativas do mercado aponta para uma inflação de 3,52% em 2019, abaixo do centro da meta, com a taxa básica de juros (Selic) a 4,50%, a menor da história. Contudo, em um país com 12,4 milhões de desocupados, os dados mais positivos acabam sendo comprometidos, sem que a sensação de bem-estar seja sentida pela população em geral, pondera Miranda. “Muitos indicadores melhoraram, mas nenhum que atenda diretamente ao mais pobre. A equipe econômica ficou de enviar ao Congresso uma reforma tributária, e vamos encerrar o ano sem que tenha proposto a correção da tabela do Imposto de Renda, ou mecanismos de desoneração do consumo e da folha de pagamentos.”

Crédito

O deputado José Nelto (Podemos-GO), líder do partido na Câmara, acrescenta que toda a pauta econômica apresentada em tempo hábil pelo governo foi aprovada no Congresso. “Então, não podem reclamar disso. Agora, não terem mandado as reformas tributária, administrativa, e uma reforma do sistema financeiro foi um equívoco muito grande. É de grão em grão que se faz uma gestão. Vão deixar para 2020 e terão dificuldades por conta do ano eleitoral”, sustenta.

Embora a Selic sugira juros baixos no mercado, as elevadas taxas cobradas do consumidor em algumas das principais modalidades comprometem o acesso dos mais humildes ao crédito. É um dos motivos pelo qual Nelto é o principal líder partidário na Câmara a cobrar de Guedes, em várias ocasiões, uma ampla abertura do sistema financeiro. “Precisamos ter o modelo americano, com segurança jurídica, mudanças nas leis trabalhistas, a fim de garantir uma retração dos juros e dos impostos. E aí, sim, ter crédito e dinheiro para construção civil, o agronegócio, o comércio e os serviços. O Brasil precisa de crédito e dinheiro barato para a economia girar”, afirma.

O preço da carne, uma das principais fontes de proteína consumidas pelos brasileiros, é outro motivo de reclamação. O deputado Fausto Pinato (PP-SP), presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, reconhece o problema, mas acredita que, a médio prazo, os preços voltarão a se equilibrar. “O presidente foi bem na China e na Arábia e conseguiu a habilitação de mais plantas frigoríficas para o abastecimento desses mercados. A demanda externa cresceu, e a tendência é aumentar o gado de confinamento. Quem tem 100 cabeças vai começar a colocar 300. A consequência disso será a normalização do preço, mas não será algo rápido”, analisa.

 

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