Politica

O Brasil isolado do mundo

Atitudes de Jair Bolsonaro destoam frontalmente das ações adotadas por líderes mundiais. Enquanto a maioria dos chefes de governo determinam rigorosamente o isolamento social, chefe do Planalto desdenha da gravidade da doença e dá prioridade à economia

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 29/03/2020 04:04
Bolsonaro: máscara contra o %u201Cresfriadinho%u201D que já matou 114 no Brasil

Em sete dias, o Brasil viu os casos de infecção pelo novo coronavírus darem um salto de 143%. Há uma semana, as ocorrências de Covid-19 eram 1.604, e ontem, chegaram a 3.904. Acompanhando o crescimento, o número de mortes também é alarmante. Os 25 óbitos do domingo passado já subiram para 114 (aumento de 356%). Esse dados seriam suficientes para acender uma sirene de alerta no Palácio do Planalto, mas o presidente Jair Bolsonaro parece não se abalar com os acontecimentos. O risco maior no momento, para ele, é a onda de desemprego e de desaceleração da economia nacional. Por mais que as mortes venham, ele diz que ;o brasileiro tem que ir pra rua trabalhar;, em uma atitude que vai na contramão do que têm feito outros mandatários ao redor do mundo.

A pandemia atinge países de todos os continentes, o que mostra que o vírus não escolhe condições climáticas para se proliferar. Diante disso, lideranças políticas têm pedido às populações que adotem medidas de prevenção, sobretudo para evitar aglomerações. O isolamento social é a principal delas, com ordens de quarentena e até toque de recolher. Como consequência, estima-se que quase metade da população mundial esteja confinada contra o novo coronavírus: mais de três bilhões de pessoas estão impedidas de deixar as suas casas.

;A responsabilidade é de todos, especialmente das lideranças políticas. O governo inteiro deve estar envolvido. O vírus não vai ser parado apenas pelo setor de saúde. Todos os lados devem estar envolvidos;, alertou o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus. Essa coesão ainda está longe do ocorrer no Brasil.

Por mais que Bolsonaro tente diminuir a importância do isolamento em massa, o mundo inteiro segue as medidas restritivas. Na Europa, há uma intensa mobilização para o isolamento. O continente está com mais de 300 mil casos confirmados e 18 mil mortes. O bloco europeu fechou as fronteiras e países como Itália, Espanha, Reino Unido, Áustria, Portugal, Holanda, Suíça, Turquia, Alemanha, Noruega, Bélgica, Polônia, Grécia e França adotaram medidas para restringir a circulação de pessoas a nível nacional, como o fechamento de comércios e de escolas.

O presidente da França, Emmanuel Macron, tem dito que ;estamos em guerra, em uma guerra sanitária;. ;É claro que não lutamos contra um exército nem contra outra nação, mas o inimigo está aí, invisível e traiçoeiro, e avançando. Isso requer nossa mobilização geral;, alertou o francês. Já a chanceler alemã, Angela Merkel, destacou que o combate ao vírus é tão importante que o classificou como o maior desafio da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial. E enquanto Bolsonaro diz que a Covid-19 é um ;resfriadinho; que vai matar apenas os idosos, e que são ;insignificantes; eventuais óbitos de quem tem até 40 anos, Merkel bate na tecla de que ;ninguém é dispensável;.

;Todo mundo conta, e isso conduzirá todos os nossos esforços. Isto é o que uma epidemia nos mostra: quão vulneráveis nós todos somos, quão dependentes nós somos do comportamento dos mais vulneráveis, mas também como nós podemos proteger e fortalecer uns aos outros, agindo juntos. Isto depende de todos. Nós não estamos condenados a aceitar passivamente a disseminação do vírus. Nós temos um remédio: por consideração, devemos manter distância uns dos outros;, declarou a chanceler, em pronunciamento oficial.

Conservadores

Até mesmo os mandatários mais conservadores do mundo integraram o ;movimento; que destaca a importância do isolamento social como ferramenta de combate ao novo coronavírus. Na semana passada, o ultradireitista Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, por exemplo, decretou quarentena por 21 dias, que vai valer para uma população de 1,3 bilhão de pessoas. A decisão foi feita mesmo com o país não tendo registrado números muito elevados de contaminação e de óbitos: até ontem, eram 933 pessoas infectadas e 20 mortes. ;A única maneira de nos salvarmos do coronavírus é não sairmos de casa. Aconteça o que acontecer, fiquem em casa. Todo distrito, toda rua, toda aldeia ficará em quarentena;, garantiu o premiê, ao anunciar o isolamento.

Apesar de não estabelecer nenhuma medida de restrição social em nível nacional, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviou cartas a toda a população norte-americana com as ;Diretrizes de Coronavírus do Presidente Trump para a América;, na última semana. Atualmente, os EUA são o epicentro mundial da Covid-19: já são mais de 115 mil casos e mais de 1,9 mil mortes. No documento, Trump lista 10 recomendações a serem seguidas em decorrência da pandemia e faz um apelo: ;Mesmo se você for jovem, ou saudável, você está em risco e suas atitudes podem aumentar o risco para outras pessoas. É importante que você faça sua parte para reduzir o espalhamento do coronavírus;. A mensagem é o oposto do que prega Bolsonaro, que acredita no seu ;histórico de atleta; como escudo ao vírus.

Entre as diretrizes, há uma que pede que os norte-americanos escutem e sigam as determinações dos estados e autoridades locais. Outra recomendação sugere que a população trabalhe e estude de casa sempre que possível. Devem ser evitadas reuniões sociais e em grupos com mais de 10 pessoas, bem como viagens desnecessárias, para compras ou turismo. Trump também recomenda isolamento total da família caso haja a confirmação de um caso de Covid-19.

Alerta

A depender das decisões do chefe do Palácio do Planalto, o Brasil pode presenciar o mesmo que ocorreu em Milão, onde, há um mês, o prefeito local, Giuseppe Sala, propagou a campanha ;Milão não para;. À época, a região da Lombardia, onde fica Milão, tinha 250 pessoas com Covid-19 e 12 mortes. Agora, a região é a mais atingida na Itália pela Covid-19: são pelo menos 39.415 infectados e 5.944 óbitos. Só em Milão, 7.783 já foram contaminados e 314 morreram. Na semana passada, Sala reconheceu o erro.

Especialistas alertam para os riscos do descaso presidencial com o agravamento da Covid-19. O cientista político Ian Bremmer, presidente e fundador da Eurasia Group, consultoria especializada na análise de riscos políticos globais, classificou Bolsonaro como ;o líder mundial mais ineficiente na resposta ao coronavírus;. ;Ele está detonando os governadores que estão tomando medidas de bloqueio. Danificará seriamente seu mandato;, analisou, em uma rede social.

Já a economista Monica de Bolle alertou que a ;irresponsabilidade; do presidente ;levará a milhares de mortes evitáveis;. Para ela, é ;falaciosa; a ideia de que é melhor deixar a economia respirar sem a adoção de medidas sanitárias. Se isso acontecer, pontuou ela, ;as pessoas vão morrer muito mais do que em qualquer situação em que se tenha os controles adequados que os infectologistas estão recomendando mundo afora;.

;A única opção que existe é deixar as medidas sanitárias no lugar. Nesse quadro em que não há medida sanitária sendo erguida, você tem o total colapso do sistema de saúde do país e, evidentemente, colapso social, colapso político e colapso econômico. Se o Brasil resistir (contra o isolamento social), o que vai acontecer é um cenário de catástrofe ou algo muito parecido. Ou seja, a gente teria que reconstruir o país inteiro depois disso;, afirmou de Bolle.

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