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Correio Braziliense

Bolsonaro admite que publicou fake news e pede desculpas por postagem

Um dia depois de um pronunciamento considerado equilibrado, Bolsonaro se desdiz, posta imagens de um irreal desabastecimento na Ceasa de BH, e é desmascarado. Postagem foi removida e presidente disse que não checou veracidade


postado em 02/04/2020 06:00

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Poucas horas depois de mudar o tom do discurso e pedir, em pronunciamento à nação, um pacto nacional contra o avanço do novo coronavírus, Jair Bolsonaro voltou a atacar as medidas de isolamento social, recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde para proteger a população. Sem citar nomes, o presidente compartilhou, ontem, nas redes sociais, um vídeo para criticar os governadores e prefeitos que cumprem as normas sanitárias. Após a descoberta de que a postagem era uma fake news, o vídeo foi apagado, mas os internautas não perdoaram e criaram o #BolsonaroDay, em alusão ao 1° de abril, o Dia da Mentira. Foi um dos assuntos mais comentados no Twitter. À noite, em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, o presidente se desculpou pela postagem e justificou por que a retirou da sua conta. Também usou o Facebook para se retratar.

“Não é um desentendimento entre o presidente e alguns governadores e alguns prefeitos. São fatos e realidades que devem ser mostradas. Depois da destruição, não interessa mostrar culpados”, escreveu o presidente, ao compartilhar um vídeo que, supostamente, mostrava um desabastecimento na Ceasa de Belo Horizonte (MG) no dia de ontem.

Nas imagens, um homem reclamava da situação. “Não vamos esquecer não, tá. A culpa disso aqui é dos governadores porque o presidente da República está brigando incessantemente para ter uma paralisação responsável”, dizia o autor do vídeo.

Porém, a Rádio CBN noticiou ter descoberto que a gravação foi feita num horário de limpeza do local, quando a movimentação na Ceasa é pequena. Ontem, a emissora publicou no Twitter um vídeo para mostrar que não estava havendo desabastecimento na Ceasa de BH. Imagens aéreas da Rede Globo também foram transmitidas para desmentir a postagem do presidente da República. Após a repercussão nas redes sociais, Bolsonaro apagou o post.

Críticas
Essa nova controvérsia, criada no dia em que o país contabilizou 242 mortes e 6.880 casos de Covid-19, reforçou as incertezas sobre os reais objetivos do presidente e foi alvo de um turbilhão de críticas. Uma das mais contundentes foi a do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ): disse que Bolsonaro “não é apenas dono de endereço no twitter”, mas o chefe do Executivo Federal, e precisa ser mais “cuidadoso”.

“Ontem [terça-feira], o discurso do presidente foi elogiado por muitos. Muitas pessoas que defendem o presidente elogiaram o discurso. Tem uma parte importante da sociedade que quer o diálogo, não quer os conflitos. Ele foi na linha. Mas, hoje, o tuíte foi contra o que ele colocou. Essas informações desencontradas geram preocupação em toda a sociedade”, disse Maia.

“E o Twitter do presidente deveria ter esse cuidado maior em relação ao que posta. Ele é o presidente da República, e quando fala pelo twitter, fala como presidente. Um cuidado maior com os posts ajuda. Vindo do presidente, passa como informação verdadeira e pode gerar preocupação e pânico maior na sociedade”, alertou o parlamentar.

Horas depois, Bolsonaro pediu desculpas, durante entrevista ao Datena, da Band TV, por ter postado o vídeo falso: “Eu quero me desculpar. Não houve a devida checagem do evento. Pelo que parece, aquela central de abastecimento estava em manutenção. Então, quero me desculpar publicamente. Foi retirado o vídeo rapidamente e acontece. A gente erra na notícia e eu tenho humildade em me desculpar sobre isso aí. Agora, em parte, tivemos contato com a Ceasa, a Ceagesp, em São Paulo,  tem caído realmente o fluxo de entrada de alimentos. Espero que não caia mais do que já caiu porque, quando se fala em hortifrúti, até conversei com Tereza (Cristina, ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) hoje, se chegar ao ponto de haver interrupção da produção, se leva de 60 a 90 dias para voltar a normalidade no tocante ao hortifruti e granjeiros”.

Pelo Facebook, Bolsonaro tornou a pedir desculpas: “Foi publicado em minhas redes sociais um vídeo que não condiz com a realidade para com o Ceasa/MG. Minhas sinceras desculpas pelo erro”, escreveu. E postou um vídeo da real situação da Ceasa, com movimento dos feirantes.

Em vídeo, Noé Xavier da Silva, presidente da Associação Comercial da Ceasa, rebateu a fake news e negou que estivesse ocorrendo o desabastecimento. “Ontem, 31 de março, enquanto a Ceasa Minas realizava a limpeza do mercado livre do produtor, circulou um vídeo na internet indicando desabastecimento em nosso entreposto. Esse fato não é verdade. O mercado segue firme para garantir a alimentação de mais de 400 municípios em Minas Gerais”, garantiu.

A assessoria de comunicação da Ceasa garantiu que não há falta de produtos e o abastecimento segue normamente. Medidas também foram adotadas para evitar o coronavírus, como a higienização dos boxes e dos locais onde são comercializados os produtos. Desde o dia 23, menores de 14 anos e maiores de 60 também não podem frequentar as instalações.

Senador elogia mudança de postura
O senador major Olímpio (PSL-SP) classificou como positivo o discurso de Jair Bolsonaro, transmitido em cadeia nacional na terça-feira, por ter amenizado sua posição sobre as medidas de prevenção contra o coronavírus. Mas considerou errado ter usado declarações do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, para justificar a tese pessoal do presidente de que a quarentena não pode afetar a economia a ponto de prejudicar as camadas mais pobres da população. Em entrevista ao programa CB.Poder, uma parceria do Correio com a TV Brasília, Olímpio deu pouca importância aos panelaços durante os pronunciamentos do presidente –– para ele, é algo da democracia. “Quem está na chuva é pra se molhar mesmo. Há um segmento da sociedade questionando Bolsonaro”, frisou.

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