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Correio Braziliense

Disputas ideológicas dificultam avanços na Cultura e na Educação

Briga por poder e trocas seguidas de integrantes fazem das pastas as mais problemáticas do governo. No ministério, as constantes polêmicas e os parcos resultados podem provocar a demissão de Abraham Weintraub


postado em 13/12/2019 06:00 / atualizado em 13/12/2019 08:22

Weintraub, no Twitter:
Weintraub, no Twitter: "Diante dos resultados positivos (...), esquerda e monopolistas entram em desespero" (foto: Lula Marques/Fotos publicas)
A Secretaria Especial de Cultura e o Ministério da Educação estão envoltos em intenso fogo cruzado que, admitem interlocutores no próprio governo, pode resultar na queda dos ministros da Educação, Abraham Weintraub, e do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. A palavra final será do presidente Jair Bolsonaro, que, no momento, nega qualquer intenção de executar trocas nos comandos das duas pastas. Mas a tendência, segundo fontes ouvidas pelo Correio, é que as quedas de braço continuem acirradas.

O cabo de guerra na Secretaria Especial de Cultura, que está sob o guarda-chuva do Ministério do Turismo, é o motivo pelo qual assessores especulam uma possível queda de Álvaro Antônio. Nomeada para a Presidência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a arquiteta Luciana Rocha Féres teve a nomeação suspensa em menos de 24h. Indicada pelo ministro, ela entrou no lugar de Kátia Bogéa, que, dizem na pasta, não deve voltar ao posto.

A suspensão da nomeação é atribuída ao secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, que tentou emplacar o arquiteto Olav Schrader, ligado ao grupo do escritor Olavo de Carvalho, “guru” de Bolsonaro. O nome, no entanto, foi barrado, creditado a vetos da Casa Civil. A mudança no Iphan mostra, para técnicos na Cultura, a força do secretário. Mesmo tendo sido voto vencido na nomeação do jornalista Sérgio Camargo para a Fundação Palmares, a aposta é que ele continua prestigiado. Camargo, que definiu a escravidão como “benéfica para os descendentes”, teve, nesta quinta-feira (12/12), a nomeação suspensa por Bolsonaro.

Outra recente demonstração de vigor político de Alvim foi na exoneração da agora ex-titular da Secretaria do Audiovisual (SAv), Katiane de Fátima Gouvêa. Indicada por ele, os dois deram as cartas e comandaram o processo de reestruturação na pasta. Durante a transição da secretaria do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo, eram sempre vistos próximos, conversando. “Foi dela o relatório de ações para extinguir a Ancine (Agência Nacional do Cinema)”, disse um técnico. A decisão de Alvim foi tomada com base em um parecer do Ministério Público Eleitoral (MPE), que reprovou as contas de Katiane Gouvêa quando ela foi candidata a deputada federal, em 2018, pelo PSD.

O secretário de Cultura suspeitou de Katiane Gouvêa e quis evitar riscos. No lugar dela, assume André Sturm, ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Na pasta, a decisão foi associada à declaração desta quinta-feira (12/12) de Bolsonaro sobre corrupção no governo. “Se aparecer (corrupção), boto no pau de arara o ministro. Se ele tiver responsabilidade, obviamente, porque, às vezes, lá na ponta da linha, está um assessor fazendo besteira sem a gente saber. Não é isso? É obrigação nossa, é dever”, avisou.

A ala ideológica do governo que protege Alvim, ligada a Olavo de Carvalho, é a mesma que o fortalece em relação a Álvaro Antônio e que coloca uma pulga atrás da orelha de Weintraub. O secretário de Alfabetização do Ministério da Educação, Carlos Francisco Nadalim, é sócio do dono do site Brasil sem Medo, Arno Alcântara Junior, conforme informou o Estadão. O portal foi lançado por Olavo de Carvalho, que, por sua vez, ganhou espaço no horário nobre da TV Escola, canal ligado ao ministério.

O espaço dedicado ao sociólogo e as suspeitas envolvendo a influência de Nadalim no governo — sendo sócio da empresa Alcântara e Nadalim Cursos On-Line Ltda. — deixaram Bolsonaro desconfortável. Um interlocutor diz que o presidente vem sendo cobrado por líderes evangélicos e por partidos influentes, como o DEM, que tenta emplacar o ex-ministro Mendonça Filho na pasta. Detentora de R$ 117 bilhões, o segundo maior orçamento da Esplanada dos Ministérios — só perde para a Saúde, com R$ 123 bilhões —, a pasta é uma das mais cobiçadas.

Confusões

O combate ao que o governo atribui como “marxismo cultural” é elogiado pelo governo, mas o excesso de polêmicas provocadas por Weintraub e a cobrança por mais resultados na pasta jogam contra o ministro. “O ministério está com contratos parados, e o ministro tem polemizado mais do que apresentado soluções para a política educacional”, ponderou um assessor.

Não é de agora que o Ministério da Educação e a Secretaria Especial de Cultura são dores de cabeça para o governo. Na condução da política educacional, não apenas Weintraub é o segundo a comandar a pasta, depois do educador Ricardo Vélez Rodríguez, como a Presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) já teve quatro gestores. Ao longo do ano, assessores foram exonerados e continuam sendo — inclusive nomes de confiança do próprio Weintraub. Já a política cultural está, com Alvim, em sua terceira gestão.

Há, contudo, quem faça ressalvas em relação a Weintraub e lembre que ele lidou com um período de descontingenciamento de parte de seus recursos. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), por exemplo, saiu em defesa e classificou como boato a possibilidade de demissão do gestor. “Como demitir um ministro que (é) contra ideologia de gênero, entregou centenas de ônibus escolares com acessibilidade, deu liberdade para estudantes fazerem sua carteirinha, fez escolas cívico-militares e (executou o) Enem 100%”, comentou nesta quinta-feira (12/12), no Twitter.

 

Ver galeria . 11 Fotos Abraham WeintraubImagens de: Cleia Viana/Câmara dos Deputados - Lula Marque/Fotos publicas - Marcelo Camargo/Agência Brasi
Abraham Weintraub (foto: Imagens de: Cleia Viana/Câmara dos Deputados - Lula Marque/Fotos publicas - Marcelo Camargo/Agência Brasi )

Pedido de impeachment

Por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, o plenário da Corte vai julgar a admissibilidade do processo de impeachment contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Em agosto deste ano, parlamentares da Rede entraram com ação na Corte contra Salles, acusando o ministro de crime de responsabilidade por omissão em relação ao avanço do desmatamento na Amazônia. Agora, caberá ao presidente do STF, Dias Toffoli, definir uma data para levar o pedido a julgamento. A tendência é que o recurso seja pautado apenas para 2020, visto que resta somente uma sessão plenária para este ano, a ser realizada na próxima quarta-feira.

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