Politica

Bolsonaro ignora isolamento social sob olhar dos médicos Caiado e Mandetta

Sob o olhar dos médicos Ronaldo Caiado e Luiz Henrique Mandetta, o presidente Bolsonaro ignora o isolamento social, forma aglomerações e tem contato com apoiadores ao visitar obra de hospital de campanha em Goiás

Marcos Paulo Lima
postado em 12/04/2020 08:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
De máscara, Bolsonaro e Caiado se abraçam durante a visita do presidente ao hospital de Águas Lindas; o governador evitou criticar o presidente: O sábado de aleluia do presidente da República, Jair Bolsonaro, foi mais um dia de descumprimento das orientações de autoridades sanitárias em relação ao novo coronavírus. Em visita à obra do hospital de campanha de Águas Lindas (GO), unidade que está sendo construída para atender a pacientes com a Covid-19, Bolsonaro se aproximou sem máscara de populares que se aglomeraram para vê-lo. O presidente tocou em algumas pessoas, apertou a mão de pelo menos um policial, autografou uma camiseta e chegou a ter a mão beijada por uma mulher.

Bolsonaro chegou ao local, a 47km de Brasília, por volta das 11h20. Entrou no canteiro de obras do hospital de máscara, mas, quando se aproximou de populares, retirou o equipamento de proteção. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), evitaram se aproximar da população. Ficaram afastados enquanto o presidente falava com as pessoas. Minutos antes, elas haviam vaiado o chefe do Executivo estadual, com gritos de ;Caiado traidor;.

Mandetta e o governador de Goiás, ambos médicos, têm frisado a importância do isolamento e distanciamento social para conter o aumento de casos de coronavírus. Antes de se aproximar dos populares, Bolsonaro, assim que viu o governador, o abraçou. Em seguida, o democrata despejou álcool em gel nas mãos do presidente e fez o mesmo nas próprias mãos.

Há uma expectativa sobre a relação entre o governador e o presidente. No último dia 25, Caiado rompeu com Bolsonaro depois de o presidente chamar a Covid-19 de ;gripezinha; em pronunciamento e criticar governadores por medidas restritivas. Na ocasião, Caiado disse que sempre foi aliado, mas que não iria admitir as investidas de Bolsonaro. Frisou a importância do isolamento para evitar o aumento de pessoas contaminadas. E disse que as ;declarações do presidente não atravessam as fronteiras de Goiás;.

Ontem, o governador evitou críticar Bolsonaro e minimizou as desavenças políticas. Ao ser questionado, por exemplo, se a visita seria um sinal de paz entre os dois, Caiado disse que sua função era ;agradecer um hospital de campanha com 200 leitos;. Por outro lado, sobre a postura do presidente, de se aproximar de aglomerações, Caiado afirmou: ;Ele que deve explicar essa situação. A minha posição vocês acompanharam;. O democrata disse, ainda, que responde por seus atos e que o decreto de isolamento em Goiás continua em vigor até o dia 19.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, também evitou comentar as ações do presidente. Em relação aos populares que se aglomeravam para ver Bolsonaro, Mandetta disse que pode apenas recomendar. ;Não posso viver a vida das pessoas. As pessoas que fazem uma atitude dessa hoje daqui a pouco vão ser as mesmas que vão estar lamentando;, disse. Questionado se a orientação valia também para o presidente, o ministro respondeu que ;vale para todos os brasileiros;.

O distanciamento social é uma orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, como estratégia para reduzir a velocidade de contágio do vírus, transmitido por gotículas respiratórias (fala, tosse ou espirro, por exemplo). Bolsonaro, entretanto, descumpre as recomendações reiteradas vezes. Na última sexta-feira, o presidente foi a uma farmácia, gerando aglomeração, e lanchou em uma padaria. O presidente limpou o nariz com o braço e a mão, e em seguida apertou a mão de algumas pessoas, inclusive de uma idosa.

Durante a visita a Águas Lindas, Bolsonaro não concedeu entrevista. A entrada para visita às obras ficou fechada à imprensa. A Secretaria de Comunicação alegou que o evento era privado, e que sequer constava na agenda presidencial. Mais tarde, a agenda foi atualizada com o registro da visita. Embaixo de uma das tendas do hospital com outras autoridades, houve uma rápida explicação sobre as obras, e Bolsonaro falou de forma breve com os presentes.

A previsão é de que o hospital fique 100% concluído em 30 dias, sendo 15 para a obra e mais 15 para equipá-lo. A construção começou na última terça-feira. O local terá 200 leitos, sendo 40 de suporte avançado, e deve ficar em funcionamento por quatro meses, conforme previsão inicial. O ministro Luiz Henrique Mandetta anunciou que o próximo será em Manaus. Amazonas é o estado com um dos cenários mais preocupantes do país, sendo o quarto com mais casos, totalizando 1.050 e 53 mortes.



;Não falo de política;


O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não quis comentar sobre a sua relação com o presidente Jair Bolsonaro. Ameaçado de demissão durante a semana, o ministro desconversou a respeito do seu momento com o presidente bem como da conspiração do ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e do deputado Osmar Terra (MDB-RS) para tirá-lo do cargo. ;Não falo sobre política;, respondeu Mandetta.

Depois de visita à obra do hospital de campanha de Águas Lindas (GO), o ministro foi a Goiânia com o governador Ronaldo Caiado. Os dois saíram juntos no helicóptero do governo de Goiás e se reuniram na residência oficial do democrata. Bolsonaro foi embora minutos antes para Brasília.

Durante a visita ao hospital, ao ser questionado se mantém a defesa ao ministro, Caiado disse que Mandetta é seu amigo. O ministro, por sua vez, fez questão de parar ao lado do governador e afirmar que no Congresso Nacional fez apenas um amigo: Ronaldo Caiado. Mandetta é deputado federal desde 2011, tendo se licenciado para assumir o cargo de ministro. Os dois são correligionários do DEM, médicos de formação e contrários às posições de Bolsonaro sobre isolamento social.

Na última segunda-feira, com a iminência de Mandetta ser demitido, Caiado defendeu a permanência do ministro. ;É uma pessoa preparada;, argumentou.

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