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Maia: isolamento só de idosos pode "virar tragédia" em comunidades pobres

"Não é um plano que deve ser descartado, mas temos de saber como não criar uma tragédia, garantindo a circulação dos jovens sem contaminar os idosos", afirmou Rodrigo Maia, destacando a complexidade da medida para as comunidades mais pobres

Luiz Calcagno
postado em 26/03/2020 17:32
Vista de favela no Rio de JaneiroO presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou, em entrevista coletiva nesta quinta-feira (26/3), que o isolamento apenas para idosos durante a pandemia de Covid-19 é uma medida a ser considerada, desde que seja bem planejada, para não "criar uma tragédia". Na quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a medida, numa estratégia conhecida como isolamento vertical, em que apenas grupos de risco são postos em isolamento.

Maia disse que a maior dificuldade é proteger os idosos com renda mais baixa. "Para um isolamento vertical, devem ser tomadas várias medidas. Uma coisa é na elite. Quem tem renda já está isolado. Para quem tem condição, está assim. Mas e para os humildes, em apartamentos e casas de 30m;, 40m;, com cinco, seis pessoas morando juntas? Como faz para a pessoa ir para o trabalho, voltar e não contaminar o avô? Vai construir equipamentos públicos? Tem que pensar em conjunto", recomendou.

Só depois de levada em conta tal realidade o isolamento vertical poderá ser implementado, argumentou. "Por enquanto, na maioria dos casos, os contaminados vieram do exterior e estão em um bom hospital particular. Temos de saber como vai ser isso na (população de) baixa renda. Não é um plano que deve ser descartado, mas temos de saber como não criar uma tragédia, garantindo a circulação dos jovens sem contaminar os idosos."

Sem planejamento adequado, a medida pode ter resultado. "As pessoas vão trabalhar, vão voltar para casa, contaminar idosos, vai ter lotação dos hospitais, esgotamento, aumento de morte pelo vírus e por outros motivos. Teremos uma tempestade perfeita", previu.

"É uma questão que precisa ser planejada, e esse plano tem que ser coordenado pelo governo federal, pelo presidente da República, e estamos abertos ao diálogo", disse. Um poucos antes, pregou: "Está na hora do diálogo, de cada um de nós ter mais paciência, entre deputados, Poderes, dentro da nossa casa. A tensão gera conflito. Temos de ter paciência."

Segundo Maia, o ideal é o governo federal mandar um projeto de lei que preveja formas de garantir empregos, dar vida das empresas, fornecer previsibilidade para as famílias e garanta mais leitos de UTI. "Esse pacote terá que ser respaldado pelo parlamento. A decisão tem que chegar rápido. Não temos 15 dias. Que seja organizado, harmônico, e que o governo garanta a previsibilidade necessária para a tranquilidade da sociedade", completou.

Tom conciliador

Maia adotou um tom mais conciliador na entrevista, após uma quarta-feira de intensa troca de acusações entre a classe política, motivada pelo pronunciamento de Bolsonaro em cadeia nacional na terça-feira à noite. Na quarta-feira, o presidente disse que orientaria ao ministro da Saúde, Luiz Mandetta, o isolamento vertical, focado nos idosos e doentes.

O presidente da Câmara, então, reagiu, queixando-se da falta de previsibilidade nas ações do governo, uma vez que os discursos de Bolsonaro e de Mandetta não pareciam afinados. "O que a gente precisa é continuar seguindo orientação do Ministério da Saúde. E precisamos de previsibilidade. O que está faltando para todos é previsibilidade. Se o governo tivesse resolvido uma política de isolamento de idosos de comunidades do Rio de Janeiro e São Paulo, renda e emprego de quem recebe até o teto do INSS, teríamos previsibilidade para a maioria dos brasileiros, e todos estaríamos fazendo o isolamento e esperando os impactos da chegada do vírus", disse.

Nesta quinta-feira, além de fazer as considerações sobre o isolamento vertical, Maia anunciou que a Câmara deve aprovar um auxílio de R$ 500 para trabalhadores informais e defendeu mais medidas para proteger os trabalhadores e as micro e pequenas empresas. Para o deputado, o governo deve deixar de pensar tanto no ajuste fiscal em 2020.

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