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Correio Braziliense

Bolsonaro dá mais espaço a militares no Planalto do que à "ala olavista"

Além de trocar Onyx Lorenzoni pelo general Braga Netto, na Casa Civil, Bolsonaro nomeia outro militar para o Palácio, o almirante Flávio Augusto Viana Rocha, que comandará a Secretaria de Assuntos Estratégicos


postado em 15/02/2020 07:00 / atualizado em 15/02/2020 13:29

Flávio Rocha (D) era comandante do 1º Distrito Naval, no Rio de Janeiro: SAE deixará a Secretaria-Geral(foto: Teresa Sobreiro/Ministerio da defesa)
Flávio Rocha (D) era comandante do 1º Distrito Naval, no Rio de Janeiro: SAE deixará a Secretaria-Geral (foto: Teresa Sobreiro/Ministerio da defesa)
Além da nomeação do general Walter Souza Braga Netto como ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República — o que fez com que Onyx Lorenzoni fosse deslocado para o Ministério da Cidadania —, o Diário Oficial da União (DOU) desta sexta-feira (14/2) trouxe a integração de mais um militar ao Palácio do Planalto. Desta vez, para a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). É o almirante Flávio Augusto Viana Rocha. Ele substituirá o exonerado Bruno Grossi. Até então, a pasta estava subordinada à Secretaria-Geral, comandada pelo ministro Jorge Oliveira.

Com a ala militar ganhando cada vez mais terreno, a leitura é que Bolsonaro busca desenhar no seu núcleo duro do Palácio do Planalto uma diretriz de mais ordem e hierarquia. Ao mesmo tempo, as mudanças mostram um certo distanciamento da turma favorável ao escritor Olavo de Carvalho e causam indisposição com o setor evangélico, que também esperava ter acesso a cargos na Casa Civil.

A SAE, responsável por assessorar a Presidência da República na definição de estratégias para a formulação do planejamento nacional, foi tirada da Secretaria-Geral e está sob subordinação direta ao chefe do Executivo.

Agora, entre as atribuições de Flávio Rocha estão, também, a coordenação da Assessoria Especial da Presidência e o assessoramento de assuntos internacionais, auxiliando no planejamento e na execução das viagens internacionais de Bolsonaro, além da preparação de material de informação e de apoio para encontros e audiências com autoridades e personalidades estrangeiras.

Na semana passada, em uma live, o almirante acompanhou, ao lado de Bolsonaro, o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, absolvido em processo de impeachment. Nesta sexta-feira (14/2), ele esteve com o chefe do Executivo no Pará, para participar da inauguração do trecho de pavimentação da BR-163. Onyx Lorenzoni foi ao evento.

Estratégia

A dança das cadeiras, promovida por Bolsonaro, tem também outro objetivo: blindar as ambições políticas no entorno palaciano. Ele já chegou a dizer que daria “cartão vermelho” a ministros que usassem o cargo para favorecimento eleitoral. A fala pode ser entendida como uma sinalização direta ao ministro Onyx Lorenzoni, que mantinha uma agenda voltada para o Rio Grande do Sul.

“Qualquer ministro que, porventura, queira usar o ministério e, em vez de atender o Brasil, atender seu estado, seu município, está fadado a levar um cartão vermelho”, afirmou. Nos bastidores, a informação é de que Lorenzoni deixava a desejar por não conseguir gerenciar o ministério. O presidente não o dispensou, porém, porque o estima pelo apoio recebido desde os tempos em que era deputado federal.

Separação

Com a militarização do Planalto, o vice-presidente Hamilton Mourão fez questão de deixar claro: as Forças Armadas e o governo são entidades diferentes e não devem ser responsabilizadas por “eventuais erros e acertos” do Executivo, destacou.

“Essa é uma preocupação que a gente tem desde o começo do nosso governo. A gente tem de deixar claro que as Forças Armadas continuam do lado de fora, apesar de nós termos a presença de elementos do meio militar”, ressaltou. “Mas as Forças Armadas estão fora, na mão dos seus comandantes. E isso a gente tem de deixar muito claro o tempo todo, porque eventuais erros e acertos do nosso governo não podem ser debitados na conta delas (Forças Armadas).”

Para o professor emérito de ciências políticas da UnB David Fleischer, os militares tentarão “pôr ordem no galinheiro”. “Braga Netto é um homem bem conhecido e conseguiu alguns resultados como interventor no Rio. Pode ser benéfico. Eles têm um bom treinamento e não têm tanta experiência com a política civil, subentende-se que não têm ligações políticas negativas”, apontou.

Na opinião do cientista político Rodrigo Prando, um aspecto negativo da militarização do Planalto está em um eventual rompimento com a ala. “A grande questão é que vamos percebendo que os aliados dele, especialmente civis, foram ficando pelo caminho. Foi assim com Bebianno (Gustavo Bebianno, exonerado da Secretaria-Geral no começo do ano passado), Joyce Hasselman (deputada). Parece que Bolsonaro fica muito confortável junto a seus familiares, filhos e militares. Se houver rompimento com militares, quem sobra para ele negociar?”, questionou.

 

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Reeleição é natural

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, nesta sexta-feira (14/2), durante a cerimônia de inauguração da pavimentação de um trecho de 51km da BR-163, no Pará, que “reeleição é algo natural”. “Governar é eleger prioridades e não deixar obras paradas nem inventar obras para aparecer e se reeleger lá na frente”, frisou. “Eu não estou preocupado com a reeleição. Reeleição é algo natural. Se você trabalhar, ela vem.”

Caminhoneiros que escoam a produção agrícola de Mato Grosso até o porto de Miritituba demoram mais de uma semana para percorrer um trecho de pouco mais de mil quilômetros, que liga as duas regiões. Agora, com a pavimentação, esse tempo será reduzido.

“Os caminhoneiros mereciam que essa rodovia fosse pavimentada, eles mereciam essa consideração do Estado brasileiro com eles”, disse o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes. A pasta foi responsável pela execução da obra. Ele prometeu concluir também a pavimentação de outras rodovias, como a BR-158, a BR-174 e a BR-230.

Indígenas

Na mesma cerimônia, Bolsonaro voltou a defender o projeto de lei que regulamenta a mineração e a geração de energia elétrica em terras indígenas. “Não demarcamos, nos últimos 13 meses, uma só terra indígena. Nós já temos 14% do território nacional demarcado. Criaram uma verdadeira indústria da demarcação”, criticou. “Gostamos, queremos o bem. Amamos nossos irmãos índios, mas a política implementada, até o ano retrasado, era totalmente equivocada, atendia a interesses de outros países.”

Ele voltou a se referir ao presidente da França, Emmanuel Macron, e às críticas que recebeu em meio às queimadas na Amazônia, no ano passado: “Não é à toa que um chefe de Estado atirou de modo figurativo em mim. A Amazônia é nossa, mas não vai continuar sendo problema para nós.”

Bolsonaro embarca neste sábado (15/2) à tarde para o Rio de Janeiro, onde participará da inauguração da alça de ligação da Ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha/RJ e da cerimônia de celebração de 40 anos da Igreja Internacional da Graça de Deus. Ele retorna à noite para Brasília. (IS e Agência Brasil)

Exército

A rodovia, importante via que liga Mato Grosso a portos do Rio Tapajós, no Pará, começou a ser construída na década de 1970, mas só foi concluída ao longo do último ano. A obra foi executada por dois batalhões de engenharia e construção do Exército, que resultou no asfaltamento dos últimos 51 quilômetros que faltavam. 

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