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Correio Braziliense

Bolsonaro ataca Witzel, MP e jornalista: ''Cara de homossexual terrível''

Presidente se mostrou irritado ao longo da manhã ao ser questionado sobre as investigações contra o filho e senador Flávio Bolsonaro


postado em 20/12/2019 11:30 / atualizado em 20/12/2019 14:54

Entre acusações e refutações a Witzel e ao MP carioca, Bolsonaro mesclou respostas em tons mais calmos e mais agressivos(foto: Evaristo Sá/AFP)
Entre acusações e refutações a Witzel e ao MP carioca, Bolsonaro mesclou respostas em tons mais calmos e mais agressivos (foto: Evaristo Sá/AFP)
O presidente Jair Bolsonaro saiu em defesa do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), suspeito de ser chefe de organização criminosa que desviava dinheiro pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O chefe do Executivo federal defendeu o negócio que o filho tem como sócio de uma famosa franquia de chocolates e disse que “ninguém lava dinheiro em franquia”.

Ele também acusou o MP carioca e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) de empregar como funcionária fantasma a filha do juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, da 27ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. O magistrado foi o responsável por ter quebrado sigilos telefônico, fiscal e bancário de suspeitos.

Entre acusações e refutações a Witzel e ao MP carioca, Bolsonaro mesclou respostas em tons mais calmos e mais agressivos. “Tô (sic) respondendo, fica quieto. Deixa eu falar, porra”, disse, ao rebater um repórter que o questionou enquanto criticava Witzel e a imprensa, por, supostamente, não ouvir o governador sobre as suspeitas em torno dele.

“O processo (tramita em) é segredo de justiça ou não? Respondam. Respondam, porra. É segredo de justiça ou não?”, vociferou em outro momento, ao questionar sobre as investigações envolvendo Flávio. Os comentários foram feitos nesta sexta-feira (20/12), na saída do Palácio da Alvorada.

Em outro momento, ao ser questionado por um repórter sobre o que faria se Flávio tiver cometido algum deslize, Bolsonaro tergiversou e respondeu evasivamente em um tom provocativo um jornalista. “Você tem uma cara de homossexual terrível, mas, nem por isso, te acuso de ser homossexual. (...) Falam “se”, “se”, “se” o tempo todo”, criticou.

Em outro momento, Bolsonaro voltou a admitir ter repassado R$ 40 mil à mulher, Michelle Bolsonaro — e não R$ 24 mil — por meio de cheques feitos por Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, mas negou ter alguma nota comprovando o empréstimo.

Questionado sobre o comprovante, Bolsonaro voltou a provocar um jornalista. “P****, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo. Você tem a nota fiscal desse negócio contigo no braço? Não tem. Tem a nota fiscal no teu sapato? Não tem, porra. Você tem lá no teu carro? Talvez tenha lá, mas não a nota fiscal”, retrucou. Nesse momento, comentou da relação que tem com Queiroz, mas deixou claro que ele responda por eventuais crimes se tiver feito “besteira”.

A relação entre Bolsonaro e Queiroz vem desde 1985, admitiu o presidente. “Eu conheço o Queiroz desde 85, nunca tive problema com ele. Pescava comigo, andava comigo pelo Rio, eu tinha que ter um segurança comigo. Ele andava com meu filho. E daí, de repente, se ele fez besteira, que responda pelos atos dele. (...) Foi meu soldado na brigada paraquedista. Se ele cometeu algum deslize, ele que responda, não eu”, destacou. 

 

Lavagem de dinheiro

De acordo com o MP-RJ, Queiroz recebeu mais de R$ 2 milhões em 483 depósitos feitos por 13 assessores ligados a Flávio, na época em que era deputado estadual da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Já Flávio é acusado de ter lavado até R$ 2,3 milhões com transações imobiliárias e com a franquia de chocolates em que é sócio, uma loja localizada em um shopping da Barra da Tijuca, zona oeste da cidade. Do volume supostamente “lavado”, a suspeita é de que R$ 1,6 milhão tenha sido feito pelo estabelecimento.

O presidente, contudo, nega que o filho tenha lavado dinheiro na loja de chocolates. “Arrombaram a loja de chocolates do meu filho. Mas se ele tivesse, se tivesse, se tivesse algo errado, teria assumido? Outra, as franquias são controladas. Não é o cara abre a franquia e a matriz abandona. Ninguém lava dinheiro em franquia”, declarou, emendando com uma história hipotética para justificar eventuais transações suspeitas. “Se aparecer uma servidora botando R$ 60 mil na minha conta, vão arrebentar comigo. Vão ou não vão? E se no dia seguinte eu mostro que vendi um carro para ela, a besteira tá feita. Estão fazendo isso. Desde o ano passado investigam meu filho e não acharam nada”, acusou.

Outra suspeita do MP-RJ envolvendo Flávio, de depósitos bancários de R$ 2 mil, foi respondida por Bolsonaro. “Foi acusado pelo MP do Rio de ter botado, fracionadamente, depósitos de R$ 2 mil no caixa eletrônico no banco. O depósito de R$ 2 mil é o limite para ser colocado via caixa eletrônico. Ele mexe com casa de chocolates”, comentou.

De acordo com Bolsonaro, os ganhos com a franquia justificam o volume financeiro movimentado pela loja. “Daí acusaram ele, também, de estar ganhando mais na casa de chocolates. Quem leva mais cliente lá — e ele leva um montão de gente para lá, ganha mais. Mesma coisa de chegar aí pro Neymar. Por que ganha mais que os outros? Porque ele é mais importante. Não é comunismo”, rebateu. 

 

01 do Witzel

A origem dos supostos crimes cometidos por Flávio tem origem nas suspeitas de práticas de “rachadinhas”, prática em que assessores de parlamentares devolvem parte de seus salários ao assessorado. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), então no Ministério da Justiça, identificou movimentações atípicas envolvendo 22 deputados estaduais da Alerj, entre eles, o filho de Bolsonaro.

Entre os parlamentares presentes na lista, lembra Bolsonaro, está o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), aliado de Witzel. Ele é suspeito de ter lotado em seu gabinete funcionários cujas movimentações financeiras são incondizentes com os vencimentos. De acordo com o Coaf, três funcionários ligados ao gabinete teriam movimentado cerca de R$ 45 milhões entre 2011 e 2017.

Ao responder se considera Flávio inocente, Bolsonaro disse que não é juiz e evitou fazer juízo sobre o caso. Mas citou, sem menção nominal, Ceciliano. “Vários parlamentares via algum assessor tinham movimentações atípicas. O Flávio é o 17º. Vocês já assinaram uma matéria sobre o 01 da Alerj? Não fizeram, poxa. O 01 é aliado do Witzel, inclusive. É do PT. Foi eleito presidente da Alerj, tem uma linha contrária a de vocês, com R$ 50 milhões. Se alguém desviar R$ 1 real é culpado”, comentou. 

 

Witzel, MP e Itabaiana

O governador do Rio foi citado nominalmente por Bolsonaro em sete ocasiões e o MP-RJ, cinco. Em tom crítico ao Ministério Público, o presidente sinalizou que é a primeira grande operação feita, sugerindo que há uma perseguição contra o filho. “Você já viu o MP do estado do Rio de Janeiro investigar qualquer pessoa, qualquer corrupção, qualquer deslize e agente público do estado? Olha que o estado mais corrupto do Brasil é o Rio de Janeiro. Vocês já viram? Não viram, né”, criticou.

A reclamação ao MP foi sucedida por suspeitas atribuídas a Witzel. “Vocês (imprensa) perguntaram para o governador Witzel por que a filha do juiz Itabaiana tá empregada com ele? Pelo que parece, não vou atestar aqui, é fantasma. Já foram em cima do MP para saber se vai investigar o Witzel? Já repararam que, na véspera desse novo caso do Flávio, a Polícia Federal mostrou em uma operação na Paraíba onde lá um dos delatores falaram que Witzel pegou R$ 115 mil de caixa dois para campanha? Bem como a loteria da Paraíba faz um negócio na Loterj, lá no Rio de Janeiro. Por que o governador não fala nada?”, comentou.

O presidente lembrou, ainda, o caso envolvendo um porteiro de um condomínio onde tem uma residência, na Barra da Tijuca. À Polícia Civil do Rio, o funcionário disse que autorizou a entrada de Élcio de Queiroz, um dos suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes após conversar com um “seu Jair”. À Polícia Federal, contudo, mudou a versão em outro depoimento. “A Polícia Civil dele (Witzel) armou para o porteiro do meu condomínio, que os dois suspeitos de matar a Marielle ligaram na minha casa na quarta-feira. Vocês já foram perguntar para o governador Witzel sobre essa questão?”, indagou.

O juiz Flávio Itabaiana também foi criticado por Bolsonaro, que associou a decisão dele em quebrar os sigilos a um conluio com o governador do Rio. “Não dá para ver que é conduzido? Perguntaram para o juiz Itabaiana como que ele quebra 93 sigilos em cinco linhas? Fizeram busca e apreensão de casa de pessoa que não tinha nada a ver com isso”, protestou. 

 

 

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