Politica

Ao negar isolamento, Bolsonaro mancha ainda mais imagem do país no exterior

Para especialistas, a fatura do discurso contrário às orientações com bases científicas não será barata e o Brasil corre o risco de sofrer um isolamento comercial por conta da falta de controle sanitário

Simone Kafruni
postado em 06/04/2020 06:00
 (foto: NICHOLAS KAMM/AFP - 11/3/20]
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(foto: NICHOLAS KAMM/AFP - 11/3/20] )
Araújo com o secretário de Estado Mike Pompeo: chanceler está à frente de uma diplomacia que diminui o paísAo negar a necessidade de distanciamento social e, mais do que isso, desobedecer as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), passeando e provocando aglomerações em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro manchou a já combalida imagem do país no exterior. Para especialistas, a fatura do discurso contrário às orientações com bases científicas não será barata e o Brasil corre o risco de sofrer um isolamento comercial por conta da falta de controle sanitário. Nem mesmo a mudança de tom no último pronunciamento aliviou as críticas internacionais.

A imagem do país lá fora começou a se desfazer com a política ambiental do governo Bolsonaro ; ou a ausência dela ; em relação às queimadas na Amazônia. A falta de diplomacia nas relações com a China agravaram o quadro. Porém, nada foi tão contundente quanto a insistência do presidente em negar a gravidade da pandemia de coronavírus. Para piorar, Bolsonaro insiste em comemorar o golpe militar. Tanto que diversas entidades de direitos humanos apresentaram denúncia contra o governo brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU) por conta do comportamento do chefe do Executivo.

;Nunca, antes, o país esteve tão isolado diplomaticamente;, alerta André Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). ;Bolsonaro está em isolamento internacional, porque pouquíssimos países ignoram a pandemia;, diz. Segundo ele, o negacionismo é de origem da direita antiglobalista, cujo principal defensor é Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a quem Bolsonaro imita. ;Eles têm ranço contra organismos internacionais. Veem ameaça em qualquer órgão da ONU, como é o caso da OMS, desprezam a atividade científica e divulgam informações falsas ou distorcidas;.

No entanto, Trump recuou e ampliou o período de quarentena. ;Vamos ver como Bolsonaro se comporta. Seria o momento de recuar também, mas ao que parece, dobrou a aposta;, lamenta o especialista. Para ele, há um repúdio internacional ao presidente brasileiro. ;As críticas são pesadas quanto ao comportamento pessoal dele diante da crise. Em resumo, a comunidade internacional acredita que Bolsonaro não está preparado para enfrentar a crise. Por isso, enfrenta isolamento, tanto dentro do governo quanto no cenário internacional;, avalia.

O efeito é o encolhimento do Brasil. ;Hoje, o país não tem capacidade de influenciar nada, isso tem impacto no comércio exterior, porque provoca afastamento de importantes compradores e investidores;, considera Reis. A segunda questão, segundo o professor, é sanitária, um dado muito importante em relações comerciais. ;Se o Brasil se mostrar descontrolado sanitariamente, vai perder espaços nas exportações. Corre o risco de um isolamento comercial;, sentencia.


Dupla criticada


Para Juliano da Silva Cortinhas, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a postura do presidente é lamentável. ;O comportamento diante de um assunto de vida ou morte dos cidadãos se baseia nos achismos e visões incorretas do mundo. Isso pode trazer consequências muito graves;, avalia. O professor alerta para o isolamento de Bolsonaro, inclusive das associações que apoiavam seu governo. ;Há um distanciamento interno das Forças Armadas. Do ponto de vista externo, a imagem é ruim desde que o presidente assumiu, porque o chanceler Ernesto Araújo não colabora em nada;, destaca.

Cortinhas alerta que os dois ; Bolsonaro e Araújo ; são indivíduos muito criticados no meio internacional por posturas contrárias aos direitos humanos e ao meio ambiente. ;Desde que Bolsonaro assumiu, o país perdeu o status de cooperativo, de uma nação que privilegiava a cooperação. Hoje, o Brasil é unilateral, um país que não respeita o conhecimento científico;, lamenta. As atitudes do presidente, segundo o professor, demonstram sua inépcia para o cargo, sua incapacidade de conduzir o país. ;Eu vejo que existe um cálculo por trás das suas afirmações. Ele tentou se capitalizar politicamente com o discurso de proteger o interesse dos mais pobres, garantindo empregos. Diante da gravidade do coronavírus, foi um grande erro de leitura. Perdeu muito apoio nas redes sociais, se deu conta de que a tacada foi errada, mas não sabe como corrigir;, assinala.

[SAIBAMAIS]A paralisação da economia não é uma opção, conforme o professor André Cunha, da UFRGS. ;Vai parar. O governo tem que tentar minimizar os custos e apoiar as famílias. Ao negar tudo, a imagem que fica, fora e dentro do país, é de falta de sintonia com a realidade;, avalia. Para ele, o governo de Bolsonaro corre o risco de implosão interna. ;Os ministros não obedecem, os governadores, também não. E o mundo está observando isso. A imagem é de um país sem liderança.;

O professor explica que os comandantes da área econômica estão desmontando o Estado, em um momento em que a presença estatal é muito mais necessária. ;Os sinais são confusos, falta coordenação. As instituições existem, mas precisam de comando competente e eficiente. Em nenhuma área isso está ocorrendo. O mundo está vendo um presidente contra o seu povo;, resume.

Ação descordenada e tímida

No entender do professor de Economia da UFRGS André Cunha, do ponto de visto de econômico, o Brasil está agindo de forma descoordenada e tímida. ;O FMI (Fundo Monetário Internacional) tem um site onde atualiza as políticas adotadas pelos países. Há exemplos positivos de países liberais, como o governo se diz ser;, afirma. Segundo ele, na Inglaterra, o governo promete pagar salários de até 2,5 mil libras, o que é um valor acima da média no país. ;E a Inglaterra tem um governo pró-mercado;, lembra.


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