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Economistas veem riscos de uma recessão profunda na atividade econômica

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro minimizar a crise do coronavírus, especialistas estimam que a atividade econômica vai recuar até 10% em 2020. Especialistas não descartam uma depressão severa, com o derretimento do PIB do país e o aumento do desemprego

Rosana Hessel
postado em 23/03/2020 06:00

A economista Monica de Bolle defende uma rede maior de proteção aos mais pobresEnquanto o presidente Jair Bolsonaro desinforma a população classificando a Covid-19, pandemia provocada pelo novo coronavírus, como uma ;gripezinha;, economistas sérios do Brasil e do mundo alertam para o fato de que a crise sanitária e econômica que está se formando pode ser a mais grave de todos os tempos. Com os número de casos e mortes crescendo de forma exponencial, analistas estão reduzindo suas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de vários países com mais frequência. Cresce o número de quem não descarta uma depressão, ou seja, recessão profunda na atividade econômica, com graves impactos negativos nas empresas, no sistema financeiro e nos empregos dos brasileiros.


Uma recessão prolongada pode elevar o número de desempregados no país de 12 milhões para 18 a 20 milhões rapidamente. Isso poderá comprometer o principal motor da economia brasileira: o consumo das famílias, que responde por mais de 60% do PIB e que desacelerou em 2019. As dúvidas sobre quando e se houver uma retomada são crescentes uma vez que a economia doméstica está estagnada desde 2017 e o governo não tem capacidade de investimento porque está há sete anos com as contas públicas no vermelho. A certeza agora é de derretimento do PIB.


O economista e consultor Alexandre Schwartsman resume bem o que um cenário de depressão representa: ;Recessão é quando o vizinho perde o emprego e depressão, quando você perde o emprego.; Ele faz um alerta para os dados do mercado de trabalho que devem ser divulgados daqui para frente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) devido ao confinamento das pessoas. ;Como os pesquisadores não poderão ir às ruas para coletar dados, os resultados serão prejudicados e, certamente, teremos um cenário pior de desemprego do que o que será mostrado nas próximas Pnads (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios);, resume.

Projeções
Pelas projeções da economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de Washington, o país vai mergulhar em uma depressão econômica uma vez que o PIB deverá encolher 6% neste ano mesmo com as medidas anunciadas pela equipe econômica. ;É preciso muito mais;, afirma. Ela defende uma rede maior de proteção aos mais pobres e um melhor uso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na concessão de linhas de crédito para o setor produtivo.


O economista José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), é ainda mais pessimista: o PIB brasileiro pode encolher 10% neste ano. ;Essa crise terá efeitos persistentes sobre as economias de todos os países do mundo. Haverá um mergulho profundo no nível de atividade devido ao choque de oferta e o setor de serviços será o mais prejudicado. A indústria de bens duráveis também sentirá um impacto maior, porque ninguém compra carro, geladeira em uma situação dessas. Em termos de magnitude, vamos ter uma queda similar à Depressão de 1929;, estima.


Analistas consideram o pacote de medidas do governo, apesar de atrasado, correto mas insuficiente. Enquanto o governo Bolsonaro prevê injetar R$ 179,6 bilhões no mercado, nos Estados Unidos, as intervenções podem chegar a US$ 2 trilhões. Vale lembrar que várias medidas do governo brasileiro não são imediatas, porque dependem do Congresso, e as que não têm impacto fiscal porque tratam-se de adiantamento de recursos dos trabalhadores, como o 13; dos aposentados ou mesmo uma nova liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) que está sendo cogitada.
No caso do voucher de R$ 200 para os autônomos, que somam R$ 38 milhões, Oreiro avalia uma proposta ;ridícula;. ;O trabalhador do setor informal ganha, em média R$ 1,5 mil, ficará com a renda zerada. Esse dinheiro é pouco e não vai minimizar o problema;, afirma. Ele considera mais adequado uma renda mínima emergencial no valor de um salário mínimo (R$ 1.045), que custaria R$ 120 bilhões, ou 1,6% do PIB, pelas contas do professor da UnB.

Colapso
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sinaliza que o sistema de saúde pode entrar em colapso em abril. Os economistas ouvidos pelo Correio avisam que o segundo trimestre será o mais crítico do ano, porque é quando haverá uma queda muito forte no PIB, podendo superar 10%, em algumas previsões. O consenso entre os analistas é que a recessão global e no Brasil está contratada.


Pelas estimativas do Itaú Unibanco divulgadas na sexta-feira, o PIB mundial deverá encolher 0,4% enquanto o da China deverá crescer 3,3% em vez de 5,3%. Enquanto isso, Europa vai encolher 2% e a América Latina, 2,2%. O banco também reduziu a previsão para este ano para o PIB brasileiro de um crescimento de 1,8% para queda de 0,7%, mas reconhece que é possível considerar um recuo maior do que 1%. Grandes bancos norte-americanos, como Goldman Sachs e JP Morgan, estimam queda no PIB do Brasil de 0,9% e 1%, respectivamente. Todas essas previsões são bem piores do que a alta de 0,02% que o Ministério da Economia está prevendo para evitar apresentar um rombo fiscal maior do que R$ 200 bilhões nas contas públicas, e mesmo assim, o pior resultado da história.


Alberto Ramos, economista-chefe de pesquisas para América Latina do Goldman Sachs, considera que o cenário atual é de recessão global e, no caso do Brasil, o quadro é preocupante porque o governo tem muito pouco espaço fiscal para contornar a crise, pois não fez as reformas necessárias para enfrentar o momento atual. ;Foram três anos de discussões da reforma da Previdência e ainda ficou muita coisa por fazer. Não foram incluídos estados e municípios e muitos privilégios do setor público e de militares foram mantidos;, destaca. O banco prevê retração em quase todos os países latino-americanos e queda de 1,2% na região.


A economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, também reduziu a previsão do PIB deste ano e já considera recuo de 1,4% em vez de alta de 1,6%. Contudo, admite tombo maior, de 3,3%, no pior dos cenários, considerando que a paralisação na atividade ocorra durante 32 dias úteis. ;Estamos atravessando uma crise inédita e com efeitos que ainda não podemos mensurar exatamente. Mas uma coisa é certa, o mundo vai entrar em recessão;, explica Alessandra. Pelas novas estimativas da Tendências, as economias da Zona do Euro e dos Estados Unidos devem registrar contração de 0,7% e de 0,9%, respectivamente.

Modelo
Levantamento feito pelo Centro de Macroeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (Cemap-FGV-SP) não descarta que o efeito da crise deverá se estender até 2023. Portanto, não é hora de minimizar o problema e, sim, de ação das autoridades para estancar as perdas inevitáveis nessa recessão. O modelo a ser seguido, na avaliação do coordenador do estudo da FGV, Emerson Marçal, é o da Coreia do Sul, que testou toda a população rapidamente, tomou medidas duras no início do problema e já está conseguindo reverter o quadro mais crítico. ;Não é hora de pensar em gastar menos na área de Saúde, caso contrário, o prejuízo vai ser cada vez maior no PIB;, alerta.


Pela estimativa do economista, a retração econômica prevista no pior cenário do estudo para este ano, de 4,4%, o equivalente a R$ 320 bilhões na economia, é conservadora. ;Se o governo não agir rápido, o prejuízo será muito maior;, reforça. Apesar de estar prevendo PIB zero no momento para este ano, Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, adianta que está refazendo os cálculos e eles indicam queda superior a 1%, ;não sendo difícil de chegar a 4,4% de retração;. ;Vamos mergulhar em uma recessão fortíssima ou mesmo em uma depressão;, alerta.
Apesar de o presidente Jair Bolsonaro minimizar a crise do coronavírus, especialistas estimam que a atividade econômica vai recuar até 10% em 2020. Especialistas não descartam uma depressão severa, com o derretimento do PIB do país e o aumento do desemprego

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